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Do diario d'um soldado

Do diario d'um soldado
Data :
30/04/2015

​Conto de Amélia Cardia (1855-1938) inserido no livro Episodios da Guerra (1920).


​Este livro, que reúne as crónicas publicadas na Ilustração Portuguesa durante o período da Guerra, encontra-se digitalizado e disponível na Hermeroteca Digital.

 

 

Do diario d'um soldado


________



Naulila, 25 de dezembro.

Minha querida mãe:


Desejo que passe bem o Natal e que esteja de saúde, que a minha ao fazer d'esta não é lá grande coisa. O raio das sezões estão teimosas. Mas não lhe dê pena, que tanto quinino hei de tomar que se hão de ir embora. O que me arrelia é este descanço agora. Tomára que entrássemos outra vez na dança para dar cabo, á minha parte, de meia duzia d'aqueles cães. Não crio alma nova emquanto não vingarmos os que nos ficaram no vau de Calueque e o nosso tenente. A morte d'ele não me pode lembrar sem sentir um aperto cá por dentro que me estrafega a garganta; e não me tenho que não chore. A fuzilaria das metralhadoras já não bole comigo; mas ha coisas... E olhe que não estou amolecido; sou o mesmo que d'aí partiu. Vocemecê bem viu que voltei as costas a tudo como um homem brioso... Tem-na visto? Não se zangue com a pergunta mãe, que quer! Não se me varre da memoria aquela perversa. Bem quero eu esquecel-a e dal-a ao desprezo, mas há de levar seu tempo.

Mando-lhe junto um caderno para que m'o guarde na arca da roupa. Se quizer saber mais pelo miudo o que por cá se tem passado peça ao nosso vizinho boticário que lh'o leia quando lhe ler esta. Mas não m'o suma. Ainda quero tornar a viver n'ele quando já fôr velho, a minha mal aventurada mocidade que só n'estas terras de Africa achou algum alivio a tantas penas. Adeus, mãe. Grandes saudades para si e lembranças aos vizinhos e á rapaziada dos nossos sitios.

D'este seu filho
Marcelino.



Transcrevo agora uma parte do caderno enviado pelo soldado de dragões africanos á digna camponeza sua mãe, a Mariana do Outeiro, muito estimada na vila, lido á noite na botica á destinataria diante do mestre escola e do regedor, pessoas das mais gradas por aqueles arredores. Basta o importante:

«.................................................................................................................................................................

«26 de outubro, Lubango.

«Estamos n'um quartel feito á pressa em quatro casarões a poucas leguas do Bruco. Por emquanto só combates com o gentio do huambe, em exploração. N'eles caíram alguns dos nossos. Quem me diria a mim que eu havia de lutar para vender cara a vida, eu que queria morrer no primeiro combate em que entrássemos. Assim não daria tanta pena á velhota: longe da vista... Agora? isso sim! Quando se entra na dança é como se um vinho forte nos subisse á cabeça. Nada nos contem. É andar p'rá frente. O nosso tenente dá o exemplo. Aquilo é que é um bravo ás direitas. Uma criança, mais novo que eu, leva tudo atraz de si, mesmo os mais encolhidos. E fica a comandar o esquadrão, apesar de haver outros mais antigos. É que o comandante já viu de que barro aquilo é feito. Tirassem-nos este chefe por quem nos deixaríamos matar como um bando de codornizes e sempre queria ver para que servíamos, um punhado de homens contra um poder d'eles... Se ao menos viesse gente de Lisboa corríamos depressa com esses salteadores que estão sempre entrando pela nossa Africa. Ainda ha tres dias morreram dois dos nossos n'um recontro com um patrulha de reconhecimento do inimigo. Contam para aí que os alemães são mais de 3.000 com basta artilharia. Se eles tomam a ofensiva antes de nos chegarem reforços estamos arranjados. Mas ha de lhes custar caro com gente como a nossa. Por mim estou disposto a tudo. Assim eu tivesse coragem para as minhas penas... Que hei de acabar com esta parvoíce. Raparigas ha-as por lá bem seriasinhas, capazes de fazerem a felicidade de um homem trabalhador e honrado, como me dizia tantas vezes a velhota. Santa mãe. Não que ela já tem outra idade para vêr as coisas e conhecia bem aquela refalsada. Quando me lembro da malvada ainda me dão ganas de lhe fazer alguma... Seria a minha desgraça, a Penitenciaria, está bem de ver. Lá os rapazes da minha geração não m'o tomariam a mal, mas a minha velhota finava de desgosto, coitadita. Antes com honra pela barra fóra. Ah! que não possa eu esquecer aquela cruel! Uma mulher não é obrigada a gostar d' um homem qualquer. Não me queria, não me queria, acabou-se. mas uma traição assim... e eu que gostava tanto da rapariga!... Quando a velhota me dizia que aquilo me não servia, que era uma dengosa, que só gostava de secias para enfeitiçar os rapazes, até me zangava com ela, tão minha amiga. Mãe, mãe...»

Aqui o diario interrompia-se. As letras mal se distinguiam. Manchas amareladas aos recortes salpicavam a espaços esta parte no caderno do soldado.

«4 de novembro.

«As maleitas não me largam. E quasi todos por aí na mesma. O nosso tenente tambem não traz boa cara. Hontem viu-me a tremer com o acrescimo e vá de arrebanhar mantas por onde as achava para me cobrir.

– A que horas principiou isso, ó 17? – perguntou-me ele aconchegando-me a roupa com a mão entrapada.

– A's dez, meu tenente.

– Vê lá então se amanhã de madrugada te esqueces do quinino.

«E lá se foi «trabalhar» os cavalos bravios que nos chegaram do cabo para o picadeiro que se arranjou no cercado do quartel.

«Isto é que é superior! Assim a modos como um irmão dos soldados. Tambem se alguem se faz malandro, ferra-lhe um cascudo que o faz ver estrelas ao meio dia. E o sargento já lê pela mesma cartilha.

«Com gente assim, ninguem comete faltas.

«As patrulhas alemãs já tornaram a romper a fronteira. Isto vae mal. O gentio do Cuamato revoltado. Os cavalos doentes. Se os de Lisboa se não lembram de nós vae tudo p'ró major.»

«25 de novembro.

«Temos andado pelo mato em exploração. Por ali dormimos, comendo todos o mesmo, como se não houvesse patentes. E apesar de vivermos em liberdade, que disciplina! E' um feitiço, isto de saber levar os homens assim. Só me faz lembrar umas pedras que ás vezes achava em garoto no meio das terras lavradas, lá nos meus sitios e com que brincava arrastando uma mólhada de pregos sem lhes tocar. Era o pasmo da garotada. Eu não sabia o que fazia mexer os pregos. Perguntei ao mestre, ao boticario, ninguem sabia; e eu parafusava n'aquilo até que um dia o cirurgião, que tinha vindo á vila tratar o meu velhote que Deus tem, me disse quando lhe mostrei uma pedra:

– Isso é ferro magnetico, rapaz, pedra iman.

«Não fiquei sabendo mais. Mas deve ser a modos um condão assim, o do nosso tenente, que faz mexer os homens. se lhe der na vontade, leva-nos atraz de si sem a gente saber. Se fossem todos os superiores d'esta força, não haveria dentro em pouco um inimigo com vida n'estes sertões da Africa. Que eu tenho para mim que devemos ir primeiro aos alemães. Aqui anda manigância d'eles por força na revolta do gentio. Quem lhes atirára com um bom par de lanças para cima dos lombos! Mas sem gente, que havemos nós de fazer? Ah! Lisboa, Lisboa, que és outra que tal, desnaturada. E queres então luxar com as riquezas d'esta grande terra? pois manda gente p'rá defender, minha desatinada, minha traidora!»

«5 de dezembro.

«Os do Cuangar tudo massacrado. Isto é de uma pessoa se enfurecer. Cães! Não vir um raio que os parta! O nosso tenente está polvora. E os outros. Que ele ha por aí na infanteria oficiaes de mão cheia. E o comandante então é de alto lá com ele, valente, destemido a valer.»

«13 de dezembro.

A noite passada é que foi uma coisa como nunca vi. Já de tarde tinham caído alguns debaixo do tiroteio dos alemães. Mas nada se pareceu com o da passagem do Cunene. O nosso esquadrão passou o vau, lá isso é verdade, mas sempre debaixo do fogo inimigo. Era de ensurdecer. O que nos dava alma era o nosso tenente tão animoso, bradando a cada passo:

– Coragem, rapazes, p'rá frente.

E passamos. Lá me ficou o pobre João da Ribeira, tão meu amigo, e outros. Mas o João dá-me grande pena. Tinhamos vindo juntos. Eramos da mesma creação. Com ele é que eu abria o meu peito que ninguem como ela conhecia as minhas desgraças. Quando já me tinha corrido o primeiro pregão para casar com aquela infame, foi ele que veio ter comigo mais uma vez, apezar de eu lhe ter virado as costas, esquecendo a nossa antiga amizade.

– Ainda estás a tempo, rapaz, não cases.

– Mas que sabes tu d'ela, homem?

– Pergunta á tua mãe, eu já te disse o que te havia de dizer. Não cases.

Cuidei de endoidecer quando a velhota me disse tudo.

Tinha-se combinado, a malvada e o fidalgo dos Lagares para me lograrem. Ele todo generoso queria fazer-me quinteiro lá na propriedade, visto eu ser trabalhador e bom filho, dizia, como se não fosse essa a minha obrigação. Era para a ter lá nas suas terras á vontade e pôr um nome ao que viesse, o infame... Mas ela, ela com a sua carinha de santa, a refalsada, a dizer-me que gostava de mim e eu tão cego... Aquilo só com a vida fóra. Também já não se me dá, é uma infeliz como ha tantas. Lá terá o seu castigo. Era o que me repetia João. Ninguem já as faz que as não pague, homem, deixa lá. E o caso é que já se ia gastando esta dôr á beira daquele amigo... Que diabo! As lagrimas são para as mulheres. isto é lá de um soldado de dragões!...»

Nova interrupção no caderno manchado.

«17 de dezembro.

«Tive de largar de escrever por uns dias. Um homem amolece quando estas coisas do coração saem cá para fóra. Mas nada de fraquezas que o caso agora está de respeito.

«Os alemães vieram acampar perto do vau de Calueque. São em grande numero. Há quem diga vinte e cinco mil, trinta mil, n'estas coisas exagera-se sempre. Mas que são muitos é verdade. Se fossem da força dos nossos seria uma razia.

«Temos a passagem do vau defendida por um destacamento de cavalaria. As nossas tropas foram postas em posição de combate. Mas o resultado é capaz de ser o massacre de todos nós. As forças são poucas, espalhadas, por diferentes sitios, em Calueque serão ao todo uns setecentos brancos, e duas companhias de landins. Isto vae ser bonito.

«18, ás quatro da manhã.

«Os alemães saíram do acampamento dirigindo-se para leste. Se atravessarem o bosque de espinheiros chegarão ao encontro dos nossos sem se dar por tal. Já avisámos os de Naulila do movimento. Oh!...

«19 de dezembro.

Meu dito meu feito. A' traição. Que dia o de hontem! O nosso tenente... ai, não posso... não posso!...».

O diario aqui estava uma lastima. A escrita tremida atestava o soluçar convulso do dedicado rapaz, cujos olhos se tinham desfeito em lagrimas ao largar a pena. Coração amoravel de mulher em peito forte de soldado.

«20 de dezembro.

«Era madrugada quando eles romperam o fogo. Haviam-se aproximado das nossas posições durante a noite sem serem vistos. O troar da artilharia tinha-me surpreendido a escrever. Duas descargas como toque de alvorada. E não foram mais. Foi um vomitar de granadas que não tinha fim. O fogo castigou sem descanço a extrema esquerda da nossa frente de combate. A infantaria apanhou em cheio. Durante quatro horas o flanco esquerdo respondeu com vigor á fuzilaria do inimigo. As nossas metralhadoras aguentaram o primeiro combate. Depois a infantaria desorganizou-se, perdido o superior que a comandava n'um dos flancos. Todos valorosos, áparte um ou outro que não vale contar. O fuzilar era cerrado, medonho, quando acudimos de Calueque pela retaguarda do inimigo. Deslocam a reserva e colocam-nos entre dois fogos. Mal nos viamos uns aos outros quando o nosso tenente caiu como um heroe sem um desfalecimento da coragem na hora extrema. Um bravo.

«E não foi morte inutil que se não fôra ele nem um só se salvava na retirada. Bem tentou o comandante contra-ataques. Valente tambem, aquilo! mas não se podia resistir a um fogo assim. Dezesseis metralhadoras, oito peças de artilharia de grosso calibre, cavalaria numerosa, tudo contra nós, tão de perto. O que admira é ter ficado algum vivo n'um destroço d'aqueles. E então para quê, quando caíram outros de mais valia para não se levantarem mais. Que importa lá que tenha grandes baixas o inimigo! Ainda ficam de sobra, olha a vantagem. Quando para os arrasar perdemos tantos dos nossos melhores. Ai, o nosso tenente... o que me ha de dar remedio a esta pena? Vinga-lo! Sim, levar tudo a ferro e fogo deante de mim mal entre em combate. Hão de m'as pagar todas já que me tiraram tudo.

«21 de dezembro.

«Estão da posse do posto, os ladrões. Até os barracões que serviam de hospital incendiaram, aquelas feras. O que vale é que tudo aqui é gente de alma, mesmo os cirurgiões. Salvaram-se a tempo os doentes todos. Como havemos de correr com estes salteadores de estrada se não vem tropa de Lisboa? E que a mandem: primeiro que cá chegue faça Deus bom tempo. Eu bem me lembro do que foi quando viemos. Ficamos todos aqui. Com quatro metralhadoras contra aquela massa de peças que podemos fazer? E o gentio com eles. Morrer com honra. E acabou. Debaixo d'este chão não nos chegará o frio: estamos com sorte. Faz por cá uma calma...

«E lá se acaba o caderno, estou na capa. Vou manda-lo á velhota não me leve por cá sumiço. O nosso tenente ainda me disse um dia d'estes:

– Saiste-me um letrado. Que diabo de garatujas andas para aí a fazer?

– Isto são cá desabafos, meu tenente – respondi eu envergonhado. Pois hão de me fazer companhia, lá para o deanfe quando eu já não tiver forças para cavar as terras e fazer a colheita, que não terei então ninguem, a minha velhota dormirá debaixo da terra e... mulher não me põe os pés da soleira para dentro; levada a minha santa mãe. Se eu não ficar por cá. E dou por bem empregado. Não fica o meu tenente?

Agora tenho de escrever para casa que vem chegado o Natal, dia de consoadas. Não me tens lá, mãe, mas has de gostar de ver as minhas letras que não esqueci o dia...»

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Como moralidade do conto direi:

Os verdadeiros heroes não aspiram a recompensas. Guiados pela irradiação de uma visão espiritual avançam ousados para a gloria pela morte ou pelo triunfo, inacessiveis a interesses mesquinhos, tendo na alma o sereno contentamento do dever cumprido ao fim da jornada, nos labios o sublime conceito da isenção:

«Se servistes a patria que vos foi ingrata, vós fizestes o que devieis, ela o que costuma.»

Faça ela embora o que costuma; mas emquanto precisa dos seus filhos mais devotados que não atire com eles desajudados de todo o auxilio para os confins do mundo onde oscilam os mais solidos esteios da sua grandeza, onde caem prematuramente os defensores
mais heroicos da sua independencia. 


in Episódios da guerra, Lisboa/Rio de Janeiro: Companhia Editora Americana, Portugal-Brasil, 1920, pp. 113-124

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