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Pacifismo e militarismo

Pacifismo e militarismo
Alfredo Pimenta
Data :
01/06/2015

​Artigo de Alfredo Pimenta publicado no nº. 18, de 15 de maio de 1915, da revista A Idéia Nacional


PACIFISMO E MILITARISMO

por Alfredo Pimenta

 

Andam um pouco na discussão, em Portugal, as velhas theses do Pacifismo e Militarismo, como se, em verdade, n'esta altura da vida, e deante da experiencia da epocha presente, ainda fosse permittida tal ou qual duvida sobre a verdade real  d'essas theses. A fallencia do Pacifismo é eloquente de mais para que seja preciso estarmos a accentua-la e a documenta-la – pois nos basta olhar a Europa no momento presente, para sabermos de que lado estava a razão: se do lado dos que prégavam a guerra, se do lado dos que prégavam a paz. Ainda mesmo admittindo que a guerra seja um cataclismo geral, prejudicial para todos os que n'ella entram e seus reflexos soffrem, ainda admittindo essa affirmativa, nós entendemos que o melhor modo de a evitar, é prégar a guerra e preparar a guerra. A paz, não nos cansaremos jámais de o dizer, não é mais do que um preparativo para o conflicto. É na paz que se forjam as armas guerreiras, que se temperam as habilidades diplomaticas, que se exercitam as forças militares, e se experimentam as capacidades combativas. A paz succede á guerra porque se exgotam, durante esta, as forças, os impetos, as habilidades e os estimulos. De resto a lei da vida é a guerra, e o estado da vida normal é o estado da guerra. O homem não nasce para a paz: nasce para combater. Tudo, n'elle, desde a primeira hora, é combate. Resistir, reagir, viver – é combater. Uma nação cria-se pela força; sustenta-se pela força, e só pela força pode impôr-se. Não se presta (eu o sei!) esta doutrina a lamechices romanticas, a devaneios humanitaristas. Mas ha lá alguma coisa peior do que as lamechices e os devaneios? Fossem os senhores dizer a Affonso Henriques que não talhasse a golpes de espada os limites politicos da nação – e se andasse a prégar paz e harmonia social entre os povos da Peninsula. Dissessem-lhe que não assaltasse, pela calada da noite, de surpreza, os muros de Santarem, nem faltasse ao compromisso de paz que assumira, em seu nome, Egas Moniz. E Affonso henriques se ouvisse essas sereias encantadoras da doutrina pacifista – nós não seriamos quem somos. A nossa origem, como a origem de todas as nações é a guerra. E affirmar-se, que se deve a não existencia contemporanea das guerras de conquista, á influencia do pacifismo, e da chamada cultura moral, é um erro profundo. As guerras de conquista não existem hoje, como existiram outr'ora, porque são mais difficeis de effectuar hoje – principalmente, em virtude da maior complexidade de interesses, e de ellas effectarem um maior numero de egoismos internacionaes. É a vivacidade d'esses egoismos constantemente presentes que mantem o chamado equilibrio politico dos povos. Uma hora depois de se reconhecer que esses egoismos estão apagados na maior parte das nações, o desequilibrio é um facto, pelo predominio da menor parte. Repare-se na singularidade dos pacifistas, cuja propaganda em favor da Paz, outra coisa não é que a guerra às ideias da guerra. Se eu pudesse fazer o mundo a meu modo, e a vida dos homens estivesse subordinada á minha vontade, talvez me desse ao prazer de fazer dos homens anjos, puros e perfeitos, angelicaes nas suas intenções, femininos e graciosos nos seus gestos − certo como é que mais encanta os meus olhos, a fina haste, esvelta e bella, de uma flôr, do que a grosseira imagem de um canhão de 42. Mas como eu sei que os homens se não subordinam á minha vontade, nem vencem as guerras que são a consequencia fatal dos seus instinctos e sentimentos, e a lei da sua existencia, com hastes esveltas de flôres eu ensino-as a oppôrem aos canhões de 42, canhões mais fortes, e levo á sua consciencia e ao seu espirito a convicção profunda e inabalavel de que é preciso ser forte, amar a Força, cultivar a Força – porque só pela Força se vence. Só são pacificos os povos velhos: a fraqueza é symptoma de mocidade. Ninguem contesta que isto assim seja: mas dizem que é um mal e que é um perigo affirma-lo. Eu digo antes que é um perigo não querer reconhece-lo: é acceita-lo e sermos, dentro d'elle, um agente da vida. Pela Historia fora, as nações têm vencido pela Força. Para que havemos nós de procurar um período – sacrificando a existencia do nosso povo, a independencia da nossa nação? (Quando digo nosso povo, e nossa nação, não me refiro, evidentemente a Portugal – seja isto dito entre parenthesis). O pacifismo francez ia arruinando a França. O nascente pacifismo inglez enfraqueceu a armada. Hoje os patriotas da França e da Inglaterra olham com tremenda animosidade – e com toda a razão – os pacifistas, os humanitaristas, os solidaristas, os criminosos propagandistas do enfraquecimento nacional, do desprestigiamento patriotico que queriam impôr o seu doutrinarismo aos factos, os seus sonhos á realidade, os seus absolutos á contingencia. Não é á volta de Jean Jaurés que a França se une: é á volta de Jeanne d'Arc. Quem acceita a responsabilidade tremenda de formar um povo, quer estando á frente dos negocios da administração publica, quer orientando, por meio do jornal e da tribuna, a opinião nacional, nada tem que vêr (quantas vezes o tenho dito já!) com o seu doutrinarismo pessoal: tem tudo que vêr com as realidades da vida, as exigencias d'essa realidade, e as necessidades effectivas da nação. Quem quizer ser pacifista, que o seja em sua casa, com a mulher e os filhos. Mas não traga o pacifismo para a praça publica, para que o seu paiz não se veja, de um momento para o outro, á mercê de um golpe brusco e forte de qualquer visinho ou de qualquer concorrente longinquo. Os povos como os individuos é na paz que se deixam perverter por faceis vicios e dissolventes costumes. Na guerra tudo é são, porque ella põe á prova todas as qualidades da força e energia e saude, e só deixa viver e dominar quem as possuir. N'este mesmo me recordo de um artigo celebre (celebre para mim, pelo menos) de Gabriel Hanotaux, escripto no Figaro, ahi nos primeiros dias da guerra, em que elle dizia que o estado da guerra era o estado normal da humanidade, e cantava as beneficas virtudes da guerra. Em companhia de Gabriel Hanotaux, vou em boa companhia, porque elle é um francez, e eu tenho a fama de não ser alliado. Eu creio que depois de acabada a presente guerra, ninguem mais terá o atrevimento de vir exhibir doutrinas pacifistas, antes toda a gente tratará de se preparar para a proxima, que será mais cruel, mais demorada e mais teimosa do que a actual. E, portanto, não mais terei occasião, a não ser a titulo de documentação historica, de me referir á peste pacifista que tanto anarchisou a mentalidade do seculo XIX. 

ALFREDO PIMENTA

A ideia nacional : revista politica bi-semanal, A. 1, n.º 18, 15 Mai. 1915, pp. 560-562

 

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