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fritz e berta

fritz e berta
Data :
03/06/2016

​Excerto do livro A Malta das Trincheiras: migalhas da Grande Guerra 1914-1918, publicado por André Brun em 1918.


Oficial do Exército, escritor, humorista e dramaturgo, André Brun (1881-1926) integrou o Corpo Expedicionário Português e partiu para França em 18 de Abril de 1917. A Malta das Trincheiras é um relato cheio de humor da sua própria experiência na Grande Guerra.

 

Fritz e Berta


«Amigo» Fritz é aquele boche que está ali defronte a cento e cinquenta jardas de distância, a duzentas se tanto. Na escala dos nossos ódios, «amigo» Fritz vem quase em último lugar. Na guerra das trincheiras, a malta que vive nas cavernas de lama ou nas casas desmanteladas das reservas e apoios odeia em primeiro lugar os camaradas anichados nas repartições da retaguarda: os cachapins. A seguir odeia o serviço postal e a censura que demora aquelas cartas pelas quais ansiamos, e as encomendas postais que almas amigas nos enviam. Odeia ainda os palmípedes, a gente dos quartéis-generais que anda de automóvel e mora em pequeninas cidades. Odeia os morteiros pesados, médios e ligeiros, que fazem fogo no nosso terreno e cujas guarnições se põem ao fresco terminado o trabalho, enquanto a malta fica para receber a resposta inimiga, dada com a mais notável pontualidade. Odeia a brigada, que tem a culpa de tudo quanto nos acontece de desagradável, desde as requisições que não chegam até à chuva que cai. Por fim, odeia muito cordialmente «amigo» Fritz.

O boche imperador, o boche Kronprinz, o boche chanceler, o boche inventor do gás asfixiante, o boche lá da retaguarda da frente, são entes abjectos e desprezíveis. Sobre isso não se discute. Mas «amigo» Fritz, o boche que está ali defronte, a patinhar na lama como nós, a dormir em cavernas e em ruínas, a quem as cartas faltam e que atura uma brigada, esse é afinal um camarada. E tanto assim se considera que, quando se entrega, levanta as mãos e diz que o é. Ele é que põe em acção a guerra que os outros nos fazem; mas ele é que sofre a guerra que nos mandam fazer-lhe.

Quantas vezes, deitando a cabeça fora do parapeito ou aproveitando as sombras da noite para pôr pé na terra de ninguém, não temos tido vontade de conversar com o Fritz, de trocarmos impressões e de lhe perguntar se tem recebido carta da família. Deste estado de espírito, que só pode compreender quem tem vivido aqui face a face com ele, estado de espírito que ele partilha também, é que nascem as mil e uma convenções tácitas desta guerra. Há umas horas em que se não faz fogo, em que todos dormem, outras em que se pode trabalhar nas reparações, encher sacos de terra, colocar arame, consertar parapeitos. Dali a pouco trabalham os nossos telégrafos e os dele, giram as suas estafetas e as nossas e, enquanto «amigo» Fritz dispara os seus morteiros e se safa de gatas, os nossos morteiros respondem, e de gatas se safam as guarnições. Então alguns pobres infantes portugueses sobem de maca as trincheiras de comunicação, ao passo que os nossos observadores encarrapitados nas árvores vêem passar de maca nas trincheiras de fronte do «amigo» Fritz, com uma perna a menos ou a cabeça amolgada. Ele de lá vê-nos construir uma nova passagem? Que remédio tem ele se não contar o que viu; mas já sabe o que vai suceder. O museu dele comunica a referência e chovem granadas sobre o nosso trabalho. Um comandante de companhia corre a um telefone. Passados minutos, o nosso museu pede represálias à artilharia amiga, e uma trincheira que Fritz estava arranjando, em que fazia muito gosto, voa-lhe pelos ares; e ele tem de reconstituí-la à noite enquanto nós consertamos a nossa. E os dias passam assim.

À noite vai para a patrulha. Dizem-lhe que venha observar o nosso arame, sujeito a ser visto à luz de very-light e a levar uma rajada de metralhadora ou uma granada de espingarda. Ele vem; mas tenho a certeza de que neste trajecto em que se enovelam todos os nervos e o cérebro dói, em que a espingarda pesa duzentas arrobas e cada pedra parece uma catedral, a única ideia que o consola é que outros soldados nossos andam rastejando no sentido inverso, cismando o mesmo que ele cisma, como ele sujeito aos moinhos de café e aos foguetes de pataco. De vez em quando a brigada dele ordena-lhe que se não limite a escutar e observar, e que «colha identificações». Esta é uma maneira de dizer que venha ao nosso parapeito, com uma granada em cada mão e com um cinto cheio delas, que procure saltar na nossa linha, matar ou prender sentinelas mais isoladas ou menos prevenidas e levar o que puder: prisioneiros, papéis, material, qualquer cousa enfim. Fritz já sabe que, de dez empresas destas, uma por vezes acerta. Lembra-se dos muitos que ficaram estendidos sobre o arame e, quando parte para essa viagem de que não tem a certeza de voltar, o que o ampara é principalmente a recordação de que, dois dias antes, se não lança o seu foguete iluminante a tempo, talvez os nossos o tivessem ou morto ou aprisionado. E assim se passam as noites.

Esta é a guerra em que a gente se aborrece; mas ele aborrece-se também muito. Uma tarde, um soldado português descia uma trincheira levando às costas um panelão de rancho. Sob o peso e debaixo do casaco de cabedal que os faxinas usam, o desgraçado suava em bica. Parou um instante a descansar, apoiou a carga no talude da escavação e, levantando um pouco a cabeça, viu no alto duma escada encostada a uma árvore um observador espreitando por um óculo.

– Tu que vês, ó 58? – pergunta o de baixo.

– O quê? Não vejo nada – respondeu o outro, sempre bispando pelo canudo. – Ah! Lá vejo agora... Lá vai um, muito adiante. Leva uma panela às costas.

– Uma panela? Se calhar, é o rancho.

– Se calhar...

E, só com esta ideia de que do lado de lá, àquela mesma hora, andava um boche também carregado e suando, o nosso amigo sorriu, criou alma e forças, com um ahn! esticou as correias e ele aí vai, trincheira abaixo, até à primeira linha. A panela tinha de menos o peso que carregava o lombo do camarada defronte, do nosso «amigo Fritz».

Curioso efeito desta guerra, o de aproximar pela simpatia a distância aqueles que têm por tarefa diária matar-se o mais possível!
 

***


Mas se o Fritz merece aquele interesse que une os que têm o mesmo destino, Berta inspira-nos um rancor profundo e sem limites. Berta é aquela prima da Kultur; a grande industrial da guerra que tem fundições de canhões, fábricas de munições, laboratórios de gases, que inventou, fabrica e fornece todas as tralhas de aço, cobre, alumínio, estanho e ferro, que diariamente nos desabam em cima. É Berta que engendra cada dia um novo engenho de guerra, que anda pelos museus a desenterrar as catapultas para desenhar os novos modelos de morteiros e obuses de trincheiras, que reduz os grandes canhões às proporções de brinquedo do wizz-bang, que não dorme, lá muito à retaguarda, a cismar no que Fritz há-de fazer para atrapalhar a existência de Folgadinho.

É ela que está à testa do grande bazar de máquinas de morte. Cada vez que ela traz à feira uma nova amostra, Fritz abana as orelhas, já não acredita naquilo. Bem sabe ele que, na primeira surpresa, o novo produto fará bom efeito; mas de mais sabe ele também que, passado mês e meio, o que ele experimenta sobre a linha do parceiro defronte, este lho reenviará, e muita vez correcto e ampliado.

Da primeira vez que Berta apareceu com o seu gás venenoso, Fritz, que está farto da guerra até ao barrete redondo, achou graça e pensou consigo que aquela porcaria era talvez um meio de regressar mais cedo ao cachimbo de porcelana, à salsicha, à boa caneca de cerveja fresca. Mas quando, daí a tempos, recebeu o troco da sua novidade, quando de súbito se sentiu sufocado, queimado, envenenado, antes de soltar o último suspiro ou de fechar os olhos para todo o sempre à luz do dia, Fritz murmurou: – «Para quê, afinal?»

Quando o seu oficial lhe diz que a Alemanha é o primeiro povo do mundo, que Berta é infalível e lhe dará a vitória com canhões que atirem à Lua e projécteis que matem cem mil homens dum só golpe, o vizinho defronte, calcanhares unidos, responde: – «Ia! Ia! Hoch! Hoch!». Mas, apenas fica só com os camaradas no seu covil de lama, ele põe-se a pensar que é talvez de Berta que lhe venham os seus males, que as nossas granadas não são de manteiga fresca e não fazem simplesmente covas no ar.

Ai de ti, Berta, na hora em que Fritz se convencer da inutilidade do seu sacrifício! Tu que comes o pão de luxo amassado com o suor dos trabalhadores de Essen, que queres valorizar com o sangue da tua malta e da nossa a cotação das acções das tuas grandes companhias de navegação, talvez encontres diante de ti, não o Fritz que nós bispamos de cá, encolhido com os seus traveses e esgueirando-se pelas suas trincheiras, mas um outro formidável, vingador de si próprio e dos camaradas que assassinaste inutilmente.

Nesse dia serás tu que gritarás «Kamerad!»; e de debaixo do chão, de dentro das covas, milhões de vozes gritarão a Fritz que te não dê quartel, e estoire os teus fornos, e incendeie as tuas fundições, e faça saltar os teus laboratórios.
 
A Malta das Trincheiras, Lisboa: Guerra & Paz, 2014, pp.103-107

 

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