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Carta pública ao tenente aragão, prisioneiro de guerra

Carta pública ao tenente aragão, prisioneiro de guerra
Hermano neves
Data :
01/04/2015

Hermano Neves (1884-1929), jornalista e democrata, bateu-se pela vitória dos Aliados, defendendo a entrada de Portugal na Grande Guerra.


Carta publicada no folheto Fora da Lei! de 29 de abril de 1915 (fundado e dirigido por Hermano Neves e Herculano Nunes).

 
Carta publica ao tenente Francisco de Aragão Prisioneiro de Guerra, com 63 militares portugueses, na colonia alemã do Sudoeste Africano

 

Já no Sul de Angola, meu amigo, deixou de tremular a bandeira da nossa pátria. Por via de qualquer misterioso processo que constitue o que pomposamente se chama o segredo das chancelarias, essa região que você durante dias sem fim palmilhou á torreira do sol, que você, ao lado dos seus companheiros d' armas, com unhas e dentes defendeu, que você regou de suor e de sangue, essa boa terra portugueza, meu querido tenente, já não pertence a Portugal. Hão-de ter-lh'o dito por mais de uma vez, no seu exilio de soldado, esses soldados que o levaram. E você ha de por certo ter interrogado muita vez os seus pressentimentos, no apprehensivo anceio de conhecer o que se passa longe, muito longe, muito longe, para lá do mar, no encantado paiz onde se deixa um lar e uma família para se ir sofrer ou morrer a duas mil léguas de distancia.

Aragão: você não sabe, e é tão cruel que o saiba, que quasi mais valera ter ficado n'aquella tragica manhã de Naulila, com o grande sorriso dos heroes e um fio de sangue a escorrer pelo canto do lábio. Você não sabe que ainda antes de terem cicatrizado os ferimentos recebidos em combate, ao passo que já corria de boca em boca a noticia da cilada onde de perto viu a morte e tanto outros dos seus camaradas a encontraram, o governo portuguez saudou, na pessoa do seu representante diplomatico – o Kaiser alemão, que fazia annos.

Não sabe você, prisioneiro de guerra após a lucta em que defendeu a integridade do nosso territorio contra o insulto de uma invasão, que essa invasão não existiu para os esfíngicos detentores do nosso destino politico, que esse insulto não foi um insulto, que esse combate não foi um combate, que os mortos, os feridos, os prisioneiros não são mortos, nem feridos nem prisioneiros d'uma guerra authentica e leal.

Para os dirigentes do nosso paiz, os senhores foram apenas victimas de um simples incidente de fronteira, de qualquer coisa de comparavel a uma rixa vulgar entre carabineiros e guarda-fiscaes. O Aragão e os seus sessenta e tres companheiros de exilio não são prisioneiros de guerra, pela simples razão de que não ha guerra. São – internados. É uma formula que sobresalta menos e não deixa também de corresponder á verdade.

E como não houve combate, como não houve invasão, como não houve insulto, as relações entre Portugal e a Allemanha continuam a ter o caracter de uma situação amigavel. Nós temos tido muito juizo, meu caro tenente. Tanto juizo, que já vae passado o tempo de uma gestação desde que as nações se engalfinharam, e continuamos bem com Deus e com o Diabo, e os nossos representantes passeiam tanto á vontade na Unter-den-Linden e no Prater como no Bois-de-Boulogne e no Hyde-Park.

Esta paz octaviana merece o applauso do bom senso, e você sabe que terrivel coisa é o bom senso da nossa terra. Uma formula commoda, sobretudo quando, em vez dos agrestes espinheiros do caminho e da perspectiva de fomes, sedes e traições, se nos deparam tardes suaves na Rua do Ouro, refeições a horas e a cavaqueira amena dos cafés.

Não, meu amigo, desengane-se. Não tenha nos seus ocios de Windhuk a ilusão de que, ao chegar aqui a noticia do "incidente de Naulila", ao serem publicadas as listas officiaes em que você, se me não engano, foi dado como morto, a multidão se arrojou louca de indignação, a inundar as ruas com o seu tragico desespero... Se suppoz escutar os echos longinquos d'essa onda popular clamando, sublime, o "Delenda Germaniae" vingador, pode ter a certesa de que a sua imaginação interpretou mal os ventos do deserto. O crepitar da fusilaria, o troar dos canhões, as ordens seccas, dadas com os dentes cerrados, em repellões de nervosismo, o ruido das cargas heroicas, o grito dos que tombam, o estertor dos agonisantes, os gemidos dos que pedem agua ou supplicam que os acabem de matar; nada d'isso tambem se ouviu aqui, n'esta terra de paz, onde a suprema preoccupação do homem consiste em viver o melhor possivel á custa do minimo possivel de esforço. Veiu com effeito a notícia de Naulila. Muita gente decerto nem já se lembra d'ella. Eu tenho ideia de que se fallou um pouco d'isso nas redecções e nos centros de cavaco.

Mas o povo? perguntará você. O povo, meu amigo, assemelha-se a um planeta que só reflecte a luz recebida do sol ou das estrellas. O povo não tem iniciativas; é sempre o instrumento dos seus ídolos. Se o não commovem, não se move, mórmente quando as situações se lhe apresentam confusas. Ora é difficil imaginar situação mais nebulosa do que é actualmente a nossa. O povo não percebe: nem o povo, nem ninguem, nem mesmo os que a crearam. Vive-se n'uma espectativa que tem muito da pasmaceira morbida dos cretinos. Espalha-se:

− Mataram-nos tantos soldados em Africa…

O interlocutor sorri alarvemente e diz – apenas para dizer alguma coisa:

− Ah! Sim?…

− Os allemães occuparam o nosso Sul d'Angola!

− O Sul d'Angola? É boa!…

E não se passa d'isto.

Depois, há outro factor que apenas cito para memoria, e cuja alusão não desenvolvo pela simples razão de que você, tenente Aragão, o não comprehenderá nunca. É o medo. Recuso-me formalmente a admitir que você perceba isto. Apenas lhe direi que existem pessoas a quem, desde o início da guerra europeia, só reconheci um acto corajoso: o de provarem a cada passo que não teem coragem. Para lhe explicar o que isto é, vêr-me-hia obrigado a vencer as dificuldades de um perceptor que tivesse de ensinar a uma creança de três anos a teoria de Fresnell ou a Critica da Razão Pura…

O medo de uns, a confusão estabelecida por outros, a incompetencia, a inconsciência, as "habilidades", as paixões de politica partidária que sobrelevam os proprios interesses vitaes da nação, todo este lamentável cortejo de razões contribuiu para collocar Portugal na situação mais indefinível da sua vida historica. Somos um paiz que não é neutral, nem belligerante, que não se encontra em estado de guerra e soffre todas as consequencias d'ella, que cumprimenta o Kaiser, e se bate com os seus soldados, que perde os seus soldados e que admira a Allemanha, que detesta a Allemanha mas não quer ajudar a Inglaterra, que manda armas para Inglaterra e libras para Berlim; amigos, inimigos, indifferentes – somos emfim tudo e não somos coisa nenhuma. Vamos, no meio d'esta barafunda, vêr se se apura qualquer coisa de positivo e exponhamol-o methodicamente, para que fique elucidado.

Ha, n'esta Republica, monarchicos e republicanos. Ha até monarchicos que parecem  republicanos e republicanos que são tal e qual monarchicos. N'uma hora grave, talvez decisiva para a existencia da nacionalidade, não se reconheceu o momento opportuno para uma tregua. Está-se jogando a sorte das nações. Entre nós discutem-se qualidades de regimen. Que pensam os republicanos em relação á Allemanha? Detestam-n'a. Que pensam os monarchicos? Uns detestam-n'a, outros admiram-n'a, outros ainda desejam sinceramente que ella saia victoriosa da actual conflagração, talvez por estarem convencidos de que, por essa forma, teríam a monarchia restaurada sem o minimo esforço. A maior parte deseja a victoria da Allemanha, simplesmente porque os republicanos anceiam pela sua derrota. Uns e outros, para formularem uma opinião, averiguam primeiro qual a opinião do seu adversario e collocam-se sem mais investigações no polo oposto.

Desde o principio da conflagração europeia que se discute entre nós qual a melhor forma de honrar os compromissos que nos impõe a velha aliança com a Grã Bretanha. Queriam uns que se mandassem homens, outros, que auxiliassemos com a remessa de material de guerra os exercitos alliados, outros ainda que fizessemos tão sómente o que a Inglaterra nos pedisse, e apenas isso. A muitos espiritos da nossa terra que se jactam de pertencer a uma "élite", não repugnou a ideia de uma vassalagem infinitamente mais vexatoria que a de um protectorado da Hottentocia. A Inglaterra pediria, attendendo aos nossos limitados recursos, aquillo que lhe pudessemos dar.

Um dia, a Inglaterra pediu. Camaradas seus partem para Londres, avistam-se com Lorde Kitchener, escutam a opinião de French, lançam-se as bases de uma convenção militar destinada a regular a participação da divisão portugueza na guerra da Flandres, e um d'elles, á volta, tem esta phrase significativa:

− Se depois do que está combinado não mandassemos gente a combater nos campos da Europa, corremos o risco de desaparecer como nação livre…

Não mandámos ninguem. Porquê? A divisão chegou a estar organisada no papel. Tinham-se combinado com o Estado Maior inglez os minimos detalhes: a alimentação dos soldados, o numero de viaturas, a questão das munições. No seu palacete da rua do Seculo, Sua Ex.ª o ministro da Allemanha sorria, ao ter conhecimento das reformas constantes de officiaes do nosso exercito que a saude impedia de partir na divisão portugueza… Ao ministro da Guerra eram diariamente entregues cartas protestando contra a participação de Portugal. Até a esposa de um camarada seu, meu caro tenente, dirigiu ao general Pereira d'Eça uma longa exposição escripta em estilo de regulamento de campanha, pedindo que não chamassem o marido, porque é pai de sete filhos!

Depois, interveiu a politica. Bradavam-se fulminantes accusações contra os governos. A Inglaterra, não contente com o fornecimento que lhe tinhamos feito de espingardas, canhões e cartuchos, pedira tambem homens? Isso não fora mais do que a consequencia das instantes offertas que lhe tinham feito os nossos estadistas. Quem os autorisára a dispôr assim do nosso sangue e do nosso dinheiro? Como tinham elles o topete de lançar com animo leve milhares de portuguezes para o "matadouro"? Pouco faltou para que os não apodassem de traidores.

Meu querido Aragão: a divisão portugueza não foi, e já agora não irá. Houve um camarada e amigo seu, enojado, que desertou, para ir sósinho, a Inglaterra, resgatar o nosso compromisso. A nossa divisão não irá mais, não iria mesmo que, "una voce", os seis milhões de portuguezes concordassem na participação do nosso paiz ao lado dos alliados no conflicto europeu. Quando em Londres se falla por acaso na possivel intervenção de Portugal, os inglezes sorriem. Em França, respondem: "bah! c'est de la bague", e mudam de conversa.

No immenso laboratorio da campanha prepara-se um novo destino politico do mundo. Tenho a impressão de que a Allemanha não será aniquilada, como o não será um só dos seus adversarios. A guerra ha de terminar este anno, por uma combinação diplomatica, em que a França retomará a posse da Alsacia e da Lorena; a Belgica, esse povo formidavel e heroico, será restabelecida com as devidas compensações no seu papel historico e politico; a Servia e o Montenegro reclamarão, como de justiça, o premio das nações corajosas. Só a Austria e a Turquía sahirão da contenda com irreparaveis amputações. E o destino da nossa terra?…

O sul de Angola já não é nosso, meu amigo. Missionarios e agentes allemães manteem no espirito do gentio o desprestigio do nosso poder. Creia que poucos, muito poucos, aqui, se incommodam com isso. Mas d'esses poucos nenhum, como eu, deixará de pensar em meio de todas as nossas miserias de caracter, das nossas indecisões, das nossas covardias, que houve alguem – você e os seus companheiros d'armas – que na hora suprema salvou a honra do convento. É com o seu exemplo, meu bravo tenente, que devemos educar uma geração que desponta afim de que os nossos filhos façam de Portugal, mais tarde, aquillo que nós hoje não pudemos ou não soubemos fazer. É a historia do seu arrojo que é preciso que recitem de cór as creanças das escolas. São os prisioneiros de guerra de Naulila, hoje nossos remorsos e testemunho vivo da nossa vergonha que hão de constituir a base moral da rehabilitação futura d'este paiz.

Hermano Neves

 Fora da Lei!, nº. 1, 29 de abril, 1915

 

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