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O Mutilado

O Mutilado
Data :
12/09/2016

​Excerto do romance O Mutilado de João Grave (1872-1934). Publicado em 1918, foi o primeiro romance português sobre a Grande Guerra.


 

«Partira para a guerra como um arauto da justiça e do direito, para combater a violência, para defender as grandes liberdades humanas que tinham custado, através dos séculos, tantas dedicações e tanto sangue. Pelejára estóicamente pelos latinos, semeadores de ideais, criadores de beleza, e, como os latinos, tinha a bravura espiritual, o heroismo alegre, ao contrário dos setentrionais, que possuiam a coragem obrigatória, a heroicidade a que eram forçados por uma disciplina de ferro, porque, neles, a organização, aniquilando o indivíduo, produzira a identidade das vontades e dos sentimentos. Afinal, logo na primeira batalha em que entrou, uma granada, explodindo, cortára, retalhára as suas carnes, mutilára-o, deixára-o inválido para sempre. Isto parecia-lhe absurdo! Se êle, na verdade, era o defensor de uma humanidade melhor, de princípios superiores, a eqùidade imanente devia tê-lo protegido no braseiro dos recontros fulgurantes. Mas não! Até em vez de morrer logo, o que teria sido para êle uma ventura, resistira à morte apenas para que o seu padecimento fôsse implacável e duradouro. Que ironia! E que sarcasmo atroz lhe parecia agora a luta sangrenta da Europa dividida em dois campos contrários: – uns que pretendiam emancipar-se e outros que desejavam oprimir, como se no vasto mundo não houvesse um lugar ao sol para todos! E a guerra durava havia três sinistros anos, ferindo-se com maior intensidade e ferocidade de dia para dia, sem tréguas, sem repouso. Dum lado e doutro, os homens que se arrojavam à carnificina não representavam nada: – eram coisas, não pessoas. A conflagração aparecia ao seu entendimento como um mar tenebroso para que fugiam todos os rios da vida ocidental. Milhões e milhões de soldados pelejavam e morriam, o sangue corria em torrentes, a dôr era terrível, queimavam-se em fogo tôda a fortuna, tôdas as riquezas, todo o bem-estar dos povos. No entanto, a Minerva armada não vinha decidir a contenda horrível, como outrora em Platea, quando animava as hostes gregas, fazendo pender a vitória para o lado dos que estavam na razão e na verdade, com um só golpe do seu gládio!...

Ah! de-certo que a fé no triunfo latino e na dignificação da Pátria não esmorecêra, não se apagára como uma chama vacilante no coração de Duarte. Apesar disso, sentia-se outro. Qualquer coisa tinha mudado nêle – nem só no seu corpo, mas também na sua psicologia. Fisicamente, era um inútil, um trágico amputado. Até já mal podia observar, com a pouca vista que lhe restava, as festas da luz, com os seus olhos scintilantes, em que outrora tanto se comprazia, a canção das côres subindo da natureza, que tanto o deleitavam. Moralmente, a sua crença começava a trasmudar-se em scepticismo, como uma flor que um vento de tempestade queimasse...

Levava as horas num interminável scismar. Na realidade como fôra infeliz – pensava êle. Ao voltar da guerra, trazia ainda uma alvorada no peito. Vinha doridamente acolher-se à doçura dum amor em que confiava, que sempre tivera como lial, firme, capaz de resistir a tôdas as provações. Com êsse amor a dourar-lhe a tristeza, haveria ainda a graça, encanto, ternura na sua miséria fisiológica. Algumas horas, porêm, tinham bastado para que esta derradeira consolação se malograsse definitivamente. Oh! com efeito, a desgraça era implacável para êle.

Comovido, Duarte recalcava na garganta um soluço teimoso, que o entalava, que o sufovcava.

Êle bem sabia que era um outro homem, que a sua figura de decepado inspiraria repulsão: mas a alma, oh! essa era a mesma! E daí provinha a sua desdita. Porque não havia de destruir-lhe a pura faculdade de sentir o obuz que o lacerou? Recordava Eugénia. Que seria feito dela? O que teria havido para que a mamã, que o amava até ao delírio e até à renúncia do seu próprio ser, lhe tivesse imposto quase a necessidade de esquecê-la, de se afastar dela e do ar que respirava para que o veneno que a perdêra o não contagiasse tambêm? Não o sabia. A mãe não lhe tornára a falar da noiva, que tam cruelmente o traíra, e Duarte, por orgulho ou para a iludir com um desinteresse aparente, não lhe perguntava por ela. No entanto relembrava-a e achava nesta recordação uma inefável suavidade. Eugénia surgia-lhe na imaginação aureolada pela chama loura dos cabelos, a brancura da face levemente carminada, a mancha azul dos seus imensos olhos meditativos – e esta silhueta só visível para os sentidos, desenhando-se em puras linhas de claridade, embelezava a sua lembrança repentina...

Às vezes a mãe vinha, em passos subtis, como se quisesse espreitar, surpreender-lhe o pensamento, e Duarte, sempre curvado sôbre o livro que tinha aberto diante de si, fingia lêr.

– Vamos almoçar? – perguntava D. Joana.

– Vamos, mamã – respondia Duarte, erguendo a cabeça e sorrindo-lhe melancólicamente.

D. Joana estendia uma toalha de linho sôbre a mesa, dispunha as louças, os copos e os talheres, porque só ela queria servir Duarte: e então fazia-lhe o prato, trinchando a carne em pequenos bocados que o filho pudesse levar à bôca, com o garfo. Muitas vezes, chalaceando para o distraír, alimentava-o por sua própria mão, como quando êle era pequenino, e as refeições terminavam sempre entre beijos, afagos, carícias. À sua volta, Duarte, enlevado, sentia crescer constantemente aquele grande amor materno e purificado, o único que lhe não mentira, que o não traíra – e os olhos arrasavam-se-lhe de lágrimas piedosas.

– O meu pobre filho, coitado! – dizia, entre mimos, D. Joana, envolvendo-o com a vista amorosa.

Foi durante um dêstes almoços no mirante que certa manhã o correio trouxe uma carta para Duarte. Vinha de longe, da França, e logo pelo enveloppe êle reconheceu a letra da Irmã Clementina, da religiosa que fôra, no hospital de sangue, a sua vigilante enfermeira e em que tantas vezes falára à mãe, com admiração.

– Que me quererá ela? – monologou.

D. Joana rasgou o enveloppe e desdobrou a larga fôlha de papel que entregou ao filho, discretamente. Eram apenas algumas linhas, em que a irmã da caridade lhe anunciava a morte, depois de uma demorada operação, de Vitorino, do camarada, do irmão. A religiosa, que também o tratára, falára-lhe de Duarte, e Vitorino, gravemente ferido no peito e na cabeça por um estilhaço de granada, pedira-lhe que, se morresse, participasse a sua morte ao amigo ausente e desgraçado. «... De maneira – terminava ela – que venho cumprir a promessa que fiz ao pobre moço, que tanto apêgo tinha á vida, que se agarrava a ela com desespêro e que afinal, morreu falando em Duarte, falando na mãe e numa irmã, murmurando-lhes os nomes até que a luz se lhe apagou nos olhos e os lábios se lhe imobilizaram. Ah! a guerra. Que tristeza!...»

Silenciosamente Duarte entregou a carta à mãe, para que ela a lêsse também. Vitorino morrera. Nem êsse havia escapado. E deixára-o tam cheio d vida, tam confiante! Bom Deus! Em roda de si apenas havia cadáveres ou desventuras, sangue, dôr, traição! E, no entanto, êle vivia. Que pavor!

As lágrimas cegavam-no, o peito arfava-lhe.

– Pobre Vitorino! Era lial, êsse!

D. Joana, acabrunhada, dobrou a carta, pousou-a sôbre a mesa, apoiou o rosto à mão direita.

– Que golpe fulminante para D. Sofia! – exclamou ela

– E para Eugénia, mamã, também para Eugénia, que era doida pelo irmão.

Mas, a êste nome, D. Joana levantou-se, fitou demoradamente Duarte nos olhos e murmurou: 

– Para que falas nessa criatura? Esquece-a filho!

– Não posso mamã, não posso! Sinto que nunca a poderei esquecer, por mais que o tente. Se fôsse um amor recente ou um amor ligeiro, ah! então!... – gaguejou êle, engasgado pela comoção.

E ao cabo de uns instantes, depois de recuperar um pouco a serenidade, ainda acrescentou:

– Mas ela foi a dôce ocupação de tôda a minha vida consciente e emotiva. Dei-lhe, durante anos seguidos, tôda a paixão que tinha na alma: vivi dessa paixão tanto tempo de infinita doçura! Há no fundo do meu coração um resíduo de ansiedade e de sofrimento que nunca mais se poderá delir enquanto eu viver! Que quer, mamã? Apeguei-me a êste sonho, fiz dêle a razão de ser da minha existência, da minha personalidade. Embora cortado, retalhado, decepado no corpo, o sentimento é o mesmo...

– Oh! Duarte! Oh! meu pobre filho!... – acudiu ela, abraçando-o.

– É o mesmo, é o mesmo, o sentimento! E poderei ser culpado por isso? Não haverá beleza e grandeza nesta devoção inteira a um amor de mulher? Diga!...

– Mas tua não sabes ainda que Eugénia fugiu com outro homem dois dias depois de tu chegares, que, emquanto sofrias e a amavas, ela te traía!...

– Embora, embora! É uma vileza minha, mas não consigo purificar-me dela. Estou para aqui isolado, mamã. Deixa-me viver das recordações afáveis do passado, já que tudo me mentiu: – o amor, a glória, o próprio ideal. Todos me esqueceram, na jornada trágica dos ódios, dos infortúnios, das cobiças...

Arquejava, sufocava, tinha um estranho fulgor nos olhos. A mãe contemplava-o, espantada. Mas a exaltação de Duarte abrandou, a dôr pungiu-o mais duramente e então, num queixume que era feito de gritos, de lágrimas, de piedades e de renúncias, exclamou:

– Oh! mamã! mamã!... Porque não morri eu?

– Porque me matavas tambêm, meu amor! Olha que não tenho mais ninguêm no mundo!

E estendendo os braços, D. Joana puxou-o todo para o seio, embalando-o, acarinhando-o, como fazia outrora, quando êle era de colo e ela o adormecia no egaço. Cerrando os olhos, que lustrais lágrimas de alívio humedeciam, Duarte acolhia-se todo à doçura infinita daquele amor sagrado que se lhe mantivera fiel na desgraça e que acompanharia a sua invalidez pela vida fóra como uma luz que conduzisse um caminheiro errante – amor que era a última verdade que êle reconhecia na terra onde os homens, aos milhões, se dilaceravam.


Miramar, 25 de Outubro de 1917»




O mutilado, Porto: Livraria Chardron, 1918, pp. 369-377

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