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quarta-feira, 21-02-2018
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Edith Cavell

Edith Cavell
Data :
01/02/2016

​Texto de Guerra Junqueiro (1850-1923) sobre o assassinato da enfermeira britânica pelo Império Alemão em 12 de outubro de 1915.



EDITH CAVELL



O horrendo assassinio de Miss Cavell pelo imperio alemão é já a crise delirante da ferocidade teutonica e demoniaca, o louco a pavido estrebuchar da bebedeira de sangue, orgulho e omnipotencia que fez da luminosa patria de Goethe e de Beethoven a caserna ciclopica e sinistra do Kaiser, de Krupp e de Bismarck.

Miss Cavell gastou a vida inteira nos hospitaes, cuidando enfermos piedosamente desde o raiar da alva até á noite, com mãos de carinho e benção para os desgraçados que gemem, com olhos fraternos e celestes para os tristes que choram, com palavras de imortalidade e deslumbramento para as almas sem luz e sem guia que buscam Deus e o não encontram. E, se a existencia de Miss Cavell, dedicada aos que sofrem, á dor e ao amor, foi alta e foi bela, a sua morte crua e esplendorosa foi mais do que bela, foi divina.

Miss Cavell achava-se na sua patria, quando as hordas sacrilegas da Alemanha, enforcando o direito e apunhalando a honra, invadiram a Belgica. O heroico e sagrado holocausto d'esse pequeno povo, que é hoje, na ordem espiritual, um dos maiores do mundo, trespassou-lhe de angustia o coração e correu a Bruxelas, onde ha anos estava dirigindo virtuosamente, com pureza cristã, uma simpatica escola de enfermeiras.

Diante do drama horroroso e augusto do martirio belga, escrito a fogo, a sangue e a lagrimas, por Deus e por Satanás; diante da avalanche execranda, esmagadora, inexorável, arrasando aldeias e cidades, igrejas e hospitaes, choupanas e palacios, queimando bibliotecas, estilhaçando monumentos, massacrando na debandada as multidões inermes, escarnecendo e fuzilando sacerdotes, brutalizando mulheres, violando donzelas, n'uma raiva alcoolica e sangrenta de orgulho conquistador e canibalesco, sem respeito nem á virtude, nem á miseria, nem á velhice, nem á virgindade, nem á cruz de perdão do Nazareno, nem á hostia inocente dos altares; diante, emfim, do espectaculo sobre-humano d'um povo a bater-se pelo direito com a certeza prévia da derrota, sacrificando liberdade e vida á vida dos outros, á liberdade do mundo e á justiça eterna: a alma cristã de Miss Cavell ergueu-se instantanea, em suplica ardente, ao coração de Deus, e de lá baixou iluminada e perfeita para a obra de amor e de renuncia, que teve o martirio como epilogo.

A dor, exaltando-a e sublimando-a, tornou-a heroica e fê-la santa. Move-se ainda no mundo, mas vive em Deus, esparge Deus, realiza Deus. E é então que a figura celeste de Miss Cavell atravessa imortal, n'uma onda de luz, aquela hecatombe demoniaca. Abrasada em amor e misericordia, dia e noite percorre os hospitaes de sangue, estancando golpes, curando chagas, aliviando tormentos, sem discriminar o soldado alemão do soldado belga, os ais do verdugo e os ais da vitima, porque a dor que implora é religiosa, e até a dos monstros ecoa em Deus e comove os santos.

Mas, além dos brados de angustia dos enfermos, chamavam-na ainda os cativos estóicos, silenciosos, os que pugnaram pelo direito e pela honra contra a iniquidade e contra a infamia. Libertá-los era um dever sagrado perante Deus, e um crime de morte perante o Kaiser. A virgem heroica não hesitou um minuto: obedeceu ao dever, desafiando a morte.

Encarcerada e julgada militarmente, por dar evasão a prisioneiros, o acusador interrogou-a:

– É certo? É verdade?

Confessando, condenava-se. Podia mentir, podia iludir. Em transes desta ordem, a moral humana justifica dissimulações e subtilezas. A moral transcendente, a moral divina repele-as. O norte da existência é o bem, o amor. O bem infinito, o amor infinito, chama-se Deus. O homem sobre-humano, o santo, engolfa-se em Deus, embebe-se em Deus, e inunda de amor e de piedade a dor eterna do Universo. E, se é necessario para chegar a Deus, acabar na cruz, indefeso se rende aos seus verdugos, e, crivado de golpes e de ultrajes, expira em deus, abençoando e perdoando.

A alma de miss Cavell pairava já, extática e radiante, na graça imortal da manhã divina. Santificara-se. E quando o bruto e barbaro juiz lhe perguntou se a acusação era exacta, se dera fuga aos prisioneiros, a mulher sublime, encarando os algozes, tranquilamente respondeu, como Jesus responderia:

– É verdade.

Miss Cavell ergueu-se n'aquele instante á esfera mais alta e luminosa da perfeição humana. Tocou o zenite da virtude. Os anjos sorriram-lhe, Deus admirou-a, e o tribunal, em nome do Kaiser, em nome da lei e do Imperio, condenou-a á morte. Ficou serena. Ia morrer pela verdade e pelo bem.

A legação de Espanha e a dos Estados-Unidos intervieram inutilmente. O crime executou-se. Altas horas da noite foram buscar a vitima. Miss Cavell, andando, resplandecia. Exalava oração, deslumbramento, vida eterna. Pela dor e pelo amor vencera a morte. Perdoara afrontas, injurias, iniquidades, e marchara em extase para Deus, levando no coração, como uma filha, aos ais e a escorrer sangue, a miséria dos homens e do mundo.

– N'um pateo sombrio aguardavam-na os algozes – quatro soldados e o comandante. A alma divina da martir olhou-os sem odio e sem temor. Nem todas as forças brutas da natureza, voltando-se contra ela, a poderiam aniquilar. Mas, se a alma era invencivel, a carne estava exausta. O corpo da santa desmaiou. O oficial, concluindo a trageria, estourou-lhe o craneo com duas balas. Assassinou-a placidamente, gelidamente, maquinalmente.

Pois o que era ele (estava-o dizendo a si mesmo) senão uma infima parte da prodigiosa maquina de guerra, a Allemanha inteira, organizada pelo Destino, em meio seculo, para a conquista ovante do planeta? Maquina de morte e de triunfo que, rodando no globo, ia escravizá-lo, submetendo á hegemonia olímpica do Kaiser a alma das nações, o drama da historia, os fados do Universo. A Belgica louca resistiu-lhe, e ela esmagou-a como um verme. Contra o direito? Não. O direito é a força. O direito é o Kaiser, é Krupp, é Moltke, é Bismarck. O supremo direito é a suprema vontade da Germania. Porque o direito da Germania é o direito universal e o direito divino. A força alemã arquitetou-a o genio alemão, e o genio alemão creou-o Deus para dominar a terra. O Kaiser, o super-homem, é um vice-Deus hereditario, e a Germania-Mater o povo augusto, o povo eleito, o Povo-Clarão, o Povo-Messias, que guiará na viagem do Eterno, através dos tempos, a dolorosa e infinita marcha da humanidade. É o condutor, é o Redentor. Mas, em vez de crucificado como Jesus, crucificará, sendo preciso, o mundo inteiro. O Deus da Germania é o Deus dos exercitos, sem misericordia para os fracos e sem perdão para os rebeldes. O evangelho novo ha-de a Germania triunfante ensiná-lo aos homens, com a eloquencia arrebatadora dos seus canhões – os seus apostolos. A ordem augusta vai fundar-se: Germania – imperatriz do mundo, Berlim – capital do Universo!...

Eis o que esteve sonhando, emquanto limpava e guardava o revólver cuidadosamente, o executor feroz da grande martir. Depois bebeu, deitou-se e repousou como um justo. Lembrava-se tanto de Miss Cavell como se lembra um temporal d'uma folha morta.

Mas, d'essa folha morta, d'esse cadaver desprezado, radiou no globo instantaneamente uma luz imortal, onde milhões e milhões de almas se inflamaram, coruscando de dor e de vingança. Baixou inexorável sobre a Alemanha patibular a execração do mundo. Ergueram-se heroes, levantaram-se exercitos. E no infinito de Deus, na insondavel paisagem da eternidade, emquanto que a alma gloriosa da martir brilhava em estrela espiritual da constelação edénica dos anjos, a Alemanha rutila e soberba, a Alemanha ovante e formidavel, com todas as chamas do seu orgulho e todo o esplendor do seu imperio, não era mais do que um montão de larvas negras, de embriões de loucuras e de crimes, de fermentos sacrilegos, satânicos...

A Justiça de Deus vai proclamar-se na terra. O monstro espantoso será desfeito e aniquilado.

Barca d'Alva, Outubro de 1915


in Prosas dispersas, Porto: Livraria Chardron, 1921, pp. 131-140

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