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Natal de Guerra

Natal de Guerra
Data :
22/12/2016

Conto de  Paulo Osório (1882-1965), publicado no nº. 566 da Ilustração Portuguesa, de 25 de dezembro de 1916.


​Paulo Osório fixou residência em Paris, em 1911, onde foi colaborador de O Século, correspondente do Diário de Notícias e director, já em 1922, da versão parisiense deste diário, o Paris-Notícias.

 

Natal de Guerra

a Silva Graça

 

− Quer então você um assunto para um conto de Natal?

− De Natal de guerra…

− Já se vê… Pois vou contar-lhe a minha noite de 25 de dezembro de 1914, que passei, como tantas outras noites d'esse triste inverno, enterrado n'uma trincheira, para os lados d'Arras.

E o meu amigo «poilu» contou-me então assim a sua noite de Natal:

− Eu tive sempre horror ás festas de família. Creio, de resto, que, dos quinze aos vinte e cinco, todos nós somos assim. A vida, a grande vida ao ar livre ou nos logares onde a gente se diverte, parece-nos então digna de ser vivida e nós queremos vivêl-a, alegremente. É a edade das ilusões, a edade das loucuras, ilusões e loucuras que, mais tarde, nos fazem sorrir. Eu abominava pois esses dias solenes consagrados ao lar. O Natal amei-o emquanto ele vinha, á meia-noite, com as suas barbas brancas, descendo a chaminé do quarto onde eu dormia, encher a transbordar de brinquedos os meus sapatos de creança. Certo ano, ele não veio, com grande surpreza minha, e, a partir d'aí, nunca mais voltou.

«Mas n'essa noite do primeiro inverno da guerra, não sei porquê, a palavra Natal, pronunciada por tantos dos meus camaradas de trincheira, fez uma grande impressão no meu espirito. Encontrei-lhe uma doçura que nunca lhe encontrara e, de ouvil-a, foi como se tivessem soado as trez pancadas de Molière para que, deante dos meus olhos encantados começassem passando, como n'uma feeria ou como n'um sonho, não sei quantas doces, melancolicas, comovidas evocações.

«Quando, pouco depois da meia-noite, o meu turno de vigia começou, tudo em redor de nós estava calmo. A noite era clara; atravez das grossas nuvens do nordeste uma lua palida de dezembro iluminava a espaços o campo de batalha. Á nossa esquerda, uma aldeia em ruinas. Em frente e á direita, a perder de vista, um campo sem arvores onde a geada ao luar dava á relva revolta uma côr cinzenta d'aluminio. A dois passos de nós e, além, junto do sulco negro das trincheiras boches, viam-se as redes emaranhadas dos arames farpados.

«Ainda hoje sobre a Terra, milhões d'homens nos afirmam que, n'uma noite fria como aquela, sob um ceu do Oriente que a lenda nos diz carregado d'estrelas, a mulher d'um carpinteiro deu á luz um deus, que vinha crear n'este mundo, onde a miseria desgraçava os homens e o pecado acabava de perdel-os, um reino d'amor e de bondade. Os homens depois mataram-n'o, como era natural que sucedesse, porque é da natureza humana esquecer as injurias mas nunca perdoar aos que nos fazem bem. E, perto de dois mil anos mais tarde, os mesmos homens, eternamente as mesmas feras, demoliam com obuzes os templos do mesmo deus.

«A historia d'esse deus e da sua passagem pela Terra, longe dos poderosos que ele desprezou, entre a côrte dos humildes que acabaram por trail-o, é um lindo conto que as creanças aprendem de cór e que os homens esquecem para que o egoismo e a maldade possam, nas suas almas, mais do que a fé. Eu pensava n'esse conto do Natal e nos primeiros que m'o tinham contado, n'aqueles que viviam em torno de mim quando eu era creança e que, deante da imagem do seu deus crucificado – gente humilde e boa! – orava para que eu pudesse entre as lutas dos homens encontrar o reino da doçura e da paz.

«De repente vi, a umas dezenas de metros, uma fórma negra rastejante. Levei a mão ao gatilho da espingarda. Afirmei-me melhor, com receio de provocar um falso alarme. Mas a fórma negra avançava… O alvo era dificil; preferi esperar. E, não sei porquê, um terror enorme, absurdo, horrivel, apoderou-se de mim. Eu já tinha tomado parte em batalhas, já tinha atacado á bayoneta, já tinha visto muita gente morrer. Mas a ideia de matar aquele homem assim, a frio, pela calada da noite, emboscado como um bandido, fazia-me tremer dos pés á cabeça. Teria querido fugir, sumir-me, desaparecer; teria preferido um milhão de vezes que ele me matasse a mim. Que mal me tinha feito aquele pobre diabo, talvez novo como eu, talvez bom, talvez ávido de viver? Que me tinha ele feito? Era meu inimigo, marchava contra mim, mas como poderia ele evitar de marchar? Áquela hora, n'alguma aldeia d'Alemanha, uns pobres velhos choravam talvez a sua ausencia amaldiçoando esta guerra cruel. Ele era amado talvez e áquela hora a sua noiva suplicaria ao seu deus para que ele voltasse…

«Uma nuvem mais grossa, tapando a lua, lançou uma mancha de sombra sobre o campo. O homem ergueu-se. Eu vi-o erguer-se. Ele caminhava a descoberto, resolutamente, para nós. Era um doido ou era um heroe. Por um momento a noite estava escura; mas ele vinha tão perto que eu pude vizal-o bem. E um primeiro tiro partiu. Fechei os olhos um instante, para não vêr. Mas, quando os abri, o homem dir-se-ia que parara, mas estava sempre lá, de pé, deante de mim. Atirei de novo, e uma vez e outra; outros tiros se ouviram vindos da trincheira d'eles, talvez da nossa. O alemão continuava de pé, a sua silhueta negra dir-se-ia mesmo ter crescido. E eu comecei a ter medo d'ela e a ter medo de mim. Não sei se disparei a minha espingarda vezes sem conta, não sei se gritei, se endoideci.

«Lembro-me apenas de que, quando voltei a ter consciência de mim, toda a trincheira tinha despertado, os camaradas rodeavam-me. O nascente tingia-se de vermelho. Eram as primeiras claridades da manhã. O frio era cortante. Sobre as ruinas da aldeia proxima, empoleirado, um enorme galo cantava. A alguns metros de nós, ligeiramente debruçado sobre os arames farpados, o cadaver do alemão continuava de pé…»

− Aí está – concluiu o «poilu» meu amigo – o que foi a minha noite de 25 de dezembro de 1914, n'uma trincheira, para os lados d'Arras. Meta-lhe você um bocado de literatura e aí tem um assunto para um conto de Natal…»

Paris, dezembro de 1916.

Paulo Osorio

(Ilustração de Ferreira da Costa)

 

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