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Uma figura d'inglez

Uma figura d'inglez
O Clarao da Epopeia
Data :
05/07/2016

Mário de Almeida (1889-1922) foi correspondente em França do jornal A Capital durante a Grande Guerra. O livro de impressões, O Clarão da Epopeia (1919), resulta da reunião das crónicas publicadas naquele periódico entre julho e dezembro de 1918.


Uma figura d'inglez




O adido militar inglez em Paris, deu-me por companheiro de viagem o tenente Robinson. Mas a providencia dos reporters deu-me no tenente Robinson um resumo, uma syntese do exercito inglez. Folhear, observar, interrogar Robinson, era de facto, como depois o verifiquei, exactamente a mesma coisa do que percorrer toda a linha inglesa desde Nieuport até ao sul d'Arrás. E quem o tivera conhecido, conhecêra com efeito cem mil officiaes inglezes.

Vivi com elle seis dias, seis dias de intima comunhão em que partilhávamos da mesma cama – quando havia cama, – viajámos nos mesmos camiões, e metemos os dedos na mesma lata de corn-beef. Tinha uma farda nova, um sorriso claro e uma maleta de mão. A impressão que tive ao vel-o pela primeira vez nos salões do bureau inglez da rua de Saint-Honoré, foi a que sempre conservei. A sua edade constituiu sempre para mim um ponto d'interrogação. Podia ter dezoito ou trinta e seis anos e fazia provavelmente a barba de quarto em quarto d'hora porque nunca lhe vi a mais ligeira sombra de pelo maculando-lhe a carnação, uma carnação de bébé, de leite e de rosas. Lembrava-me sempre um presunto de Strasburgo, rosado, de veios brancos, lácteo, carminado. Era alto, cheio, quasi silencioso, de modos brandos, d'uma polidez requintada, uma grande demoiselle que tinha a cruz de guerra e um lenho medonho no pescoço solido e roliço. Quando nos apresentaram, articulou, ciciou um good morning, sir e estendeu-mse logo uma blague cheia de tabaco d'Aleppo, que tinha conseguido trazer dos Dardanellos. Depois tomámos um primeiro champagne silencioso e risonho.

Quando, na noite seguinte, embarcámos, na gare do Norte, para Beauvais, tomei conhecimento com a mala de mão do tenente Robinson, parte alíquota d'elle e sem a qual nenhum inglez poderia viajar com dignidade e decência. Era um monumento, uma obra prima magnifica dos srs. Palck and C.º, correeiros em Pall-Mall – e que não tinha mais de meio metro de comprimento. Pois nunca manifestei o maior apetite, o mais chimerico e monstruoso desejo, sem que esta mala, próvida e abundante se não abrisse logo, confortável e bem servida. Todo o conforto dos civilizados, toda a magnificência dos raffinés residia ali; tinha ceroulas de lã e agua de Vals, peúgas de fio d'Escossia e perfumes de Lubin, lenços d'assoar e fructas cristalizadas – e decerto, se me apetecesse, ou no wagon, ou na campina ou no retiro discreto das salas de banho, um Gaurisankar ou um rio Amarello, sem duvida o tenente Robinson os tiraria da malêta com o seu claro e placido sorriso. Para ter malas assim, não basta ter dinheiro para as comprar – é necessario tambem, é indispensável ser inglez.

De facto, ninguem era mais soberbamente inglez do que o tenente Robinson. Aquelles que teem por suprema expressão de jactancia patriótica o Deutschland uber alles germanico, não conhecem, sem duvida, o England for ever, dito de dentro, com uma serenidade inabalável e convicta, uma consciência de força e de triumpho que poderá, muitas vezes ser mal interpretada por todos nós, homens do sul e de grandes phrases – mas que é, na verdade, a formula magica e única que faz da Gran-Bretanha um grande paiz. Nunca ouvi o tenente Robinson glorificar a sua terra ou ter a proposito d'ella qualquer repto oratorio inflamado e lamentável, como é vulgar entre nós, nos politicos e nos pharmaceuticos. Mas em todos os seus actos – nos mais simples – em todas as suas acções – nas mais ligeiras – transluzia um orgulho calmo, uma perfeita consciencia de superioridade, fontes primeiras de Juvencia onde a Inglaterra toma constantemente um banho lustral. Não era um soldado – era um gentleman; não era uma farda – era uma ideia. Como para os bésteiros de Taillebourg Galaor era um symbolo ridiculo e vão, para os inglezes d'hoje O'Connor ou Kosciusko são inutilidades unicamente aproveitaveis á litteratura. No tenente Robinson não existem rajada, eloquencia ou tumulto, causas desoladoras de indisciplina e de confusão. Mas possue um senso finissimo e um golpe de vista incomparavel. Não comprehenderia talvez como Turenne, na vespera de uma batalha, poude dormir sobre um reparo de canhão, mas nos intervallos do fogo lia e anotava um volume desirmanado de Gibbon, A decadencia do Imperio Romano, e fazia commentarios sobre Augústulo ou sobre Valerio Maximo. Muitas vezes lhe vi esse Gibbon. Tudo n'elle era calmo, reflectido, sensato. Faz a guerra porque é preciso, é indispensavel vencer a Allemanha. Mas faz a guerra com a mesma placidez com que joga o crocket e parte d'uma trincheira como parte d'um fock. Se toma um pedaço de linha, tem a mesma satisfação de quem faz um rover e tripula um tank e marcha para a morte e dá a sua vida com a mesma facilidade com que enverga uma camisola de malha. É a quinta essência da tenacidade conservada n'um blóco de gelo. Está ali, fazendo a guerra como podia estar na Australia n'uma vida de squatier, ou no Cabo n'uma existencia de caçador d'elephantes. Gente assim é invencivel – porque se não gasta e conserva sempre a mesma frescura, a mesma ideia e o mesmo plano. Á noite, o tenente Robinson sorri e elucida: – Vou dormir! E dorme oito horas seguidas. Acorda, sorri e declara: – Vou almoçar! E almoça. Depois, com pachorra, enche o cachimbo, envolve-se em fumo azul, enterra os pés no chão, maciçamente, e annuncia: – Vou bater-me! E vae. Vae e volta sempre de tal forma que traz na farda uma cruz ou uma insignia e no corpo um estilhaço d'obuz. E dois milhões d'inglezes pensam assim, procedem assim, com uma simplicidade admirável.

Esta placidez soberba mais se realça ainda pela forma porque os tommys se instalam. Toda a linha é home e todos se esforçam por tornal-a tão confortável quanto possivel. A cerimonia é uma coisa desconhecida. Na manhã fria e pontuada de chuva em que chegámos á aldeóla de Salleaux, o meu inseparavel companheiro quis tomar o seu banho. Não havia, porém, facilidade em armar o tub. Ainda por instantes julguei que o tenente Robinson trouxesse dentro da sua mala de mão um quarto de banho completo. Não trazia – mas carreava consigo scentelhas de genio. Havia na praçasinha publica uma vaga apparencia de mercado; cincoenta homens e outras tantas mulheres vendiam e compravam generos de mercearia, debaixo de grandes toldos. O tenente Robinson alugou um toldo, dispôz uma dorna, fretou dois grandes vasos d'agua fria e em plena praça, nu e branco como um marmore de museu, tomou o seu banho com delicia e desprendimento – sem largar o cachimbo – sob os olhares attonitos d'uma aldeia inteira. Tirou da milagrosa mala uma toalha turca, um pears e um pulverizador. E ensaboou-se cantarolando com voz de falsete. A minha admiração excedia todos os limites e só foi comparavel á minha indignação quando, n'essa mesma noite, pelas duas horas da manhã, dormindo ambos n'uma adega, onde havia colchões, me senti violentamente acordado. Sempre rosado como um fiambre d'York, o tenente Robinson estava em pé, deante de mim, sorrindo com o seu immutavel sorriso. E estendeu-me a mão.

Esfreguei os olhos, arregalei-os n'um intenso pasmo.

– Adeus! – disse elle.

– O quê? Adeus? O quê? Para onde é que você vae a estas horas?...

– Aproveito um comboio automovel e parto...

– O quê? O quê? O quê?

– ... para Bethune. Adeus!

Com simplicidade, uma concisão spartanas, deixou-me, ás duas horas da manhã, n'uma aldeia meio arrazada, com tanto desprendimento como me tinha encontrado seis dias antes no escriptorio do coronel Brown. E nunca mais tornei a ouvir falar no tenente Robinson.



O clarão da epopeia : impressões da guerra, Lisboa: Portugalia Editora, 1919, pp. 75-80

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