Ignorar Comandos do Friso
Saltar para o conteúdo principal
domingo, 21-01-2018
PT | EN
República Portuguesa-Cultura Homepage DGLAB

Skip Navigation LinksO-meu-diário-de-campanha

O meu diário de campanha

O meu diário de campanha
Data :
15/12/2017

Diário inédito do alferes Fernando de Castro (1895-1983) sobre a participação portuguesa na I Guerra Mundial.


O Meu Diário de Campanha é o primeiro diário vencedor do concurso promovido pelo Arquivo dos Diários «Conta-nos e conta connosco» e foi publicado pela Objectiva, com prefácio de Jorge Sampaio e nota histórica e biográfica de Jorge Pais de Sousa.

 Excerto:

Saint-Venant, 5 de Dezembro

Estou muito maldisposto. Duas notas apenas. Não tive notícias. Dia eterno. Muito trabalho.

Os ingleses recuaram bastante em Cambrai.

 

Saint-Venant, 6 e 7 de Dezembro

Imenso que fazer. Tenho estado no quartel-general até depois da 1 hora da noite, a trabalhar.

Por ventura minha, tenho recebido regularmente as notícias da minha Maria Emília. O meu Pai é que me não tem escrito.

A guerra vai mal. Situação grave. Os ingleses têm sido batidos em Cambrai. A Itália está a braços com nova ofensiva inimiga. A Rússia e Roménia concluíram um armistício. Lá fica o exército de Sarrail numa situação gravíssima! Fala-se na possibilidade dum grande ataque boche neste lado. Qual seria o ponto escolhido? A nossa frente, o nosso sector? É, sem dúvida, o ponto mais vulnerável.

Esperemos. Mas custa tanto esperar quando se reconhece que tudo isto estaria acabado, a Alemanha vencida. Se os aliados se têm unido, como deviam, de forma a aproveitarem os enormes recursos de que dispunham! Vou-me deitar. Estou cansado. Ontem, o chefe do Estado-Maior encarregou-me de cifrar dois telegramas para as divisões. Eram muito importantes. Cifra especial. Ordenavam, em nome do general, que se obtivessem identificações urgentemente. Oxalá que os nossos sejam bem sucedidos nos seus raids. Que pena eu tenho de não tomar parte neles.

 

Saint-Venant, 8 de Dezembro

Venho do Q.-G. É meia-hora. Tenho andado atarefadíssimo com o registo que estou a organizar.

A minha licença está difícil de conseguir. Há vários oficiais, com mais tempo de campanha do que eu, que também querem partir. Falei, há pouco, com o chefe do Estado-Maior sobre o caso. É claro, frisei-lhe que não queria passar sobre os direitos dos outros. O meu passaporte parece que se arranja, segundo diz o Padrinho* numa carta para o Sebastião. Mas vejo tantos obstáculos à minha ida! Minha boa Noivinha! Tremo pela tua dor se não posso passar o natal contigo!

De guerra, a situação continua muito grave. Os ingleses não deram hoje notícias de Cambrai. Isto vai mal. Na Itália prossegue a nova ofensiva boche.

O Meu Diário de Campanha: um testemunho inédito sobre a participação portuguesa na I Guerra Mundial, Lisboa: Objectiva, 2017, pp. 251-2 

............................................................................................................................................................................................

Ver mais Autores e a Guerra em: É a guerraNaulila 19141914!Portugal e a Guerra e a Orientação das Novas GeraçõesDurante a Guerra - Dezembro de 1914O Monstro quer SangueA RevoltaO VoluntárioCarta pública ao tenente Aragão, prisioneiro de guerraDo Diario d'hum soldadoPacifismo e militarismoA Bélgica; «- Podiam ter sido irmãos, mas foram fratricidas!...»; A Nau CatrinetaA guerra actual é uma guerra entre dois princípios sociológicosQuim e Manecas na I Guerra MundialOs Zeppelins sobre Paris; Batalha do MarneEdith CavellO Génio do PovoNas Trincheiras da FlandresPor que motivo Portugal tomou parte na guerraFritz e BertaUma figura d'inglezCanção do SoldadoO MutiladoBarra ForaNatal de guerra,  O bom humor no C. E. P.As Tempestades da GuerraJornal de um PrisioneiroSoldado que vaes a guerraA LibertaçãoAo soldado desconhecidoPrimeiro Morto O bravo alféres miliciano Hernani Cidade; Diário de Guerra (1917-1918) e Pela Pátria.