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Naulila 1914

Naulila 1914
Naulila 1914
Data :
01/09/2014
Em Naulila (1922), o poeta e militar Augusto Casimiro (1889-1967) descreve a expedição das tropas portuguesas ao sul de Angola que pretendia evitar a entrada dos alemães no território. Neste excerto relata a partida de Lisboa em setembro de 1914. 

 


«Expedição à África»

Para fazer face a todas as eventualidades e não deixar indefesas as fronteiras do nosso império colonial mais expostas a um ataque alemão, organizara o govêrno duas expedições. Uma para Moçambique, fronteira norte, sob o comando do coronel Massano de Amorim, outra destinada ao sul de Angola, sob o comando do T. Coronel Alves Roçadas, êste, como o primeiro, consagrado chefe de outras campanhas do mato africano.

É a vizinhança do alemão que as determina e «o facto, claramente denunciado na imprensa, dêsses nossos vizinhos projectarem instalar-se em nossa casa». «Se amanhã o tentarem», continuava na Lucta de 11 de Setembro o Sr. Brito Camacho, que mais não seja para irem à Conferência da Paz levando nas mãos algum trofeu guerreiro, – lá estarão os nossos soldados para lhes conter a fúria, e para isso não será necessário fazer prodígios de valor»... «A nossa soberania impõe-nos o dever a que não poderíamos faltar, de repelir qualquer agressão que nos façam»...

Em 10 de Setembro partem as duas expedições. A de Angola embarca no paquete Moçambique, no Cais da Fundição. Ambas atravessam Lisboa, entre a multidão que enche as praças e as ruas, sob o Sol triunfante, ao meio de ovações e cânticos. Do varandim do teatro Nacional, das janelas e balcões, as senhoras acenam com lenços, agitam pequenas bandeiras aliadas, e, nas ruas, entre os cordões da polícia e guarda republicana, o povo entoa a Portuguesa e o hino da França, abraçando os soldados. Caem montões de flores. No Rocio, senhoras francesas vêm abraçar Roçadas, colocam-lhe ao peito uma bandeira tricolor, entre salvas de palmas. Das janelas pendem, estremecendo ao rumor dos aplausos, dos vivas as bandeiras aliadas. Todo o comércio fechou as portas. Das varandas e janelas do Município chovem ondas de rosas e dálias. É um delírio sob o céu de azul e oiro. Glorioso o Tejo! A multidão possessa de uma alegria heróica! Já a expedição alcança a margem, a velha margem das taracenas e das primeiras largadas. A multidão enche tudo. A mancha cinzenta das tropas afoga a grande mancha negra, fremente, sonora de ovações, em que um grande, um imenso rosto, sob o sol ardente, estua entusiasmo e febre.

O embarque faz-se entre vivas, numa fraternidade em que o céu e o Tejo, a velha cidade, o mar e o Sol comungam, a preparar, a pressentir um gloriosos destino... É uma maré de sangue e de luz purificadora, a que sobe... As tropas transfiguradas vão passando para bordo. Povoam-se as amuradas e as enxárceas. Em cada spardeck, de cada vigia, agitam-se, saúdam, sorriem soldados. Ás nações aliadas são ininterruptos os vivas. O povo canta a Portuguesa, e o canto heróico, sôbre o Tejo lindo, não descansa o vôo...

«Quando o vapor largou, conta a Lucta de 11 de Setembro, – parecia que toda a gente tinha enlouquecido. De bordo os vivas eram tão entusiásticos como os de terra. A Portuguesa vibrava entoada por milhares de bôcas. Em todos os prédios de encosta de Alfama e Santa Engrácia só se via gente acenando com lenços. No cais de Areia, no Terreiro do Paço, eram milhares e milhares de pessoas aclamando os expedicionários que acenavam com os capacetes e gritavam aclamações à Pátria e à República». «Não sabemos como descrever o que se passou!».

As bandeiras de Portugal, da França e da Inglaterra tremulam por toda a parte. Os telhados, ao longo das colinas, estão negros de gente. Há gente, cachos de gente nos mastros dos navios. A cidade resplandece, palpita, canta, sob o Sol doirado.


Ás 4h da tarde uma salva rompe o encanto da turba, do Tejo e do céu. O Chefe do Estado embarca no Adamastor... Longo, vibrante, ala-se, do Moçambique, o sinal de largada... Os corações batem mais rápidos. O entusiasmo sobe, é delírio, é loucura... Lento, o Moçambique ageita a prôa à barra.

À frente vão duas canhoneiras. Já o Almirante Reis se desloca sobre o Tejo tranqüilo. A expedição para Moçambique, ao meio das mesmas ovações e do mesmo delírio, está já a bordo do Durbham Castle. É à espera dêste que o Moçambique estaca, frente ao Cais da Desinfecção.

Lisboa vai ruir sôbre o velho Tejo. De cada recanto, do alto das últimas muralhas, dos velhos palácios, de todo o burgo, de cada congosta, de cada tôrre, das praças, dos velhos bairros e do casario novo a estender-se perdido, encosta além, desaba um éco formidável, uma ovação estupenda... Dir-se-ia um mar que derribasse emfim as eclusas tirânicas!... O Passado e o Futuro dando-se as mãos num clamor de triunfo! – O Tejo revive antigas horas... E ninguém quis ouvir as vozes do Restelo... «Um navio espanhol que entra o Tejo saúda com sua bandeira»...

Já os navios descem, entre navios floridos...

Alcântara, Junqueira, Belém são negros de gentes.

Rolam as ovações sem descanso.

Albuquerque, ao alto, saúda, e os Jerónimos parecem maiores, sob o Sol. A Tôrre de Belém palpita, escura, negra, quere largar, mastro florido, para o mar.

Os velhos monumentos acordam. E do alto dêles, zimbório ou Tôrre, o olhar abarca as longas praias repletas...

Pedrouços, Algés, Dafundo...

Salvam os canhões dos navios. A intervalos, sôbre os altos rumores, há vozes de clarim cavalgando Walkirias. Em continência, as guarnições formam nas cobertas.

Em Pedrouços está a Divisão Naval. Todos os barcos suspendem a marcha: o Adamastor vai ao longo dêles... Depois como outrora, lentos, eu direi saüdosos, e decididos, audazes, o Moçambique e o Durbham Castle, picam direitos à barra.

As sereias cortam o ar. As bandas de música a bordo dos vapores, a Portuguesa, o God Save, a Marselhesa, os vivas, os lenços com ásas, as palmas sem fim, um cântico sem termo, deslumbram, enlouquecem, fazem estremecer o Tejo e o ceu...

Êste é o povo! Esta é a Pátria! Esta é a sua alma!.


Naulila : 1914, Lisboa: Anuário do Brasil, Seara Nova, 1922, pp. 21- 24

 

[esta obra encontra-se integralmente digitalizada em Internet Archive: Digital Library, University of Toronto. URL: https://archive.org/details/naulila00casi]

 

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