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O Voluntário

O Voluntário
página da «Ilustração Portuguesa»
Data :
01/03/2015

João Grave (1872-1934), introdutor da temática da Grande Guerra no romance português (O Mutilado, 1919), publicou o conto «O voluntário» na Ilustração Portuguesa em fevereiro de 1915.

 



                                                       O voluntario
Absorvendo-se em fundas meditações, lendo febrilmente os filosofos e sociologos, estudando sempre e passando insofridamente de umas teorias a outras, Miguel, ao fim de um longo trabalho mental e de reflexões demoradas em que a sua inteligencia se comprazia, chegou a um resultado desalentador: – não compreendia a guerra! E, como a não compreendia nem encontrava no cerebro ou na alma, no pensamento ou na emoção, razões que a justificassem, considerava-a como a peor das tiranias, como o maior crime das sociedades organisadas.

– Porque não hão de os homens, sêres pereciveis, sêres transitorios, viver dôcemente os dias da sua efemera existencia, amando-se uns aos outros, estreitando-se no mesmo abraço de afeto e de concordia? – monologava. O mundo é vasto e ha n'ele espaços livres para todas as ambições, para todas as iniciativas, para todas as atividades.

Em vão lhe afirmavam que essa guerra por ele tão amargamente odiada era uma fonte de energia, de disciplina, de maravilhosas virtudes, de abnegação, de patriotismo, de solidariedade. Durante as batalhas fulgurantes, quando os canhões troam, crepita a fusilaria e os horizontes se cobrem de fogo, varridos por tempestades de ferro, forma-se entre os combatentes uma perfeita união espiritual em que florescem as rosas divinas da bondade, da piedade, do amôr! Para convencerem Miguel do seu erro, puramente sentimental, diziam-lhe que só a luta virilisa as raças, as dota de força, de heroicidade, de resistencia, não permitindo que n'elas medre a flôr do egoismo. Asseveravam-lhe que os povos que deixam de combater durante muitos anos entravam n'uma decadencia angustiosa, n'um crepusculo em que todas as suas faculdades e todos os seus dons se apagavam tristemente, acontecendo-lhes o mesmo que a certos insetos que, não se exercitando, não se vigorisando constantemente no vôo, terminavam por perder as azas, rastejando dolorosamente. Miguel, porém, teimando com obstinação, exclamava:

– O homem póde perfeitamente robustecer-se em lides nobres e fecundas e não matando o seu semelhante. Entendo que nenhum Estado tem o direito de sacrificar a conflitos politicos a primavera humana da sua gente, a sua variavel mocidade, que é a beleza, o genio, a vitoria, o futuro! Nenhum dirigente deve dispôr da vida dos dirigidos.

– Nem para defeza da Patria? – perguntavam os seus contraditores.

– Nem mesmo para isso! – respondia Miguel com vivacidade. Moralmente, ninguem póde tirar aos outros aquilo que é incapaz de restituir-lhes.

– Os amigos com quem ele discutia estes problemas sociaes encolhiam com indiferença os hombros deante de tal tenacidade, e retiravam-se sorrindo e murmurando:

– Isso é um ponto de vista individual, fóra da realidade dos interesses coletivos.

– Pois será! Mas eu creio que estou na verdade!

– O que é a verdade? Já Poncio Pilatos fez outr'ora num celebre momento historico, a mesma pergunta, e não encontrou quem lhe respondesse!... – atalhavam.

De resto, para Miguel que devorára, n'uma ancia de saber e de curiosidade intelectual, todas as doutrinas avançadas da sociologia, a idéa da Patria era vaga, abstrata, imprecisa. Não a sentia com nitidez, profundidade e relevo. A Patria, para ele era uma só, e n'ele movia-se, labutava, amava, sofria, toda a humanidade. A diferenciação das línguas, dos ideaes, das aspirações, das tendencias dominadoras, representavam méras convenções sem importancia, episodios futeis que se iriam diluindo no calor das modernas correntes orientadoras. Tratava-se apenas de preconceitos que vinham dos seculos distantes enraizando-se nos costumes, porque jámais se havia querido verificar o que n'eles existia de artificial e de absurdo. Para que continual-os, quando uma aurora de prodigiosa e clara luz vinha anunciando gloriosamente a emancipação dos escravisados?...

Cogitando sobre a ferocidade das pendencias armadas que arrojam nos campos de combate, umas contra as outras, imensas massas de homens que se trocidam, se dilaceram com raiva, se destroem com furia n'uma hora de alucinação, Miguel, abalado por uma dôr moral intensa, pensava na inteligencia criadora, na emotividade artística, no talento, na graça, na esperança esplendida que cada batalha custa à humanidade.

– Com efeito – monologava ele, no silencio do seu gabinete de estudo, entre brochuras – quantos poetas de estro maravilhoso e de inspiração ardente, quantos pintores, musicos, romancistas, escultores, filosofos, politicos, cientistas – messe de estupenda e libertadora abundancia – caem, varejados pela metralha n'um só instante!

Sem a guerra que os manda marchar para a morte ou para as sangrentas chacinas, esses sacrificados seriam os construtores incomparaveis de uma civilisação vindoura, os propagadores, os apostolos supremos de um verbo de luz que rasgasse ás consciencias e ás almas sensiveis, novas e resplandecentes veredas de encanto e de progresso vitorioso, os reformadores, os inovadores, talvez os fundadores de outras religiões e de outras artes! Pois as balas abatem lugubremente estes semeadores de beleza e de idéas, predestinados para nobilitar a especie a que pertenciam! E porquê, porquê? Por uma rabugice de chancelarias, pelo capricho de um chefe de Estado, pelo mau humor dos diplomatas!... E o que me irrita é a passividade com que milhares de criaturas obedecem á voz que os manda avançar, sem coleras vingadouras, abandonando a felicidade dos lares onde nunca mais voltarão, as esposas, os filhos, as venturas familiares! Nenhum d'eles, ainda o mais violento e impulsivo, esboça um gesto de rebelião, que logo se atearia como o lume! Por mim – concluia Miguel convictamente – em caso algum pegaria em armas para me bater, muito embora a Patria estivesse em perigo – romantismo com que os estadistas astutos iludem os ingenuos. A minha Patria não é, positivamente, o canto onde vivo, o logar onde nasci, o pomar onde amadurecem as frutas que são minhas, o jardim onde desabrocham as minhas flores, a terra onde se fala a minha linguagem! É o mundo habitado!... E todos os homens são meus irmãos!

Para retificar a certeza das suas palavras e das suas emoções, e na anciedade de vêr outros povos, outros paizes, outros costumes, outras cidades, outras civilisações, Miguel quiz viajar, completando assim a sua educação. Animava-o a confiança admiravel de que, por toda a parte, ao contacto com a inumeravel multidão humana, encontraria identica comunidade de sentimentos, a concordancia de ideaes congéneres com os seus, a generosidade, a simpatia, as abnegações sublimes, as afeições veementes. E tão forte era esta confiança que Miguel, ao sair do seu paiz no compartimento do comboio que o levava para longe, ao arquejar da locomotiva abrindo e fechando os seus pulmões de aço, não sentiu o coração, não sentiu o coração apertar-se-lhe de saudade e de melancolia. Entrou com alarido nas tumultuosas Cosmopolis, sem que a nostalgia num só minuto o perturbasse. Visitou miudamente as grandes, prosperas nacionalidades, onde se trabalha sem fadiga e onde a miseria forma, ao lado da opulencia, um sombrio contraste. Estabeleceu comparações deprimentes para a sua Patria. Durante semanas viveu n'um permanente delírio, n'uma agitação que o impossibilitava de coordenar pensamentos, de refletir, de observar as proprias comoções intimas... Mas, quando esta febre acalmou, uma sensação singular, até aí desconhecida, apossou-se-lhe do espirito, sobressaltando-o.

Na realidade, via-se completamente isolado, só, entre aquela aglomeração de gente que não era a sua gente, no meio de cenarios ignorados da sua visão, presentindo que nenhum interesse emotivo ou mental o aproximava sequer de pessoas que nem o olhavam, que lhe não sorriam amigavelmente, que o acotovelavam nas ruas se ele parava diante d'uma «vitrine», que falavam dialectos a que não estava habituado! Em face das catedraes, dos monumentos suntuosos pela sua linha arquitetonica, nas bibliotecas, nos museus, nas universidades, começou a lembrar-se com inefavel doçura das aldeias repousadas e louras de sol da sua nação, das suas paizagens, das suas florestas, do azul transparente dos seu céu. Á noite, nos hoteis, quando a escuridão baixava e o ruído se extinguia, Miguel experimentava um desconsolo indefinivel que o alarmava. A solitude fazia-se mais pesada á sua volta e a inquietação exaltava-o. Levava as horas solitarias recordando, avivando impressões da sua Patria longinqua, as guitarradas ao luar, os namoros sob as altas varandas, as reuniões onde se palestrava suavemente, os convivios simples decorrendo n'um enlevo...

A magnifica certeza antiga da solidariedade universal principiou a dissolver-se em Miguel, primeiro pela duvida e mais tarde por uma realidade que o assustou – depois que soube que só o egoismo era geral.

– Se eu caísse para aí, a uma esquina, com fome ou doente, quem me ampararia e me alimentaria?

A esta tortura, juntou-se outra. Na verdade, Miguel tinha a impressão bizarra de haver perdido a alma entre a turba estrangeira. Parecia-lhe que essa alma, andava por muito longe, desgarrada, vagabunda, alheada e triste. Então, não hesitou. Fazendo as malas, correu a uma estação do caminho de ferro, comprou bilhete e partiu para Portugal: – e a alegria que d'ele se exilára como uma ave emigradora e misteriosa , novamente lhe entrou no peito com uma brandura, uma suavidade, que a apaziguaram.

Ao reentrar na fronteira portugueza, aspirou com sofreguidão o ar patrio que vinha de longe impregnando-se de efluvios, do cheiro das resinas, do aroma das rosas bravas, do tomilho resceendente e do serpol. E oh! milagre celeste! Outra vez encontrou a alma – essa alma saudosa – só com falar com os seus compatriotas, com comtemplar o riso sadio e candido das populações campestres. Nunca a Patria lhe parecera tão bela, como luz, como bucolismo, como repouso, como serenidade. Seus olhos vislumbravam nos panoramas mais nús côres e fórmas ineditas. N'esse instante de iniciação e de revolução compreendeu, por fim, o que a Patria é para os homens que nela vivem livremente, fruindo direitos, cumprindo obrigações, impondo uma personalidade. Os que a não possuissem, conservando a lucidez do raciocinio e a finura da sensibilidade, seriam os seres mais desgraçados do mundo consciente. Nenhum orgulho, nenhuma finalidade, nenhum impulso nobre e elevado os conduziriam na existencia incerta! A caminho de sua casa
– que para ele possuia agora uma formosura – era maior do que o lendario Palacio da Felicidade, que tinha portas de ouro – Miguel ia considerando que a perda de uma Patria é o maior sofrimento que póde tombar sobre a rez pensante. Com ela, perder-se-ia também a liberdade, toda uma historia épica, toda a razão de ser de uma raça. As proprias figuras dos representantes, que foram desaparecendo nos abismos da cova, se apagariam como uma claridade que durante muito tempo oscilasse! E nenhum escravo que uma centelha de genio iluminasse, que tivesse nascido com um talento original e fosse o portador excelso de uma moral inedita, de uma inedita ciencia, de uma arte maravilhosa, conseguiria elevar-se acima da vulgaridade, submetido ao despotismo dos dominadores! A propria linguagem, toda uma literatura, toda uma tradição, pereceriam! Como se arrependia agora, contritamente, dos seus passados desvarios humanitarios! E como eram erradas e vãs as doutrinas de que, espiritualmente, alimentou a sua juventude romantica!

O seu arrependimento era tão sincero e tão profundamente o influenciava, que d'aí em deante desejou apenas uma ocasião propicia para reparar a falta involuntaria cometida. Para ser, no seu paiz pequenino e socegado, uma individualidade util, casou, constituiu familia, lidou incessantemente, colaborando com a sua lide na prosperidade nacional. Era cetico e tornou-se um crente. Desdenhava o patriotismo e transformou-se n'um patriota exaltado, combatendo constantemente toda a ação amolecedora da vontade, toda a filantropia dissolvente da coragem, do heroismo, das qualidades guerreiras, todo o pessimismo que produzisse desagregações. Aumentou a sua fortuna, rodeou-se de comodidades e de confortos e a vida, para Miguel, deslisava sem um abalo, uma contrariedade, tão subtilmente que ele nem chegava a surpreender-lhe o tédio.

Um dia porém, a paz conturbou-se. Em remotas paragens que nos pertenciam, que eram a herança recebida de antepassados heroicos – esses antepassados que sobre os tombadilhos das fustas e das caravelas, escreveram de noite, sob as estrelas, a ponta de punhal, as paginas imorredouras da nossa historia – entrou o invasor. Miguel, imediatamente, se associou aos que bradavam pela desafronta. Acompanhava aos caes de embarque, eletrisado, gritando, agitando a bandeira da Patria nas mãos tremulas, as tropas que íam repelir a invasão e ragar com o seu fecundo sangue, em que vicejaria a flôr escarlate do heroismo, o pedaço de territorio ameaçado. Durante semanas o seu civismo ganhou mais ardor. Ah! era necessario que os adversarios fossem levados para longe, nas pontas das baionetas, sob o diluvio das balas!...

Em breve, porém, se espalhavam notícias fúnebres d'um revez inesperado para as armas luzitanas. Miguel lêu os jornaes com os olhos orvalhados de lagrimas de desespero. Amarrotando-os entre os dedos, arremessou-os para longe e correu a casa, a dar um derradeiro beijo na mulher e nos filhos ainda crianças.

Era novo, era forte, tinha o dever de partir tambem para matar com furia, para morrer com gloria – se n'essa jornada formidavel a morte o arrebatasse! Os seus braços manejariam com dextreza uma espingarda, o seu peito seria uma barreira oposta aos adversarios, emquanto n'ele batesse um coração puro! Alistou-se como voluntario e segiui na primeira expedição, feliz por ir bater-se pela Patria – ele que outr'ora a deprimira, alucinado por sentimentos que agora lhe pareciam monstruosos!...


in Ilustração Portuguesa, nº. 467, Fev. 1915, pp. 130-2

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