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Nas trincheiras da flandres

Nas trincheiras da flandres
Data :
04/04/2016

​Excerto do livro Nas trincheiras da Flandres, de Augusto Casimiro, publicado em 1918.


​Oficial do exército português, Augusto Casimiro participou na Campanha da Flandres (1917-1918) o que lhe valeu várias condecorações e a promoção a capitão.

*

Ai vai este livro. Amontoado de notas sem linha geral ou intenção precisa, marca-o a sinceridade das coisas vividas.

No meu abrigo, nas horas de calma, nas longas noites brancas, o escrevi aos pedaços, esquecido da literatura e de mim.

Ninguêm procure nele visões teatrais de epopeia. Não as vi na guerra. Só as vê quem nunca fez a guerra, esta guerra, senhores!

Eu não podia vê-las... E não quero merecer-me, e aos meus camaradas de França, a indignação com que na trincheira lemos os lugares comuns dos cronistas ausentes, palavrosos escrivães que não sabem o que seja a austera severidade dos que cumprem o seu dever na lama, no sangue, em luta consigo e com todas as forças tumultuosas e miseráveis... Perto da Morte, – essa que nos ensinou graves silêncios...

 

Mais tarde, se a Morte não quiser coroar o meu orgulho ardente nesta linha-calvário onde se vivem horas eternas, eu tentarei dizer o misticismo, a profundeza, a altura das almas que aí andam, divinamente presentes, dando-se, sofrendo, elevando-se, eternizando a Pátria e sem o suspeitar.

Outras horas virão mais rudes, formosas e sangrentas.

Nelas, e no drama mais vivo, a alma da gente encarnará, senhores!

E os fantasmas de Portugal voltarão os olhos surpresos para os lados da linha...

E hão de escutar, atentos...

E hão de entender um dia...

Livro de portugueses, quero, entre os retalhos do longo dia que lá se vive, pôr a minha homenagem aos camaradas que admiro para lá do meu sentido lusitano...

Junto aos ingleses temos sido os espectadores, humilhados por vezes, da sua serena grandeza.

A êles devemos a camaradagem que nenhum mal entendido ou propósito mau conseguirá maltratar.

Aos seus comandos devem os nossos soldados os elogios melhores da nossa guerra.

Por mim lembro com saudade as horas esplêndidas que lhes devo, a tantos camaradas que me iniciaram, junto dos quais me aproximei, pela primeira vez e orgulhosamente, do perigo e da morte.

Evoco os pequenos oficiais com alma de condestáveis, recemvindos das Universidades, anunciando os ataques ou um passeio à trincheira inimiga com um sorriso simples de orgulho e devoção...

Evoco um deles, forte e loiro, verso belo da grande tragédia... Entrava no abrigo em 1.ª linha recitando palavras de Portugal... «Amor perfeito... Saudade» que lhe haviam ensinado para mas vir dizer...

Harris, do West York Shires, morto pelo boche numa hora de heroismo, sepultado em terra inimiga, – meu camarada eterno...

 

Mac Cluski, da Escóssia, formoso Galaaz, virginal e cândido, Branton do Regimento das duas rosas, – Milne em cuja boca as palavras de Portugal tinham um sabor fraterno, – Amblers, (estou a ouvi-lo: On va bombarder l'Allemagne...), – Troth que fazia horóscopos, – os da verde Erin, os que voltavam de Paschaendale, Wood, mano artilheiro, tantos...

Bravos Tommys!

 

Generais camaradas, jovens ou de cabelos brancos!...

 

Meus camaradas da Guerra Grande, companheiros... Êsse livro que aí fica só quero uma sanção, a vossa...

Mortos, irmãos caídos ao meu lado, mortos meus, caídos na minha linha, cumprindo as minhas ordens, – dádivas perenes de sacrifício e beleza, todos os mortos, ó eternos vivos de Portugal!...

 

Nas trincheiras da Flandres, 3ª ed. - Porto : Renascença Portuguesa, 1918. pp. 7-10

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