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AS TEMPESTADES DA GUERRA

AS TEMPESTADES DA GUERRA
Data :
09/03/2017

A. L. de Almada Negreiros (1868 - 1939) foi correspondente de guerra na frente francesa, durante a 1.ª Grande Guerra. Algumas das crónicas que publicou seriam reunidas no seu livro Portugal na Grande Guerra (Paris, 1917). 


Foi correspondente de alguns jornais portugueses (como O Século), da agência americana United Press, da agência inglesa Exchange Telegraph entre outros órgãos de comunicação.

 

As Tempestades da Guerra

Hino ao sol

por António Lobo de Almada Negreiros

 

O meu passeio habitual pelas nossas trincheiras e pelos terrenos ermos, sem atalaias, que as rodeiam, permitiu-me hoje um olhar retrospètivo de confirmação sobre o panorama desolador que as enquadra. O céu, toldado de nuvens negras, oculta, na neblina da tarde outonal, os Fockers atrevidos, castores da guerra, a que se não póde dar caça. Nos atoleiros das trincheiras, os nossos homens esperam a morte, heroicamente resignados. O solo calcinado do campo de batalha uiva de dôr, como um ser vivo, cada vez que nas sébes resequidas cae mais uma bomba destruidora. Os fogaréos dos morteiros, os fogachos fulvos dos «obuzes», dão cadencias de horror aos escalões lugubres e soturnos das fortalezas invisiveis. Chove e troveja.

O relampejar da artilharia confunde-se com o da eletricidade aérea. Céu e terra praguejam e despedem faiscas de morte. O ladrido das peças parece desafiar o rugido prolongado das nuvens que se chocam.

No paúl glorioso, cuja guarda lhe incumbe, o «serrano» espreita e aguarda, sem receio…

O terreno é constantemente varrido pelas rajadas de metralha.

Pesquisa-se um átomo de vida, no leito de lama das tumbas terrestres.

A pirotécnia da morte exibe-se d'alto a baixo, á disputa. O solo calcinado compraz-se a beber a chuva do céu inclemente. Os giestaes triunfantes do fim do «ano terrivel», abatem-se desenraizados, pelos aquilões da guerra e do firmamento.

E o soldado não baqueia…

Marte e Jupiter uniram-se contra ele. Ele resiste. Jazem por terra, pulverisados, os monumentos do engenho humano – cidades e aldeias, castelos e ermidas. – O homem está de pé, desafiando os elementos misteriosos e a sua propria ira. É o belo horrivel, de Shakspeare.

Cae o raio do céu sobre as pilhas de munições? Pouco importa.

− Antes esse que o… outro…

O homem-lobo entredevora-se. O homem-fera chasqueia da furia celestial, bem inferior á da sua sciencia d'extreminio. A tempestade do céu dissipa-se. A da terra… continua…

 

O sol – que é o olho ciclopico do infinito – vem espreitar, vitorioso, o que se passa no pequenino planeta em «débacle». Os canhões estrugidores estão agora senhores do campo. O guerreiro ama o sol, porque o astro-rei é o deus das batalhas. O sol tem assistido ao desmoronamento do mundo cosmografico. Ele ilumina ainda a convulsão espasmódica d'um mundo microscopico que se… suicida.

− Bem dito seja o Sol – diz o autor dos combates. Nem uma nuvem tolda agora o céu, para o qual os crentes elevavam outr'ora os braços suplicantes e para o qual hoje em dia o fogo trucidante das batalhas espadana imprecações de raiva.

− «Bem dito seja o Sol!» – dizem os heroes da morte. O homem, todo poderoso, caminha para o Sol, nos aviões devastadores. Toda a arte, toda a sciencia da Vida, se fundiram em instrumentos de morte. O sol ilumina, a sorrir, o estertor convulsivo da humanidade que creou.

…………………………………………………………………………………………………

− Porque o sol das batalhas quer, talvez, fazer surgir da humanidade que enlouqueceu um novo homo-sapiens, capaz de labutar e de amar o proximo, esperando a morte, sem a acelerar, estupidamente, na sua marcha regular e intravavel.

O sol polvilha d'oiro o sepulcro da terra. O sol rejubila, em fulgurações fecundantes.

− Bem dito seja o Sol…

 

Almada Negreiros

 

Ilustração Portuguesa, nº 608, 15 Out. 1917, pp. 301-2

 

 

 

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