Ignorar Comandos do Friso
Saltar para o conteúdo principal
quarta-feira, 21-02-2018
PT | EN
República Portuguesa-Cultura Homepage DGLAB

O BRAVO ALFERES MILICIANO HERNANI CIDADE

O BRAVO ALFERES MILICIANO HERNANI CIDADE
Data :
06/09/2017

​Excerto do livro Memórias dum expedicionário a França (com a 2.ª Brigada d’Infantaria), publicado no Porto em 1919 pelo alferes de Infantaria Humberto Augusto de Almeida (1895-1971). 


O bravo alféres miliciano Hernani Cidade

 

Na madrugada do dia 14 de agosto de 1917 o inimigo começou a bombardear com grande fúria o subsector de Neuve-Chapelle, ocupado por infantaria 35. Este intenso bombardeamento era o prelúdio dum grande raid!

Na vespera, uma patrulha do meu batalhão tinha aprisionado um alemão, que nos informou que no dia seguinte os seus talvez atacassem, conforme tinha ouvido.

Nesse dia os alemães empregaram um gaz diferente.

Toda a frente foi batida num desespêro!

Os pelotões de infantaria 35 lançam nos ares o very-light vermelho, a lagrima ensanguentada, que mostrava aos artilheiros de Portugal que os seus irmãos infantes sofriam na primeira linha…

O very-light subiu nos ares com um traço de fogo e… abriu como uma rosa as suas pétalas ensanguentadas, que sintetizavam o sofrimento das pobres almas alanceadas que esperavam, num frenesi e numa atroz impaciencia, ouvir a voz galharda da artilharia de Portugal.

Os artilheiros estavam atentos… Mal se elevou nos ares o S.O.S., as baterias portuguezas falaram, ripostaram, rugiram impavidas e fortes! Os infantes ouvem-na com alivio. Mas o boche redobra de violencia!…

Num momento saem das suas cavernas em ondas cerradas, bramindo gritos de odio e maldição, saltam o parapeito, e, numa fúria de tigres, atiram-se de encontro ás trincheiras esfaceladas, defendidas em arrancos leoninos pelos soldados da minha Patria!…

O embate foi horrivel e formidavel!

O corps-á-corps foi desesperado e sangrento!

O soldado luso resistia sempre…

Nas linhas foram encontrados mais tarde boches e portuguezes mortos, mas abraçados no desespêro da luta!… A morte tinha-os surpreendido naquela posição!… Era de indizivel odio a expressão dos seus rostos!

Mas a luta era descomunal e desconforme!

Um batalhão de prussianos, soldados frêscos e descançados, vindos do front tranquilo da Russia, dispondo de maquinas infernaes de novo invento. – Apareceram nesse dia umas granadas pequenas destinadas a queimar o equipamento e o fardamento do inimigo.

Identificando-se as tropas boches, verificou-se que eram forças da élite e de assalto as que tinham caido sobre os valentes troços dos portuguezes, cortando-os, acutilando-os e esmagando-os, apesar da sua heroica resistencia, e mal lhes deixando tempo para desenvolverem a defeza!

Os boches em ondas sucessivas avançam até á segunda linha, e nas pontas de pequenas bayonetas, cortantes como navalhas de barba, levavam prisioneiros os dois pelotões, quasi desfeitos, que ocupavam os pontos atacados.

Iam já na «Terra de Ninguem»; o boche devia ir contente com a sua prêsa; aquele dia não parecia ser dos mais felizes para Portugal, o seu sol de victoria parecia ter-se ofuscado, e naquele dia, na conferencia dos generaes, era provavel que os inglezes censurariam aquele revéz de infantaria 35…

Mas eis um valente troço que avança… vae um alféres na frente… leva uma espingarda que apanhou ao lado dum cadaver… eis que salta o parapeito… resoluto, valente e decidido!…

Quem á elle?… É o alféres H. C., que numa heroicidade louca, simplesmente acompanhado por tres soldados, se atira sobre os alemães victoriosos, rugindo gritos de estimulo e de coragem aos portuguezes que já marchavam para os captiveiros da Germania!…

O chacinar humano, o caudal de sangue teve por momentos um compasso de espera…

Mas o combate recomeçou com dobrado fragôr!

Os prisioneiros estremeceram ao ouvir aquela heroe que lhes gritava!… Os boches olharam espantados ao vêr aquele heroe com uma temeridade louca!…

A divisa daquele alféres era vencer ou morrer!

Episodio tenazmente heroico, brilhante e glorioso feito d'armas que insculpiu com letras doiro o heroismo épico da alma portugueza!

Eram 6 horas da manhã.

O despontar do sol iluminava com a sua luz avermelhada est'outro despontar do valor e da coragem deste punhado de batalhadores!

Aquele grito soltado pelo heroe obscuro da ultima hora, foi entusiastico e electrisante para os soldados lusos!

A reacção deu-se grandiosa, sublime de heroicidade e bravura!

Um soldado marchava já no meio de dois boches!… Um deles abaixou-se para abrir uma passagem no arame… O soldado que já ia prisioneiro vibra-lhe uma valente coronhada na nuca e traz prisioneiro para as nossas linhas aquele que ha pouco o escoltava! Feitos identicos se repetem.

A alma portugueza tinha acordado, havia de vencer!…

E aquele punhado de heroes repelia para as suas tocas as hordas aguerridas e da élite do Kaiser orgulhoso, deixando na «Terra de Ninguem» muitos cadaveres boches e trazendo para as nossas linhas os que se entregavam, entre eles o capitão alemão, já quasi agonisante!

Qual foi a obra desse heroe lendario?!…

Num gesto entusiastico, e num desassombro inaudito, transformou a derrota em victoria, libertou das garras do boche uma centêna de portuguezes, a quem esperava a escravidão, escreveu mais uma gloria para o Exercito Portuguez, tirou inesperadamente a grande força moral aos que se julgavam invenciveis, açoutou e quebrantouas possantes envergaduras das aguias prussianas!

Num grito lancinante pela aproximação da derrota esse heroe obscuro evocou na alma dos soldados de Portugal a miragem deslumbrante do passado, a historia da sua Patria, povoada de estimulos e de incitamentos, ressurgiu-lhes na alma heroismos quasi extintos!…

Meia hora depois, prisioneiros boches passavam cabisbaixos, no meio de tropas portuguezas a caminho dos campos de concentração!…

Ás sete horas o general da Divisão e o meu comandante encontravam-se na Mauquissart! Que horrôr!…

O cheiro da lama pestilenta, misturado com as exalações cadavericas tornavam a atmosfera execranda.

Nuvens de môscas voavam sobre os cadaveres crispados…

O capitão alemão estava morto, de cabeça ao fundo, dentro da nossa trincheira. Um fio de sangue corria-lhe da bôca aberta num esgar de suprema raiva!

Abaixei-me e tirei-lhe uma platina e um botão de farda com «souvenir».

O general estava contente…

Vendo passar um soldado dirigiu-se-lhe risonho e disse-lhe:

«Oh gambusio… estou satisfeito com vocês…»

«Pois sim… meu general… Se não fosse o nosso alferes C… estava tudo perdido…»

Mandou procurar o heroe daquele memoravel dia, que estava a descançar no abrigo dos trabalhos daquelas horas de sublime tragédia!

Disse-lhe para que narrasse os factos passados. Contou-os, revestindo-os da maxima modestia e singeleza.

Foi preciso que um soldado, no seu ar boçal, exaltasse a obra daquele heroe e mostrasse na sua linguagem rúde, simples e sincéra o feito glorioso daquele alferes miliciano!

Não o promoveram!…

Deram-lhe a crúz de guerra!

 

In Memorias dum expedicionario a França (com a 2ª. Brigada d'Infantaria) 1917-1918, Porto: Tipografia Sequeira, 1919, pp.69-75  

cópia digital disponibilizada pela Hemeroteca Digital da Hemeroteca Municipal de Lisboa. 

............................................................................................................................................................................................

Ver mais Autores e a Guerra em: É a guerraNaulila 19141914!Portugal e a Guerra e a Orientação das Novas GeraçõesDurante a Guerra - Dezembro de 1914O Monstro quer SangueA RevoltaO VoluntárioCarta pública ao tenente Aragão, prisioneiro de guerraDo Diario d'hum soldadoPacifismo e militarismoA Bélgica; «- Podiam ter sido irmãos, mas foram fratricidas!...»; A Nau CatrinetaA guerra actual é uma guerra entre dois princípios sociológicosQuim e Manecas na I Guerra MundialOs Zeppelins sobre Paris; Batalha do MarneEdith CavellO Génio do PovoNas Trincheiras da FlandresPor que motivo Portugal tomou parte na guerraFritz e BertaUma figura d'inglezCanção do SoldadoO MutiladoBarra ForaNatal de guerra,  O bom humor no C. E. P.As Tempestades da GuerraJornal de um PrisioneiroSoldado que vaes a guerraA LibertaçãoAo soldado desconhecido e Primeiro Morto.