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quarta-feira, 21-02-2018
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Barra fora

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Data :
08/11/2016

​Excerto do livro do capitão Menezes Ferreira (1889-1936), João Ninguém, soldado da Grande Guerra (1921) reeditado em 2014 pela Bertrand.


BARRA FORA

O "Boche" era, naqueles atribulados tempos da Grande Guerra, um homem muito feio da barbas erriçadas e de grandes óculos para fingir de sábio.

Um belo dia, esse feroz tarimbeirão dos tempos de Frederico, inventor de um sistema de Kultur para uso próprio, teve a prosápia de supor que o velho mundo civilizado se lhe lançaria logo aos pés implorando esse novo sistema de civilização, mas bem depressa contrariado nos seus propósitos de tirano vá de se lançar no caminho das maiores violências e não houve então recanto da Europa onde não deixasse, sangrando, as traças da sua requintada ferocidade.

Foi assim que, amarfanhando tratados e convenções, eles aí vieram de roldão pela Europa fora, martirizando a Sérvia e a Bélgica, talando sem cerimónias o território da França, tendo desde logo mobilizado um "Gott mit Uns" sanguinário e mau, em cuja homenagem imolaram os civis indefesos, aos trágicos clarões das catedrais incendiadas.

Pela segunda vez assistiu-se então a uma verdadeira invasão de "Fritz", bárbaros do século XX, saqueando aldeias e arrasando cidades em passo de parada.

As "pequeninas" nações – a arraia-miúda da sociedade internacional –, pressentindo a sua independência ameaçada, não hesitaram em oferecer os seus serviços a "Mariana", a gloriosa República Francesa, agora toda derretida com John Bull, esse conspícuo cavalheiro açambarcador dos mares, todo ancho dos seus incomparáveis dreadnoughts.

E temos de confessar que, congregados desde logo os seus esforços, firmemente unidos na terra e no mar, fácil se lhes tornou o jugular a fera, sobretudo desde que a França teve a sorte de encontrar o seu homem naquele excelente "Vieux-Papa Joffre", o taciturno general que a baldes de água do Marne esfriara para sempre os entusiasmos do Boche, reduzindo a uma cruel desilusão o "nach Paris" das tropas de Von Kluck...

Pétain, Foch, Castelnau, lorde Kitchner, French e tantos outros nomes que ficarão gravados eternamente em letras de oiro nos nossos corações, foram os principais obreiros das vantagens obtidas nos primeiros dois anos de guerra, destacando-se Pétain, cujo nome jamais se poderá desligar da defesa de Verdun, sob cujos muros o Kron-Prinz deveria abater mais tarde as suas prosápias de tudesco.


*
 
No extremo sul da Europa, num país em que as "coisas" do estrangeiro chegam com um atraso de muitos anos, vive um matusalém de grandes barbas brancas, antigo Descobridor dos Mundos reformado, com o seu neto, um jovem que passa os seus dias a dormir beatificamente, fazendo de travesseiro um grosso volume de versos que falam das suas antigas epopeias e o impuseram à consideração dos povos.
O "Barbaças", que nunca larga a sua farda de marinheiro, chama-se Portugal e o neto, que Bordalo Pinheiro com tanta felicidade retratou em todos os seus aspectos de Zé Povinho, agora, na sua farda cinzenta de galucho mobilizado, chama-se João Ninguém, modesto combatente da África e da França que, como uma sombra, há-de passar mais tarde por entre os seus decantados irmãos de armas, os Tommies e os Poilus.

De facto, um belo dia, o velho Portugal, maltratado nas suas colónias africanas, tendo-lhe dito o seu antigo aliado John Bull um "segredinho" acerca dos navios alemães ancorados no Tejo, num daqueles generosos impulsos que tantas vezes o tem levado às culminâncias da glória e outras tantas aos baixios das desilusões, resolve acordar o neto, reclamando para ele um grande lugar de nação civilizada nos parapeitos da Flandres, onde, há bastos séculos, já se afirmara bom soldado e bom namorador.

Na terra de João Ninguém, todos falam e ninguém tem razão. Sem contar com as falas dos inúmeros "velhos do Restelo" dos tempos que vão correndo, estabelece-se por largo tempo uma certa confusão nos espíritos, habilmente explorada pelo inimigo e – ai de nós! – servindo optimamente os interesses da baixa política e dos que desejavam, acima de tudo, a vitória dos Boches.

Mas não importa. Das oito províncias de Portugal, João Ninguém acorre serenamente ao toque de reunir dos seus batalhões, pois que, brioso como é, a sua honra de soldado impele-o a vingar, de qualquer forma, os desastres de Naulila e Cuangar.

Contudo, não podemos afirmar que todos tivessem marchado para os seus quartéis como quem vai para um arraial.

João Ninguém é analfabeto e foi sempre ingénuo e bom. É por isso mesmo que, atarantado pela especulação política de todos os matizes, leva no fundo da sua alma certas apreensões acerca do futuro.

Depois de ter suportado as soalheiras de "Paulona", esse inolvidável acampamento de Tancos, besuntado ligeiramente de um treino guerreiro muito rudimentar – ora vai hoje, ora vai amanhã –, lá foi chamado enfim para o embarque, naquele áspero Inverno de 1917!

Quantas hesitações, quanto comodismo, quantas contrariedades a vencer! E o pior de tudo é que os compromissos tinham sido tomados em nome da nação.
Mas João Ninguém assim o compreende e é por isso mesmo o único que se salva, embarcando, apesar de tudo, nos grandes transportes emprestados por John Bull...

E deste modo, num feio dia de Janeiro, quase em segredo, partiram barra fora, de sacos de ramagem ao ombro e guitarra sob o braço, os pequenos soldadinhos portugueses, fardados da cor da bruma e nela levando já embrulhada a sua alma dorida de saudades.

Barra fora... barra fora... ... ... .

Quatro longos dias de alto-mar, alterado e bravio!... Quatro longos dias de 
corned beef!... Quatro longas noites de ansiedade!... Depois... Terras de França! Enfim...


João Ninguém, soldado da Grande Guerra, notas e enquadramento histórico de David Castaño, Lisboa: Bertrand, 2014

 

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