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Portugal e a Guerra e a Orientação das Novas Gerações

Portugal e a Guerra e a Orientação das Novas Gerações
Teixeira de Pascoaes
Data :
01/11/2014
Excerto de um texto publicado em dezembro de 1914 por Teixeira de Pascoaes na revista A Águia, nº 36.

 

Portugal e a Guerra e a Orientação das Novas Gerações


Este anno de 1914 é um anno extraordinario. Occupará na Historia um logar excepcional, como a derrota dos persas, de Juliano, o Apostata, como a Renascença italiana, as Descobertas e a Revolução franceza.

A mais pavorosa guerra de todos os tempos, afflige a velha Europa, o velho continente sempre novo, em successivas crises creadôras, o grande palco-cemiterio, onde a tragedia atinge a maxima expressão dolorosa. Os outros continentes parecem vergeis de idilio juntos d'esta Europa em sangue e fogo desde os seculos.

E desde os seculos, que n'este tragico e antigo continente, duas almas se degladiam: a celto-romana e a germanica.

A primeira é a actual representante da civilisação greco-judaica, firmada no culto enternecido da Beleza, da Justiça amoravel, da lei por todos consentida; a benefica e fraterna civilisação christã.

A segunda, representa uma civilisação apoiada em princípios totalmente diversos. Creada por um povo de caracter violento e exclusivista, repele os sentimentos de simpatia e fraternidade, elegendo a Força material e insensível que quer construir a sua obra sobre a ruina dos outros Povos. É uma civilisação hostil ás outras civilisações, porque a raça que a representa, dominada por um infinito orgulho, convenceu-se de que tinha um destino mundial a cumprir, como os romanos de outrora. Estes, comungando a luz da Grecia, levaram a arder nas pontas das suas lanças, um divino reflexo de Apolo. Tinham, na verdade, uma alta missão a realisar. Roma, sabendo apreender o que de belo e grande surgia no mundo, a luz da Grecia primeiro e a luz christã depois, tornou util o seu predominio á Humanidade. E por isso venceu e dominou.

Mas quanto ao Imperio germanico, se é indiscutivel a sua grandeza e prosperidade, não possue, por emquanto, uma nova civilisação imprescindivel ao mundo. Zarathrousta, o seu moderno heroe, nasceu, por contraste, do tipo christão. Transmutar os valores não é crear novos valores. E que fez a Alemanha? Esta cousa simples: contradizer os principios da civilisação latina. Negar o que ela afirma, e afirmar o que ela nega. A alma latina acredita em Deus? Pois bem! A Alemanha acredita no Demonio!

Eis ahi no que se baseia a sua kultura, de que o mundo prescindirá...

O germanismo não aceita, portanto, o latinismo ou o slavismo. Não vê nas outras almas europeias, forças colaboradôras, coordenadas para a realisação d'um mesmo humano e social, mas forças contrarias, inimigas, que lhe restringem odiosamente o dominio do mundo. A Alemanha aparece no meio das nações da Europa, que trabalham em harmonia, para um mesmo fim superior, semelhante a um Povo estranho, irrompendo d'outro continente, assolando e destruindo, como os mouros na Edade Media.

La Germanie mysterieuse... dizia Victor Hugo, definindo assim a distancia moral que a separa dos seus visinhos, e o segredo profundo em que as suas intimas transformações se operam, em que se acendem os seus secretos e tragicos desejos. Não foi esta guerra uma surpreza? Quem poderia imaginar que a Allemanha de Goethe e Schiller, romantica, revolucionaria, europeia, em breve, se converteria na Allemanha asiatica de Franks e Nietzche, opondo aos principios christãos de bondade e amôr os mais duros sentimentos pagãos de egoismo e crueldade? Um escritor francez comparava a Alemanha de Guilherme II á Persia de Darios, – o mesmo poder material e militar, quebrando-se de encontro aos muros sagrados da cidade que outrora foi Athenas e é hoje Paris.

A alma celto-latina tem um grande poder de irradiação, pela alta e humana cultura que atingiu. A alma germanica isolou-se, concentrou-se no seu próprio sêr, fortalecendo-se das suas proprias qualidades, animada por este sonho grandioso e terrivel de ser ela sósinha sobre o mundo! Um mundo germanico, é o seu ideal.

Um mundo latino, germanico, slavo, apresentando as varias nuances dos Povos, concertadas n'uma bela harmonia superior, eis o sonho fraterno e pacifico dos Paizes que se deram as mãos para a defeza da bôa causa do Direito, da Justiça, da Liberdade, conforme o ideal latino.


Ora, Portugal é um povo de origem celto-latina, com algumas táras mouriscas. Compete-lhe velar tambem pelo fogo sagrado que a Judeia e a Grecia acenderam.

N'esta hora, a França, a Inglaterra, a Belgica luctam, com sublime heroicidade, em sua defeza.

Creaturas ingenuamente dominadas pela preoccupação do sentido real das cousas, têm chamado a esta guerra, uma guerra comercial e industrial.

O deve e o haver invadiu a literatura, com um ar superior e filosofico. Ha hoje a mania da atitude comercial, tal como em 1830 era moda a atitude romantica. E estas modas criam tipos curiosos. Conheci ainda os ultimos romanticos da minha terra. Estou a vê-los, encaixilhados na sua admiravel pose camiliana, ainda firmes sobre as plantas tilintantes de esporins, a cabeleira branca ondulando, fluctuando a um vento já invernoso de paixão, a luneta de cordões pendentes, em cujos vidros amorosos scintilava a etérea e tuberculosa imagem d' uma Ofelia. 

[...]


in A Águia, nº. 36, dez. 1914, pp. 161-2

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