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o génio do povo

o génio do povo
Data :
01/03/2016

​Excerto do livro Memórias da Grande Guerra  (1919), de Jaime Cortesão (1884-1960).


​Portugal entrou na Guerra em 9 de Março de 1916, após declaração de Estado de Guerra apresentada pelo embaixador do Império Alemão em Lisboa ao governo da República Portuguesa.


O GÉNIO DO POVO


Março de 1916.


Mazina, Kuangar, Naulila... Nomes que soam como bofetadas.

Depois hesita-se, disputa-se, combate-se. Já a face arrefece. Alguns querem mesmo oferecer a outra. Mais um passo: requisitam-se os navios... E a hora grande bateu: estala a declaração da Alemanha.

Na Câmara a sala, de pé, desde as carteiras até às galerias, ao formigueiro humano, delira e aclama, com uma só boca: Viva a República! Viva a guerra!

As almas abriram caminho dumas para as outras e a emoção de cada um multiplica-se pelo entusiasmo frenético da turba. Ao meu lado este grande Gavroche, que passou a vida a rir e a descrer, tem os olhos afogados em lágrimas. Uma voz vai erguer-se talvez com fria dúvida, mas a onda de fogo tudo engole.

Uma seriedade nova vinca as frontes e põe labaredas nos olhos. Comungamos a Pátria; somos em estado de graça.

Não durmo nessa noite. É um diálogo entre mim e a consciência. Decido oferecer-me para partir, e ao dia seguinte, em carta ao Ministro da Guerra, Norton de Matos, declaro-lhe sacrificar a essa grande obrigação os sagrados deveres de família, pois entendo que esta guerra terá para o bem da Humanidade consequências tamanhas, quais ninguêm mesmo pode prever desde já.

Por terras de Portugal, nas cidades, o povo ergue-se ao grito de guerra. Em Lisboa uma multidão imensa vai à Câmara Municipal manifestar ao Chefe do Estado o seu apoio. Céu azul-rútilo. Dia de apoteose na Terra e nas almas. Olavo Bilac, o grande Poeta brasileiro, assiste ao desfilar da multidão e do alto duma varanda saúda o Povo que o aclama. Ao sair do Palácio do Município, na carruagem presidencial, alêm do ministro inglês e do Chefe do Govêrno, Dr. A. J. d'Almeida, vai tambêm Guerra Junqueiro. Os dois poetas lusitanos, epónimos das duas nações, sagram com a sua assistência o acto ingénuo da turba.

Irá então reatar-se o ciclo truncado das nossas lutas épicas? Irá cumprir-se a profecia de Edgard Quinet?

Quando êle, em 1845, visitava Portugal, dizia de nós:

«Dans le silence qui les environne, ces hommes ont l' air de continuer la bataille autour du corps du roi Sebastien.»

E acrescentava:

«Et pourtant, malgré cet engourdissement mortel, je jurerai que le feu moral couve encore quelque part. Cette terre recommencera de trembler et de jeter des éclairs.»

Em verdade, a nossa vida, há um século, denuncia-se apenas por isolados clarões de relâmpago. Esta nação, mal lhe roubaram a escota e a espada, que descobriu e avassalou meio mundo, ficou-se para aí abismada na contemplação da sua última aventura heroica.

O pensamento da sua independência inda a levanta para resgatar a liberdade, e, apenas quando a afrontam no seu brio, estremece e ergue-se toda ela, fulgurada pela mesma raiva: é na aurora e no ocaso do século XIX, – com as invasões napoleónicas e com o ultimatum. Mas, esfriada a canícula patriótica, recai a dormitar. Só a mudança de regimen de novo a abala profundamente, de tal modo reacendeu aos seus olhos a estrêla da esperança.

É inútil negá-lo: uma grande parte da nação não pensa nem sofre. Há três séculos que está entorpecida. Ignorância, egoismo e cobardia. São o zero à esquerda. Por si nada valem. E dentre os que se disputam a primazia de factores da massa inerte, os valores mais altos uniram-se em tôrno à bandeira da República por adaptação necessária a esta lei natural: só as formas e as ideias progressivas são elementos de vida contínua, isto é, se multiplicam.

Foi essa parte da nação – poucos chefes e muito povo –, que, ao estalar a grande guerra, encarnou genialmente esta verdade.

E mais o povo do que os chefes.

Os grandes nunca a disseram toda. Mas a arraia teve relâmpagos de intuição secreta. Em Portugal é assim: calam-se os profetas da grei, mas a Sibila do Povo lá delira os oráculos.

Que diabo fazemos sôbre a Terra?

Ocupamos, mercê das colónias, um lugar entre as maiores nações. Mas trata-se duma presença meramente passiva e corporal. Obstruimos o Mundo. Eis a ocasião de tomar lugar na vida, em presença activa do espírito. De contrário, o desmedido corpo morre, e arredam-nos, sem clemência, do caminho dos vivos.

O nosso esfôrço colonizador elevára-nos à função preeminente de pátria-mãe duma outra nação. Desprezámos há muito tão elevado encargo, o que só redunda em desprestígio próprio. Excelente ensejo para recuperar o ascendente materno, tornando-nos, pelo exemplo, a sua inspiradora moral.

E como? Encarnando o ideal comum, obedecendo ao génio da raça a que as duas nações pertencem. Vitalizando-nos, do mesmo passo voltávamos a radiar energias fecundas.

Trata-se duma luta mundial de grave risco e desmedido alcance? Nós, mal atingimos a maioridade em Aljubarrota, logo, em nossa pequenez, definimos a vida como uma fôrça que tanto mais se exalta, quanto multiplicada pelo perigo e pela grandeza do fim. O Mundo foi depois o teatro das nossas acçôes.

Combate-se pela libertação humana? Mas o pensamento da independência tem sido o fulcro activo da consciência nacional, e as lutas pelas liberdades individuais veem de tão longe, na história pátria, que se lhe buscarmos o início até às origens da grei, as duas datas coincidem. É um grito, que não se cala. Se o abafam na boca, restruge depois mais violento.

Não; é mais ainda? O gigantesco esfôrço dos povos vai descobrir um Mundo novo do espírito? Melhor. Aprestemo-nos então para que ao abordá-lo assentemos na carta, como outrora, o nosso padrão das Descobertas.

Aí está. Se desde logo nos atraiu a causa dos aliados e ansiamos secundá-la não foi apenas pelo sentimento de fidelidade aos tratados. É que chegára a hora de reviver e reassumir a nossa grande missão civilizadora.

O povo encarnou esta verdade genialmente, dissemos nós. Genialmente, pela intuição superior de todos os interêsses e porque obedeceu ao génio próprio, às suas mais íntimas e puras virtualidades.

Assim realizaram profundamente, e sem o dizer, o culto da Tradição. Êstes são os iniciados: adoram a essência. Os outros, que proclamam êsse culto a cada passo, e se dizem seus detentores, são os profanos: degradando-se ao fetichismo, prosternam-se a um manipanço.

Assemelha-se a tradição àquela Fénix da fábula. Quando o corpo está decrépito, antes que a morte venha, procura por seu alvedrio incendiar-se com a antecipada certeza de que renasce das cinzas. O antigo corpo – êsse ardeu; mas o princípio activo reencarnou. Por isso os que a adoram na sua velha e primitiva forma dão-se a ilusão de certos sentimentais que, em memória do seu canto antigo, conservam a ave empalhada debaixo duma redoma.

Não nos esqueçamos: viver é progredir; mas demos ainda ao berço alguma coisa do túmulo.

A esfera armilar continuará a ser na bandeira pátria um símbolo de ansiedade infinita e de domínio sôbre a terra. O contrário seria renegar séculos de história. Mas deixe de atestar apenas um passado de violência e conquista. Que se dilate e inscreva, à chama das duas côres da vida – o viço da Terra e o sangue do Homem, na ânsia ilimitada em que elas pulsam.

Dominámos o Mundo pela superfície? Afundemos-lhe êsse domínio até ao coração; e a mão, que pesou sôbre êle, ajude agora a libertá-lo.


Memórias da Grande Guerra (1916-1919), Porto: edição da «Renascença Portuguesa», 1919, pp. 13-18

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