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Os zeppelins sobre Paris

Os zeppelins sobre Paris
Data :
02/12/2015

​Texto do jornalista e escritor Paulo Osório, residente em Paris durante a Grande Guerra, publicado na revista Atlântida, nº. 10, 15 Ago. 1916


Paulo Osório (1882-1965), fixou residência em Paris em 1911, onde se tornou colaborador de O Século, correspondente do Diário de Notícias e director, já em 1922, da versão parisiense deste diário, o Paris-Notícias.

 

 


Os zeppelins sobre Paris



Eu já vi um zeppelin. Mas não me peçam que o descreva tal qual o vi. Outros que, como eu, vagamente o contemplaram, atravessando, veloz, o céu parisiense, definiram-no de tão diferente modo que, hesitante, a memória da minha retina perdeu de todo a confiança em si. Um comparou-o a um charuto, outro… a uma catedral! Eu ia dizer-lhes, mas não ouso, que vi apenas uma coisa longa, esbranquiçada, levemente luminosa, como um farrapo estirado da Via-Láctea, movendo-se no céu…

Foi numa admirável noite de março de há um ano. Paris já então vivia em trevas; e esse novo aspecto de uma cidade que, em tempo de paz, é uma das mais bem iluminadas do mundo, servira para revelar aos seus habitantes algumas das belas coisas da natureza que jamais a civilização esplêndida lhes tinha permitido admirar. Em Paris não havia noites de estrelas, nem noites de lua. A luz eléctrica inundava as ruas e as praças e reflectia-se no céu. Quando o viajante, após o crepúsculo, apercebia ao longe a cidade imensa, sobre ela uma enorme mancha pálida com laivos côr de rosa, como o clarão de um incêndio, apagava no firmamento o esplendor da lua cheia ou o brilho das estrelas.

A guerra revelou ao parisiense noctívago a beleza de um céu de que êle não suspeitava e onde a silhueta das suas casas altas, dos seus monumentos, dos seus templos, destacando-se em negro num fundo já sombrio, dão à Paris alegre de outros tempos um inesperado aspecto de cidade medieva povoada de lendas e de dramas, de troveiros e de espadachins.

Era pois, como eu disse, uma noite de março, a primeira da primavera. Passara a meia noite. Em tempo de paz, começa então a vida estúrdia de Paris: grupam-se os convivas das ceias, regorgitam os cabarets, abrem as boîtes chiques de Montmartre. Exactamente um ano antes, àquela mesma hora, os primeiros pares desciam dos automóveis de marca, à porta da Abbaye, para festejar com o Pommery & Greno ou o Mumm (hoje execrado) a première da estação das flôres. A guerra veio e Paris nocturna criou hábitos novos, mais regrados, mais pacatos, mais salutares e dizem os moralistas que mais nobres. Os restaurantes fecham cedo, os empresários esforçam-se por garantir a uma clientela económica as correspondências do último metro, a polícia persegue implacávelmente os tangos clandestinos. Montmartre repoisa; a Abbaye é não sei se uma cantina se um ouvroir; e, dêsse par que, um ano antes, descia de um automóvel (hoje requisitado) à porta do restaurante sumptuoso, nessa primeira noite de uma primavera de guerra a dama estaria decerto num hospital qualquer à cabeceira de um ferido, êle batendo-se talvez nas trincheiras da Argona.

Paris dormia quando os bombeiros, percorrendo as ruas, nos seus carros automóveis, com cornetas e clarins, anunciaram à população que os dirigíveis alemães ameaçavam a cidade.

A verdade é que ninguêm pensava nêles. Nos últimos dias de janeiro a autoridade militar ordenara, é certo, aos parisienses uma série de medidas de precaução contra êsses terríveis e celebrados zeppelins cuja notória e crescente actividade lhe causava, ao que parece, mais ou menos justificadas apreensões. Aos comerciantes impôs-se não só a supressão de toda a luz nas vitrines, mas ainda as disposições precisas para que a própria iluminação interior das lojas se não pudesse ver da rua. Aos particulares mandou-se, mais simplesmente, conservar cerradas as persianas e as cortinas, desde o anoitecer. O bom público de Paris, mais do que nunca disciplinado e ordeiro, obedeceu sem custo. E, certa noite em que, num intuito, ao que se disse, de simples experiência, a autoridade suprimiu quási inteiramente a iluminação pública, de ordinário nos últimos tempos já restrita, tão profundas se fizeram as trevas que, vista do alto de Montmartre, Paris era, segundo a expressão dos observadores oficiais, uma imensa mancha negra. Ficou averiguado então que, de um momento para o outro, a cidade poderia, de tal modo, dissimular-se aos olhos dos aviadores que de longe quisessem descobri-la, e que os seus estabelecimentos oficiais e as suas obras de arte seriam impossíveis de vizar se a esquadra aérea do inimigo, vencendo todos os obstáculos que inevitávelmente se teriam de opor à sua marcha por cima do território francês, conseguisse voar sobre a capital.

Dias depois, um novo aviso apareceu prevendo ainda a incursão eventual de aeronaves inimigas, como em boa linguagem oficial se diz. Por êle se soube que, quando fôsse dado o alarme da aproximação de um dêsses instrumentos, os bombeiros seriam incumbidos de avisar os habitantes. Se fôsse de noite, a iluminação pública ficaria reduzida a um tímido e frouxo candieiro em cada esquina; e, de noite ou de dia, ao som das trombetas, os parisienses deveriam recolher a suas casas e, uma vez recolhidos, evitar a proximidade das janelas e estacionar de preferência nos sítios abobadados ou nos quartos interiores. Passado o perigo, novos toques advertiriam a população de que de novo lhe seria permitido, em segurança, aparecer à luz do sol ou à claridade do luar.

Conhecedores dessas medidas de precaução, é natural que os alemães se tivessem convencido de que a perspectiva de um ataque de zeppelins trazia apavorado o público de Paris. E contudo quanto essa suposição estaria longe da verdade! Se um dêsses kolossaes engenhos de destruição houvesse aparecido sôbre a capital um ou dois dias depois da declaração de guerra, quando a frívola cidade do prazer quási o era ainda e centenas de parisienses mal tinham tido tempo de repoisar das fadigas do último tango, é natural que o estrondo das suas bombas espalhasse em muitos bairros o pavor. Mas, logo depois, o estado de espírito dêsse público mudou. A França sentiu acordar em si as velhas e admiráveis qualidades que quarenta anos de paz, de bem-estar e de política podiam ter dissimulado aos olhos dos estranhos mas não bastaram para corromper. E fôssem quais fôssem as provações que o destino lhes reservasse, e sejam quais forem as provações que o destino lhe reserve, ela as suportaria e as suportará altivamente com nobreza, com heroísmo e com fé.

Quando vieram os primeiros taubes, os parisienses acolheram-nos sem mêdo e com menos indignação que curiosidade. No primeiro dia de setembro, nas vésperas da batalha do Marne, quando o exército de von Kluck ameaçava já de perto a cidade que Gallieni ia salvar, passando na rua des Capucines, a caminho da agência do Século, eu pude ver, em plena rua, indiferente ao perigo, uma multidão composta dos empregados do correio de uma estação próxima, de negociantes, das operárias dos ateliers, das concierges dos prédios, de nariz no ar, seguindo com curiosidade as evoluções de um aeroplano alemão que lançava bombas, algumas das quais caíram e fizeram vítimas bem próximo de ali.

Atrás dêsse taube outros vieram. Em certa época, todos os domingos à mesma hora, um ou mais engenhos dêsses vinham despejar explosivos sôbre a cidade. E, à hora do taube, como então já se dizia, a população vinha para as praças da Étoile, da Ópera, da Concórdia, ou trepava às alturas do Sacré Cœur, para esperar, munida de binóculos, como num teatro, a visita habitual. Se os protestos começaram nessa altura e se o govêrno, então ausente da capital, teve de providenciar com energia, não foi porque o medo chegasse aos parisienses, valorosos sempre, mas porque ao seu amor próprio começou doendo o espectáculo impertinente dêsses inimigos que vinham, em dias fixos e a horas fixas, atacar a cidade, sem que ninguém cuidasse de se opôr às suas aventuras.

Organizada a defesa aérea de Paris, os taubes não voltaram mais. A população teve de procurar outro passatempo para as 4 ás 5 dos domingos; as crianças puderam brincar nos squares sem o risco de ser mutiladas por uma bomba alemã. Correram meses. E eis que de novo se falava de uma ameaça do ar, dêsses lendários zeppelins que já tinham matado gente em algumas cidades de França e em pacíficas povoações das costas inglêsas e que operavam pela calada da noite como salteadores. No dia seguinte àquele em que apareceu o aviso da autoridade, eu ouvi o comentário de duas midinettes que à saída do atelier, à luz de guerra de um mortiço candieiro liam as últimas notícias do Intransigeant: – Dis donc! Des sonneries de trompes et clairons; ce que ça va être rigolo!

Êles vieram, nessa primeira noite de primavera em que falei e, com efeito, não foi trágica a visita. Era uma hora e um quarto da madrugada, exactamente, quando as trompas de alarme passaram próximo de minha casa. Corri à janela. O som sinistro afastava-se, perdia-se, ecoando na noite silenciosa. Nem mais um ruído, nem a sombra de um grito. Decididamente Paris teimava em dormir… Momentos depois, na rua, ouviram-se passos: era um polícia, açudado, que vinha a apagar o candieiro junto da minha porta. A rua ficou em trevas. Passou um automóvel. E, de novo, tudo caíu no silêncio profundo… Depois, às duas horas, duas fortes detonações acordaram, melhor do que os clarins o tinham feito, os inquilinos do meu prédio. Passos nos andares superiores. As portas sôbre as escadas entreabriram-se. Alguêm acendeu a luz. Do outro lado do meu andar saíram duas damas empeignoir com as cabeças coroadas de papelotes. Um cavalheiro do rés-do-chão subia as escadas quatro a quatro para ir a criada ao sexto andar onde ela dormia, como é costume aqui. Dois outros desciam, em sobretudo e chapéu de côco, assás embaraçados com as calças por um evidente olvido dos suspensórios. Em baixo, as concierges, mãe e filha, com os pés nus metidos em chinelos e uns chambres sôbre as camisas de dormir, franqueavam a cave aos moradores… Novas detonações; otic-tac sêco das metralhadoras; o ruído de um ou mais motores… Depois, ainda, o silêncio de angústia, de espectativa, de incerteza… Uma hora mais tarde, da varanda de minha casa, via-se o céu cruzado em todos os sentidos pelas pinceladas dos projectores. Um dêles fixa-se teimosamente; dir-se-ia que tinha a sua prêsa e não a queria largar. Era, com efeito, na zona de luz, o zeppelin que passava, transparente, esbranquiçado, rápido, esquivo: o segundo da noite, soube-se depois. De novo, um estrondo formidável. As nuvemzinhas brancas dos obuses perdiam-se no ar. Os farois dos aeroplanos franceses, quais estrêlas cadentes, apareciam e desapareciam no espaço. E, em breve, todos os ruídos esmoreceram. Ainda uma vez o silêncio. Às quatro e meia ouviram-se novos toques de corneta e clarim. O perigo tinha passado. Soube-se depois que não morrera ninguêm… 



… Êste ano, em certa noite de fevereiro, êles voltaram. Os que, como eu, saíam, cêrca das onze horas, de um cinematógrafo da Étoile viram o céu iluminado pela luz dos projectores. Nas ruas e nas praças, grupos de curiosos interrogavam o espaço. Nos pontos onde a linha do Metropolitano passa a descoberto, os últimos combóios transitavam sem luz.

O bairro onde nessa noite foram assassinadas algumas famílias inteiras, o de Menilmontant, visitei o no dia seguinte e, comigo, alguns milhares de habitantes de Paris. Em vão os que aqui veem de passagem interrogarão as suas recordações. Não o conhecem. Direi mesmo que não podem suspeitá-lo. Êle fica num dos extremos mais populosos da cidade, mas onde não há nem as sumptuosas avenidas, nem grandes armazens, nem os cabarets de luxo. É um bairro de gente honesta e humilde que trabalha. As ruas ali são íngremes e, por vezes, tão estreitas que um homem, abrindo os braços, pode, ao mesmo tempo, tocar os seus dois muros.

Através das artérias principais ou embrenhando-se em verdadeiros labirintos, a multidão procurava contemplar de perto as ruínas. Aqui, uma árvore arrancada junto de uma escavação larga e profunda. As janelas de todos os prédios em redor não tinham vidros. Perto de um parapeito, via-se o teto arrombado de uma casa onde morreram sete pessoas, entre elas um rapaz de oito anos e uma pequenita de dezoito meses. Junto da porta do edifício, cuja frontaria estava intacta, ficara um amontoado de descombros. Mais longe, uma casa de cinco andares fôra cortada de cima a baixo pela explosão. Numa rua próxima, cheia de gente, os moradores contavam as impressões da noite horrível. 

– Só aqui, nas traseiras da nossa casa – dizia-me a mulher, ainda nova, de um operário que se bate para os lados de Verdun – êles deitaram cinco bombas em menos de um minuto. Não pode o senhor imaginar como é horrível, assim de perto, o estrondo que elas fazem.

– E não pensou em fugir, refugiar-se? – perguntei.

– Para quê? E para onde?

Com um gesto, ela mostrou-me a rua estreita, abafada entre as casas negras como, em Lisboa, algumas da velha Mouraria. Com efeito, para onde fugir?… Em frente, à porta de um casebre mais pobre ainda que os outros, duas crianças, muito brancas e muito loiras, com a graça fidalga de uns pequeninos infantes de Van-Dyc, contemplavam, curiosas, o desusado movimento da rua. Mais longe, da janela de um entresol, uma velha, o trajo em desalinho, os cabelos soltos, uma figura de bruxa que se diria arrancada das ilustrações de um conto de fadas, gritava, a caír de bêbeda, com voz rouca, estendo fora da janela os braços nus: – À bas les boches! À bas les boches!

Durante uma hora, aos empurrões da multidão, vagueei nêsse bairro de gente humilde, mais apta a guiar-se pelo instinto que pelas razões que os diplomatas lhe não confiam e que ela própria não saberia compreender. Ali, famílias inteiras, sem trabalho, viviam, desde o comêço da guerra, do magro subsídio do Estado ou da caridade dos menos pobres: pais que perderam nos campos da batalha os filhos todos; mulheres que jamais voltariam a ver os maridos que eram todo o seu amparo; dezenas de lares sem pão, centenas de crianças sem pai. Toda essa gente para quem a vida, hoje, é só miséria, incerteza, angústia, tinha assistido, horas antes, ao mais horrível, ao mais pavoroso dos crimes. Uns, quando os interrogavam, esboçavam apenas um gesto de resignado martírio; outros qualificavam, no vocabulário que se imagina, o imperador de Berlim; alguns vociferavam que era preciso pagar na mesma moeda, fazer o mesmo, e sem demora, a essa canalha alemã que vinha, pela noite, assassinar nos seus berços os filhos dos pobres. A nenhum eu ouvi falar de paz.

Tampouco o terror dominava os que, na noite do crime, a polícia teve de impedir que corressem às alturas da colina de Montmartre para ver melhor, e os que, deixando desertas as caves cujo abrigo as autoridades aconselhavam, nas praças, nos boulevards ou nas janelas dos andares altos, indiferentes ao perigo, interrogavam o céu. Maus psicólogos são os alemães se esperam com êsses crimes abalar a fé dos que na cidade, longe dos campos da batalha, aguardam confiadamente, serenamente, a hora, bela entre todas, da libertação e do triunfo. Sôbre Paris adormecida, pelas noites de bruma, êles veem fazer a sementeira dos ódios que frutificarão terríveis, amanhã. E, depois de cada crime, milhões de bôcas, nos palácios dos ricos como choupanas dos pobres, repetiriam aquelas palavras que um francês citava há pouco, atribuídas a Dumas filho e que Vìtor Konig encontrou numa brochura em Londres, no mês de junho de 71:

«Ah! como vamos odiar-vos! – dizia o autor aos prussianos – e vós sabeis o entusiasmo, o ardor com que sabemos lançar-nos em emprêsas novas. É aí que vereis a maleabilidade desta raça latina que desprezais tanto. Vamos banir-vos das nossas famílias, do nosso solo, do nosso olhar; o vosso nome deixará de ser apenas o sinónimo de bárbaro e de assassino: faremos dêle o sinónimo de Iago e de Tartufo; não vos quereremos mais nem para amigos, nem para sócios, nem para operários, nem lacaios (se bem que os vossos próprios oficiais tamanho geito teem para tal ofício); e, se um de vós, tendo conseguido introduzir-se em nossa casa, à nossa vista se contorcer de desespêro diante da mãe moribunda, olharemos para êle e dir-lhe-hemos, rindo: Manha de esbirro! embuste de espião!Sempre que tivermos de meter num conto, num romance, num drama, um ladrâo, um rufia, umescroc, fá-lo-emos vir da Baviera, do Wurtemberg, da Hesse, de Saxe, do ducado de Bade: será um prussiano; e, como é a nós que lêem, é a nós que escutam, é em nós que acreditam, desonrar-vos-hemos de antemão na memória das gerações vindouras; amaldiçoaremos uma filha nossa que aceite o nome de um dos vossos filhos; e a infâmia das nossas prostitutas só começará para o futuro ao contacto do alemão».

Fórmula magnífica de um juramento solene que os filhos das vítima de 70 devem hoje pronunciar como seus pais fizeram – mas com uma mais enérgica e mais firme resolução de o cumprir.


Paris, Junho de 1916.
PAULO OSORIO



Atlântida, nº. 10, 15 Ago. 1916

 

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