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quarta-feira, 22-11-2017
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Jornal de um prisioneiro

Jornal de um prisioneiro

Carlos Olavo (1881-1958) combateu em França, na Grande Guerra, obteve a cruz de guerra e foi prisioneiro dos alemães. Em Jornal d'um prisioneiro de guerra na Alemanha : 1918 (1919), relata a sua experiência. 


10 de Abril – Estou em Lille. Cheguei esta madrugada depois de ter marchado durante 14 horas seguidas. De Pont du Hem até Lille são 35 a 40 kilometros que nós fizemos sem repouso e sem alimentação. Chegámos aqui quasi mortos de fadiga e de fraqueza. Depois de responder ás perguntas do sttylo sobre a nossa identidade e de nos termos recusado a responder a todas que diziam respeito á nossa situação militar fomos distribuidos por varias casrnas e quartos. E comer? Ah! ainda não é d'esta vez Durmamos: qui dort dine! Mas o diabo é que nos meteram 7 officiaes n'um pequeno quarto onde havia 3 camas e onde já estavam 3 inglezes deitados. Impossivel estender as pernas e dormir porque a superfície do quarto não era sufficiente para que nos estendessemos todos.

Só hoje de manhã, depois d'um protesto nosso contra este systema de tratar officiaes, é que elles nos deixaram só trez aqui. Ah! meus amigos: que consolação e que delicia! Já posso estender-me e descançar e dormir. Dormir muito até o fim da minha fadiga e das minhas dôres!

Esta manhã trouxeram-nos tambem um pedaço de pão negro – o pão negro do exílio! – e uma gamella com café sem assucar. Café chamamos-lhe nós por não saber classificar esta horrível. Hontem depois de ter sido aprisionado no Pont du Hem, segui pela estrada de la Bassé com destino a Neuve-Chapelle. Procurei curiosamente as nossas trincheiras. Nada existia já, porque tinham sido totalmente destruidas pelo fogo da artilharia e pelas minas. Um official allemão que encontrei á entrada das linhas inimigas interpellou-me n'estes termos em perfeito portuguez:

– O senhor é official d'artilharia?

– Perfeitamente, sou d'artilharia.

E estendendo-me uma carta:

– Estamos perto de Richebourg, não é verdade?

– Não posso dizer-lhe, porque não conheço uma palavra d'estes sitios. Hontem mesmo cheguei á bateria onde fui preso.

O homem mudou d' assumpto.

– Como é que Portugal commetteu a loucura de se collocar ao lado da Inglaterra?

– É porque Portugal costuma respeitar os tratados que assigna! Limitou-se a ser fiel ao seu tratado de alliança.

Benevolamente o official allemão deu-me de conselho que não seguisse a estrada de la Bassée que estava sendo ainda batida pela artilharia aliada e que tomasse antes uma trincheira de communicação. Segui o conselho por esta razão e por uma outra ainda: pelo espectaculo lancinante que apresentavam os feridos espalhados pelo caminho. Sensibilizou-me tanto a situação d'alguns que os fiz transportar pelos meus soldados. Eram inimigos, é certo, mas o meu sentimento n'aquella hora d'angustia, não os podia collocar fóra da humanidade, nem que eu tivesse adivinhado as torturas de cançasso e fome por que me fizeram passar.

– O que foi profundamente impressionante foi a nossa passagem pelas povoações francezas occupadas pelos allemães. Toda a população civil se amassava nas ruas, recebendo-nos com sympathia, com ternura mesmo.

– Nous sommes des amis! bradavam-nos. E havia olhos que se marejavam de lagrimas, e braços que se estendiam para nós dando-nos pão, biscoitos, cerveja a agua. Os soldados que nos escoltavam affastavam, por vezes, com brutalidade, aquelles que se aproximavam de nós. E diante d'uma interrogação mais impaciente ou d'um olhar mais ancioso nós gritavamos, cheios de fé:

– Tenham confiança. A victoria será nossa!

E ha de ser, c'os diabos! Então vamos deixar espalhar pelo mundo inteiro a dominação d'esta «cafraria scientificamente organizada»?



Jornal d'um prisioneiro de guerra na Alemanha : 1918, Lisboa: Guimarães Editores, 1919, pp. 18-20


Este livro encontra-se digitalizado na Biblioteca Estatal de Vitória, Austrália. Ver aqui.

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