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terça-feira, 25-07-2017
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Ao soldado desconhecido

Ao soldado desconhecido
Data :
07/07/2017

​Poema de Afonso Lopes Vieira (1878-1946), publicado em 1921. As receitas da venda destinavam-se a "um órfão da Guerra".


O folheto foi apreendido pelo Governo, e o poeta detido por algumas horas para interrogatório, por ter sido considerado ofensivo para o exército português.  


Ao soldado desconhecido : (Morto em França)


Sem discursos, sem frases,
sem alexandrinos,
porque a Piedade que nos fazes
deshonrá-la-hiam os hinos,
vem, oh Soldado Português da Guerra, 
dormir emfim na tua terra 
de Portugal,
e que a voz dela te embale
numa caricia enorme:
– Dorme, meu menino, dorme...

Sem discursos, sem frases,
ah! mas com quanto pranto
interior,
porque a Piedade que nos fazes
nos alanceia de Amor,
vem, oh Soldado Português da Guerra,
dormir emfim na tua terra,
e que a tua presença
espectral, 
a tua imensa 
presença acusadora e aterradora
para quem te exportou como um animal,
se estenda sobre o céu de Portugal!
E que essa voz te embale
numa caricia enorme:
– Dorme, meu menino, dorme...

Receba-te sómente
um silencio tão fundo, 
que pareça que religiosamente
a vida parou no mundo:
e que neste silencio vão tombando
para a face da terra
as lagrimas que forem borbulhando
por ti – a maior victima da Guerra!
Que apenas se ouça então, 
como o ritmo do nosso coração,
essa voz maternal
que te embale
numa caricia enorme:
– Dorme, meu menino, dorme...

Dorme, pois, entre nós, querido irmãozinho,
victima e heroe,
cujo destino foi
o mais sublime e o mais mesquinho.
Dorme e repousa, que vens tão cansado,
e a voz materna embala-te cantando...
– Mas um dia serás de subito acordado,
e a tua sombra, erguida e batalhando,
ha de então comandar!... Tu, humilde Soldado 
que tens por nome – Portugal sacrificado.
Entanto, vai repousando,
sofreste tanto na Guerra!
– Dorme emfim na tua terra, 
e que a voz maternal
te embale
numa caricia enorme:
– Dorme, meu menino, dorme... 

Março de 1921 


Ao soldado desconhecido : (Morto em França), Lisboa: Imp. de Libânio da Silva, 1921

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