Ignorar Comandos do Friso
Saltar para o conteúdo principal
domingo, 30-04-2017
PT | EN
República Portuguesa-Cultura Homepage DGLAB

Skip Navigation LinksO-bom-humor

O bom humor no C. E. P.

O bom humor no C. E. P.
Data :
07/02/2017

Excerto do livro O bom humor no C. E. P. (1917-1918), «amontoado de episodios, piadas e ditos engraçados, que dizem do bom humor dos combatentes portuguezes em França», publicado em 1944 pelo Major Mário Afonso de Carvalho (1887-1950).


Capitulo II

A chalaça do C. E. P.


Campanha de Pau-lona – 1916.

Estamos no 3º. ano de guerra. Lemos pacificamente as gazetas, que nos dão as notícias diárias da horrível carnificina, em que a França é a maior sacrificada.

Começa a falar-se da nossa participação na guerra, ao lado dos aliados.

Quer fosse por política, quer fosse para satisfazer quaesquer compromissos com a nossa velha aliada, o que é certo, é que nós os tropas de verdade não nos preocupámos nada com isso.

De resto, eu, ha muito, que estava conformado e nunca me esqueci, que isto de ser tropa, não é um modo de vida, mas sim um modo de morte!...

Uma coisa era certa, que eu ia para a tempestade, que a minha vida só tinha por penhor o acaso e com um factor unico eu contava – a sorte!

Para que ralar-me?

Foi portanto sem excitação nem medo, que recebi a ordem de marcha.

O medo abrevia a vida.

Deitei o coração para traz das costas e consegui assim ter o meu espírito bem disposto e ligado a pequeninos nadas cheios de feitiço. É preciso marchar... Vou com a alma bem levantada, para poder arrostar com o perigo!...

.....................................................................................................................................


Norton de Matos, Ministro da Guerra e um dos influentes da nossa participação, mas enérgico e decidido, mobiliza em Maio de 1916 uma Divisão de 20.000 homens, que são concentrados em Tancos n'um grande e bizarro acampamento de barracas de lona, onde recebem uma brunidéla durante uns três mezes de marchas e exercícios de combate.

Esta foi a 1º. étape da nossa participação na guerra e que ficou conhecida com o nome de Campanha de Pau-Lona.



A marcha


Preparam-se depois os barcos, para levar as nossas tropas para França, os quaes foram cedidos pela Inglaterra.

A 19 de janeiro de 1917, embarcamos com o primeiro contingente: um esquadrão de cavalaria e um batalhão d'infantaria. Oficiaes eramos uns cincoenta.

Muitos d'eles faziam parte das secções de quarteis das suas unidades.

Na maioria eram alferes, como eu, de fresca data e por isso foram logo escalados para a fornalha.

Eu nunca tinha dado vivas á guerra e por isso mesmo não parti a cantar, mas ia calmo e intimamente convencido de que ia cumprir o meu dever.

Mal chego a bordo com a secção de quarteis do B. I. 23, que comandava, apresento-me ao comandante militar, que me indicou o nº. do meu beliche.

Era uma espécie de jazigo com duas prateleiras de lona sobrepostas de cada lado e um pequeno lavatório ao meio.

Tinha por companheiros de jazigo três alferes de infantaria.

Instalei-me com a minha tralha no cacifo do rez do chão esquerdo.

Não me agradou lá muito ficar no rez do chão, pois me lembrou logo, que no caso de enjôo o meu vizinho do 1º. andar podia vomitar para cima de mim.

Faço uma ligeira visita pelas diferentes dependências do navio.

Por todos os lados cheirava a rancho e a esterco de cavalos.

Fico um tanto entupido, mas sinto-me bem disposto apezar de tanto perfume indesejável.

Era para mim uma vida nova, que ia começar, o que me dava novos alentos. Esperava-se que o barco levantasse ferro, pois que a carga estava completa, mas não se mechia.

A bordo portanto passavam-se os dias um tanto monótonos, fazendo-se a vida de club e de preguiça, n'uma optima disposição de espirito.

Não faltou mesmo o jornal humorístico, em que se caricaturavam as figuras de mais destaque que iam a bordo.

.....................................................................................................................................


Ha dez dias, que estamos fundeados no meio do Tejo em frente ao Terreiro do Paço, pois estamos a 31 de Janeiro.

Esta quietação já nos ennerva.

A hora de levantar ferro continua a ser segredo dos Deuses.

.....................................................................................................................................


7 horas da tarde do dia 31 de Janeiro. Um criado inglez, pois que a tripulação é toda ingleza, percorre os corredores dos nossos jazigos, como de costume, batendo com uma maçaneta n'uma caçarola de cobre.

É o toque do repasto.

Dirigimo-nos todos para a modesta sala de jantar, com verdadeiro apetite, embora já um tanto enjoados da comida ingleza, quasi sempre cheirando a cebo das botas.

O meu camarada do lado direito, o alferes Lata, depois de já ter comido a sopa e um prato de sardinhas, péga n o menú e vê a palavra «Cold» que encimava as designações dos diferentes pratos frios e como não sabe patavina de inglez, convencido de que era o nome de qualquer iguaria esquisita, pede ao criado, que lhe traga «Cold» (em inglez esta palavra significa: frio).

O criado fica a murmurar, mas eu não percebo o que ele diz. Sou tambem um ignorante d'essa lingua de trapos.

Naturalmente ficou a chamar-lhe cavalo.

D'ahi a bocado volta o criado e apresenta ao nosso alferes Lata nada menos de quatro pratos frios, que eram todos os que havia mencionado na lista: Roast-beef, Roast mutton, Pickled pork e Potatoes.

O alferes não perde a serenidade e diz com um mixto de satisfação e gulodice: Ao menos estes inglezes são ricos em tudo. A gente pede-lhes um prato e eles trazem logo quatro cheios de comida e todos variados.

Ri-me de tanta bestialidade e disse-lhe, que fazia muito bem em encher o paiol de mantimentos, pois quem saberia, se ao sahir a barra, nós não iríamos pastar para o fundo do mar, com um torpedo dos alemães!

Pois claro, me retorquiu ele glutonamente, ao menos levamos a pança cheia.

O que é certo, é que o alferes Lata, enguliu aquilo tudo sem esforço, apezar de ser um trinca-espinhas!

E para remate, o comilão mimoseou-nos com uma salva de três formidaveis arrôtos!...

Acabamos de jantar e ficamos com o ventre inchado e a consciência tranquila.

Sahimos todo para o convez. Todos estão animados.

Finalmente o navio levanta ferro e começa a deslisar em direcção á barra.

Sentimos um alivio.

Ninguem está triste.

Todos se mostram dignos de si e da sua Patria.

Era a consciencia do dever militar.



Já é noite e uma chuva miuda e fria açoitada por um vento fortíssimo, fustiga-nos a cara.

Dirijo um derradeiro e saudoso olhar á cidade, que foi o meu berço e por entre a casaría envolvida na bruma eu procuro descortinar a pequena casinha, onde eu deixava a esposa e o filhinho.

Paramos em frente de Cascaes.

Um funccionario faz a distribuição d'umas costelas de cortiça.

Pergunto-lhe para que me dá aquilo.

Diz-me, que é para me aguentar ao cimo d'agua no caso de precisar.

Mas eu se tiver de me deitar ao mar, morro logo com o frio da agua.

E atiro com aquela especie de chinguiço para debaixo da prateleira, que me serve de cama.

O mar está muito agitado devido á forte ventania.

O navio começa a dar balanços.

Estou ainda no convez a despedir-me das luzes da cidade.

Começo a não me sentir muito bem.

E eu que me supunha de estomago forte!

Mau! Parece-me, que já estou a enjoar com os balanços! digo eu para um dos meus companheiros que ia junto de mim.

Encosta-te bem á amurada, que o vento fresco batendo-te no focinho, faz-te passar essa agonia me retorquiu ele.

Assim fiz, mas um balanço mais forte, fez-me lançar a carga ao mar, ficando com o capote todo vomitado.

Que arrelia! E eu que tinha jantado tão bem! Quero fazer-me forte, mas constato, que não me é possivel reagir. A cabeça anda-me á roda. Corro então para o meu beliche e deito-me. Sinto-me assim completamente aliviado, mas logo que levanto a cabeça do travesseiro, sinto o maldito enjôo.

D'ahi a pouco aparece o meu companheiro, que também não conseguiu aguentar-se com os balanços.

Era o alferes Lata, que se lamentava, muito desgostoso, por ter vomitado todos os «pratos frios» que tinha comido pouco antes.

E a breve trecho os quatro habitantes do pequeno jazigo roncavam como uns justos.



Estamos já no segundo dia de viagem e experimento levantar-me para ir comer, mas não consigo fazêl-o, pois o enjôo não me larga.

Sinto porêm muita traça, pois ha 24 horas, que não meto combustivel. Tenho então uma ideia.

Chamo o meu guarda-joias e mando-lhe saber á cosinha o que era o rancho dos soldados, pois já não gramava a comida cebosa dos inglezes.

Era sopa ele mangas de capote com feijão branco me veio dizer o Manuel.

Optimo para desenjoar. Vaes já dizer ao cosinheiro, que me mande uma colher d'essa sopa.

O Manuel volta d'ahi a pouco e apresenta-me uma lata cheia.


Prégo-lhe um sabonete. – Mas tu julgas, que eu sou algum bruto?

Então o meu alferes está tão fraquinho; que não lhe deve custar muito bater a lata toda.

Vae para o diabo.

Consegui comer um quarto da lata e senti-me mais confortado.

Em seguida deitei a cabeça no travesseiro e em breve estava a sonhar com as mangas de capote e a massa de estalo.



Estamos a 2 de Fevereiro.

Acordo de madrugada alta, pois já não tenho mais folego para dormir. Miro a cebola que marca 5 horas.

Levanto-me e corro á sala de jantar, para beber um copo d'agua. Passo junto d'um grupo de soldados estendidos no chão. Um d'eles sonha em voz alta e chama pela Maria.

Continuamos sem saber onde vamos desembarcar o nosso esqueleto, pois isso constitue segredo. Só o comandante do navio o sabe.

Pelas 7 horas ouço enfim uma voz, que vinha do corredor proximo:

«Terra á vista».

Nasceu-me uma alma nova e rápido saio do meu esquife.

Visto-me n'um ápice.

Olho para o espelho. Tenho barba de porta-machado. Barbeio-me, mas com a pressa consigo fazer dois golpes nos queixos.

O enjôo tinha-me passado como por encanto.

Completada a minha toilete, subo ao convez.

A alegria é geral. Passo junto d'um grupo de soldados. Um toca no harmonio modinha da sua terra, como a dizer da saudade da mãe ou da noiva que ficou lá na terra e os outros acompanham cantando, sorrindo, conscios da sua calma, entregues ao seu Destino.

O navio ia a entrar na bahia de Brest. O coronel Gomes da Costa auctoriza o desembarque de alguns oficiaes.

Vejo-me finalmente em terra. Deixei portanto de me considerar um batraquio.

Surprehendceu-me ver tudo coberto de neve, pois tal espectaculo era novo para mim. A cidade com os seus esgalgados campana rios de igreja e as suas imensas fabricas pareceu-me feia e sorumbatica.

Na bahia alguns barcos de guerra, arvorando a bandeira tricolor, mostravam-nos a majestade bélica dos seus canhões monstros.

Embrenhei-ine pelo meio da cidade ao acaso para me dirigir ao telegrafo.

Nas ruas com a neve calcada, eu escorrégo a cada instante e vejo-me na necessidade de me agarrar ás paredes das casas.

Decididamente não tinha geito nenhum para patinador.

Encontro enfim um habitante e pergunto-lhe onde fica o telegrafo.

Para lá me dirijo e mando um telegrama para minha esposa. Duas palavras apenas: Cheguei bem Brest.

Á sahida da estação telegrafica, dou de cara com o alferes Prazeres.

Fomos cavaqueando.

O frio era de morrer gelado. 18 graus abaixo de zero.

Vamos beber um café.

São 10 horas e sinto uma fome de cão.

Alvitro ao Prazeres: e se nós fossemos comer a uma tasca?

Bela ideia. Vamos a isso.

Começamos a nossa exploração e em breve encontrávamos um restaurant.

Na tabuleta tinha uns modestos dizeres:

Au Colimaçon - Restaurant


Entrámos e pedimos a lista. Havia poucos pratos, mas a nossa surpresa foi grande quando lemos entre eles: Morue à la Portugaise.

Venha o bacalhau, gritamos os dois ao mesmo tempo.

Servido o fiel amigo, comemos mais uns ovos «sur le plat» bebemos uma agua pintada a que o francez chama vin rouge, tomamos um café e pagos os francos d'esse apetitoso almoço retirámos com o ventre alegre e bem disposto.

Démos mais umas voltas pelas ruas de Brest, que pouco interesse nos despertou e pelas quatro horas da tarde recolhemos a bordo, pois o comboio que nos havia de transportar ao front, ainda não estava prompto.

No dia 4 estava tudo em ordem para seguirmos para a frente.

Verifico, que os meus impedidos, cavalo e bagagem já estão embarcados e enfio-me ao acaso para um compartimento de 1.ª classe, onde vejo já instalados o Tenente Baptista e o Alferes Penedo, ambos de infantaria.

Pelas 9 horas da noite partiu, pesado e soturno, o comboio que levava o primeiro contingente de tropas portuguezas com destino á frente de batalha.

Encolhidos aos cantos, como que a procurarmos defesa contra o intenso frio que fazia e que nunca suportáramos – 18 graus abaixo de zero – procurámos dormir, mas em vão. A neve cahia em flocos no tecto da carruagem e incrustava-se nos vidros das janelas, transformando-a assim n'um autentico frigorifico.

Como vamos conservados cm gelo, disse eu para os meus dois companheiros, devemos lá chegar com certesa em bom estado.

Tinham-nos dito á sahida de Brest, que durante a viagem havia estações militares de alimentação e confiados n'isso não trazíamos comnosco reservas algumas.

Na estação de Alençon, a 400 kms. de Brest, onde parámos pela tarde do dia 5, consegui apanhar por 2 francos, quasi a soco, no respectivo bufete, urna sandwiche de carne que apenas me tapou um pequeno buraco do estomago.

Eram mais de quinhentos os assaltantes ao bufete.

Ficou tudo limpo em menos de 5 minutos.

Muitos não sahiram da carruagem, por se encontrarem bestialisados com o frio.

Iamos já no segundo dia de viagem, que decorria estupida e monótona, pois tinhamos exgotado o nosso reportorio de piadas.

A vista dos campos, cidades e vilas cobertas de neve aborrecia-nos horrivelmente e ardíamos n'um desejo irreprimível de chegarmos ao fim.

Entorpecido pelo frio, tinha por vezes a sensação de que o coração já não pulsava. Sentia-me entupido e raro falava com os meus companheiros, que sofriam como eu. N'uma carruagem de 3.ª classe, morre com o frio um 1.º cabo de infantaria.

Um pouco antes de Monterôlier o comboio parou. Não podia avançar, porque a via estava cheia de montanhas de neve.

Só ao fim de 6 horas se conseguiu desobstruir a linha e o comboio pode partir para Monterôlier, onde tivemos uma paragem de meia hora.

Aproveito para fazer a exploração dos recursos locaes.

Havia um hotel em frente da estação, mas no bar apenas consigo beber um copo de vinho, que parecia agua pintada.

Os outrns que tinham chegado primeiro, tinham comido a trincadeira toda.

Passamos em Abeville e depois em S. Pol onde parámos para nos distribuirem uma ração ingleza, que se compunha ele corned-beef, pão duro e queijo.

Finalmente matámos um pouco a traça.

Depois veiu Ostreville e por fim Aire-sur-la-Lys, que era o terminus da nossa viagem e aqui chegámos pelas 2 horas da tarde do dia 7.

Gastámos pois 65 horas n 'este percurso de 700 kms.



O bom humor no C.E.P. (França 1917-1918), Lisboa: ed. do autor, 1944, pp. 25-36

 

Ver mais Autores e a Guerra em: É a guerraNaulila 19141914!Portugal e a Guerra e a Orientação das Novas GeraçõesDurante a Guerra - Dezembro de 1914O Monstro quer SangueA RevoltaO VoluntárioCarta pública ao tenente Aragão, prisioneiro de guerraDo Diario d'hum soldadoPacifismo e militarismoA Bélgica;«- Podiam ter sido irmãos, mas foram fratricidas!...»; A Nau CatrinetaA guerra actual é uma guerra entre dois princípios sociológicosQuim e Manecas na I Guerra MundialOs Zeppelins sobre Paris; Batalha do MarneEdith CavellO Génio do Povo; Nas Trincheiras da FlandresPor que motivo Portugal tomou parte na guerraFritz e BertaUma figura d'inglezCanção do SoldadoO MutiladoBarra Fora e Natal de guerra.