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DURANTE A GUERRA - Dezembro de 1914

DURANTE A GUERRA - Dezembro de 1914
Raul Brandão
Data :
01/12/2014
No seu 3º. volume de memórias, Vale de Josafat, publicado em 1933, Raul Brandão recorda uma conversa com Guerra Junqueiro sobre os preparativos para a entrada das tropas portuguesas na guerra.

DURANTE A GUERRA


DEZEMBRO – 1914


Preparativos para a entrada das nossas tropas na guerra. Os oficiais, na sua maioria, vão como quem vai para o açougue. Os jacobinos chamam-lhes, por aí, cabides de farda. A ida de forças para a França salvará a república? Ainda hoje Junqueiro me dizia, no Porto, que depois da vinda ao Tejo dos navios ingleses e franceses a situação internacional da república é melhor.

– Vou passar alguns meses na Barca de Alva, a escrever um manifesto sobre a república. Desde o dia 5 de Outubro que está tudo errado. Eu bem dizia ao Bernardino que tivesse cuidado com a lei da separação... Mas ele queria agradar aos radicais e ser mais radical que o Afonso. O Bernardino é assim: a sua afectuosidade não é uma mentira, a sua bondade não é uma mentira. Mas é político e sacrifica tudo às suas ambições. Há muita gente que pensa que eu tenho alguma influência no Bernardino. Tenho, quando precisa de mim. Basta dizer-lhe isto: ando a pedir-lhe, há seis meses, que nomeie para a minha terra outro administrador de concelho. O que lá está é um sicário. Prometeu-me que seis dias depois de fechado o parlamento punha lá outro, escolhido por mim. – Dás-me a tua palavra de honra? – Dou-te a minha palavra de honra. – O parlamento está fechado há quatro meses... Nunca mais lhe falei nisso. Tenho vergonha. Para restabelecer o equilíbrio político até mente... Este ministro da Justiça é um homem de bem e duma grande elevação moral. Achou que devia modificar a lei da separação, que Bernardino também entende que precisa de modificações. Todo o conselho de ministros era da mesma opinião. Houve um único voto contra. Sabe de quem? Do Bernardino – porque o França Borges se opôs. E com isto vai visitar o cardeal Belo! Eu já lhe disse: – Ó desgraçado: que foste tu lá fazer? Foste levar-lhe a chave da casa de onde o expulsaram? Foste lá atascar-te em merda. – Vou-me embora, vou para a aldeia escrever o que tenho a escrever, sem ataques nem alusões especiais, sobre esta república que falhou. E veja, veja! Agora, se alguma coisa havia a fazer, agora com a guerra, era: primeiro, salvar a honra e a dignidade do país; segundo, dar o menos que pudéssemos dar – e tanto mais que a Inglaterra apenas nos pedia material de guerra – desviando para a África as nossas forças. Estas cousas conduzem-se... Pois vamos mandar para o front 25 mil homens, e depois outros 25 mil, que nos vão custar milhares de contos. É a miséria... Foram eles que conduziram isto assim – se é que não ofereceram os soldados. Veja o que o Camacho tem escrito. Não é de crer que, antes de uma resolução definitiva, se não tivessem consultado os chefes de partidos. E é esta a situação da república, é esta a situação do país, onde, há meses, quem sustentava o pendão de Nun'Álvares era – quem? O Homem Cristo filho, que passava, Chiado abaixo, Chiado acima, de luvas amarelas e polainas. A república, que depois da visita dos navios estrangeiros, depois de se ver livre dos seus inimigos internos, a república que estava caída e se levantou agora com a guerra – tem, porventura, mais vida?...

E, vendo a mulher entrar no salão do Hotel do Porto:

– Aí está a minha santa! Um dia, na Barca de Alva, apareceu-me um almocreve, destes que vendem azeite e compram aguardente. Ela foi-lhe vender a aguardente bagaceira e, à saída, o homem disse-me:

– A sua mulher, senhor doutor, é um pedacinho do céu.

Dias depois afiança que se o Afonso Costa morrer da queda (que deu ao saltar do eléctrico, com medo a uma bomba) ainda é pior: recomeçam os ódios e é o fim de tudo. – A nossa situação interna é péssima, a externa é um pavor. A Inglaterra olha para nós como uma pescada podre. A questão da guerra tem sido dirigida por maus ou por tolos. O próprio Freire de Andrade não passa dum general de jesuítas. Quanto ao Bernardino, quando se tinha conseguido, a contento de todos – e da Inglaterra – que fizéssemos a guerra só na África, opôs-se ele... foi ele que teimou na nossa ida para o front. Agora, se qualquer dia morre o Afonso, vem a anarquia, e o exército, cuja maioria é monárquica, faz a restauração. Nem o António José, nem o Brito Camacho, nem o Bernardino se podem entender.

Seria realmente o Bernardino que teimou que fôssemos para o front, mas quem lhe matou o bicho-do-ouvido foi o João chagas, a ponto de se dizer, em Lisboa, que recebia uma libra por cada soldado que partia para França – o que era falso.

Os homens falharam. Os melhores, talvez, estão, de há muito, afastados, como Bruno, na sua biblioteca, ou o Basílio Teles, em Matosinhos. Ontem dizia o João Novais que o Basílio estava com fome.

– É possível – diz Junqueiro. – O Basílio é um doido e um megalómano. Têm-lhe oferecido tudo – aceita tudo a prazo. – Estou a acabar um folheto e depois vou salvar o país. – Quando chega a ocasião, receia, porque se reconhece incompetente. Junte a isto um orgulho formidável.

Mas os monárquicos estão na mesma. Não se entendem. Duma conversa com o Alberto Pinheiro Torres (Agosto de 1915) concluo:

Primeiro, que D. Manuel, mais uma vez, tem recomendado aos seus correligionários que estejam quietos; segundo, que, apesar da lei de separação, o espírito religioso do país (?) não se altera (veja que não há uma revolta!); terceiro, que, efectivamente, o Pimenta de Castro pensava em consultar o país sobre se queria a república ou a monarquia.

– Com um movimento que devia ser regionalista ganhávamos a partida, pela certa, mas o Moreira de Almeida, hoje mal visto pelos monárquicos, e o José de Azevedo, que, em política, é incompetente, sempre da opinião da última pessoa com quem fala ou do último livro que lê, deitaram tudo a perder... O 14 de Maio fê-lo o Dia, fizeram-no os monárquicos, e quando o Pimenta de Castro se viu atrapalhado, não lhe pudemos dar um homem, um só!

Sombras. O Pimenta de Castro foi também uma sombra e mais nada. Depois de ouvir depoimentos deste e daquele sobre o 14 de Maio (Janeiro de 1916) conclui-se que o Pimenta de Castro era muito pouco inteligente e germanófilo, sem dúvida nenhuma. O António José de Almeida conta-me que o foi procurar nas vésperas do 14 de Maio, para lhe dizer o que se projectava.

– Não acredito: deixe-os vir para a rua e verá!... Corro-os!

– Mas olhe que muitos correligionários estão também desagradados e eu ver-me-ei forçado a retirar-lhe o meu apoio.

Era o mesmo. Sorria com superioridade. Contava com o exército. Viu-se. O que se sente de real é a tendência da grande parte do exército contra a guerra no front. Os oficiais querem combater na África – e os democráticos exigem-lhes que vão para a França.

Os soldados dizem (Junho de 1916): – O que não temos é quem nos dirija. – Mas a parte viva de Lisboa e Porto, esta população irrequieta, sempre pronta para todos os sacrifícios, e que, inconscientemente, talvez, concebe uma pátria – essa impõe a guerra na França. Querem-na também os democráticos. Mas os outros, os que antes querem que isto se perca do que se salve com a república? Às escondidas distribuem-se versos, papelada e o boato, que se não sabe donde parte, revolve toda a lama corrosiva. – O que eles querem é salvar a dinastia do Afonso Costa. – Os mandões estão ricos. – Fulano ganha 40 contos por cada carregamento de vapor ex-alemão. – Sicrano já comprou a casa onde vivia.

A lama sobe. De Norton de Matos, que vive com a maior simplicidade, diz-se que tem centenas de contos, e um dia destes um sobrinho de Guerra Junqueiro afirmou a este: – Posso garantir-lhe que António Maria da Silva está riquíssimo. – Isso deve ser mentira. – É absolutamente verdadeiro. – O Junqueiro, para se tirar de dúvidas, procurou um camiseiro célebre do Porto, que lhe disse: – O António Maria da Silva está riquíssimo. Está tão rico que eu, noutro dia, quando fui a casa dele e vi aquele mobiliário e o esplendor em que vive, estive vai-não-vai para perguntar-lhe se queria que lhe emprestasse duzentos mil réis.

O verdadeiro e o falso corre de boca para ouvido neste cenário de fealdade que é a república.

– Fui a Lisboa e descompu-los – diz Junqueiro. – Na Câmara, um deputado chegou-se à minha beira, oferecendo-me a tribuna do corpo diplomático. – Está enganado, já não sou senão um simples lavrador do Douro. – E rematou:

– Que impressão! Quem passava e enchia os corredores da Câmara, a dominar tudo aquilo, era o visconde da Ribeira Brava!

Com a guerra poucos se importam. A grande maioria do país vive alheada. Ao lado da camada indiferente há outra – como hei-de dizê-lo? – que rejubila com o triunfo dos alemães e até com o último desastre em África. São os monárquicos, com algumas excepções. Há-os que, a propósito do bombardeamento do Funchal, exclamam: – Foi uma boa ensinadela; era preciso fazer o mesmo a Lisboa!... E damas talassas rezam pela vitória dos alemães, enchendo as igrejas de Lisboa, à hora da missa, o que não as impede de dizer:

– Ó meu Deus: estamos mortas que venha a monarquia, para acabar com esta maçada de ir à missa aos domingos!



As tropas lá vão embarcando para a guerra, quase em segredo, e com as garantias restabelecidas. Parece que em Santarém alguns oficiais se recusaram a marchar – mas soldados, cabos, sargentos, o major Magalhães e um oficial miliciano, quase todo o regimento – desfilou, enquanto as mulheres do povo atiravam com esterco à cara dos oficiais do 34, que vieram sob prisão para Lisboa, defendidos por uma escolta da guarda republicana. Em conselho de ministros foi proposto que os oficiais comprometidos no movimento Machado Santos e os que se recusaram a partir marchassem para a guerra como simples soldados. O António José de Almeida opôs-se. Mas os boatos não cessam... Que se insubordinou um regimento; que Artilharia 1 já está na Rotunda... Os submarinos alemães meteram no fundo, a 20 milhas do Cabo da Roca, dois vapores e um lugre português. A cidade, quase às escuras, vive na eminência dum saque. As lojas fechadas e tipos suspeitos escoando-se junto às paredes... Ali ao pé da Mouraria uma escadinha com uma luz de petróleo e uma mulher da bata branca, encostada a um poste. Em frente do Coliseu, o Clube dos Patos, com jogatina e mulheres. Toda a noite se joga. Automóveis à porta. Vai-se para lá de casaca. Um amador de estatística afirma que as casas de tavolagem, em Lisboa, são quarenta e quatro.

O ponto de interrogação é este: consegue-se meter a bordo as forças destinadas à Flandres? Um nada e tudo pode cair por terra... Estes dias mais próximos são dramáticos – para republicanos – para monárquicos e até para quem, como eu, sob as aparências, vê o jogo incessante de interesses e paixões, o medo da morte, e a teia emaranhada da vida. Corre que a bordo os oficiais se recusam a partir. Da janela do Ministério das Colónias vejo o rio turvo sob o céu baixo e turvo, e o rebocador onde o António José vai pregar à tropa, a convencê-la. Isto irá descambar em tragédia, em gritos, desespero e apupos?

Um, nos tantos por cento dos leilões alemães, ganhou cem contos. Toda a gente se irrita. Ninguém se importa que os outros percam tudo. Um banqueiro pode roubar-nos à vontade, que a turba aperta o casaco e diz com certa satisfação: – «Que não fosse tolo!» – Mas vê-los enriquecer à nossa vista não se tolera.

Os oficiais que vão para a guerra perguntam: – «Mas ir morrer para quê? para isto?» – E os soldados escreviam nas barracas de Tancos: – «A Verdun não vai nenhum.»

Dizia na nossa mocidade o Barreira, que conheci sempre com a mesma capinha, comprando móveis antigos e escrevendo de dez em dez anos um artigo sobre caixas de rapé, estas fases profundas: – «Vocês verão!... Vocês não querem fazer a república (referia-se à tropa) e mais tarde hão-de querer um assunto para um romance ou um drama e não o hão-de ter.» Acertou. Somente o Barreira é deputado, é da Companhia das Águas, é da Academia de Belas-Artes, é do Curso Superior de Letras – e o drama, e drama que farte, roemo-lo nós...



Memórias III : Vale de Josafat , ed. lit. José Carlos Seabra Pereira, Lisboa: Relógio d'Água, 2000, pp. 77- 82.

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