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DIÁRIO DE GUERRA (1917-1918)

DIÁRIO DE GUERRA (1917-1918)
Data :
29/09/2017

João Pina de Morais (1889-1953) esteve na Flandres entre 1917 e 1918, como comandante  de Sapadores de Infantaria do Corpo Expedicionário Português.



13-4-918

Foi há 4 dias o maior combate – esfacelou-se mais de uma divisão, toda a artilharia. Fiz o meu dever – Alcácer Kibir! Alcácer Kibir! Foram as tuas mãos e as de minha mãe que me salvaram. Obrigado a vida toda a ambas. Tenho ainda os olhos cheios de visões sem nome – ai a batalha! Dia 8 à noite tinha-te escrito – a caneta e o livro sobre a mesa – perdi tudo, as tuas cartas – pobres cartas escritas aos 15 anos no sossego das Quintãs virem queimar-se numa manhã de combate na Flandres! Sector de Neuve-Chapelle, reduto de Riez Baileul! E as violetas da despedida! E o retrato da minha mãe! Tinha-te num livro de papel liso que trouxera de Portugal – podia chamar-se o livro "As alegrias de te ver, e as tristezas de te deixar!". Só te pude escrever hoje – tenho marchado todos os dias e a minha cabeça é um vulcão. Estou perto de Bolonha – o Zé salvou-me, tem dois dedos feridos num dos pés. Pedi-lhe papel – deu-me este caderno, onde costumava dar as ordens precisas, gastei daqui folhas no dia 9, a comandar e a despedir-me. Estou calmo, deve ser a fadiga. Penso em ti. Sou mais teu por me salvares. Vou dormir. Bendita sejas Lídia. Oxalá recebas o meu telegrama. Não sofras por mim.

14
Ordenei hoje a formatura da minha companhia – quero passar os heróis em revista, tu vais comigo. O Zé vai tirar-me a lama ao uniforme, lavar o impermeável do sangue dos feridos que eu pensei, que me incomoda e tu verás como vou bem. Estou muito calmo. Dói-me o peito – não é nada. Amo-te. Juramentos vi-os eu nos teus olhos – meu amor.

Dia 15
Lídia, não imaginas como estão os meus homens – descem-lhes grandes vincos nas faces, o olhar vago, inútil. O sargento chama números que não respondem...

Quantos faltam?

58 Meu tenente. E senti-me enaltecer quando lhes disse " o vosso comandante quer-vos como a irmãos – andou sempre ao vosso lado, e que Deus dê descanso aos que morreram". Comecei a incomodar-me e não sobe continuar. E eles os valentes que conhecem a pólvora, que riram da morte, vieram abraçar-me – pobres rapazes! Conhecem todos o Marão – e aí têm a menina – como ontem tive uma tarde de emoção tão grande que nem a alcanço! Já tinha tido outras formaturas, mas eu nem sequer dava por elas. Chove impiedosamente. Julgo que vou de novo para a frente – custa-me porque segundo ouço é com uma companhia nova, que não conheço. É mesmo, dói-me muito o peito e tenho grandes ataques de tosse. O Zé chegou agora, traz-me uma grande "jape" (compris?) de leite e vai ajudar-me a levantar. Os homens que me faltam ando a vê-los sempre, a recordá-los – meus rapazes.

A quem encontrar este livro... : diário de Guerra, 1917-1918, org. João Luís Sequeira Rodrigues, Lisboa: Âncora, 2015, pp. 71-2

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