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A Revolta

A Revolta
Joaquim Ribeiro de carvalho
Data :
02/02/2015
Conto publicado por Joaquim Ribeiro de Carvalho (1880-1942) no livro Maldita seja a guerra (Lisboa: 1925).

 
A Revolta



A chegar á floresta, onde os obuzes inimigos começavam a abrir clareiras, o regimento estacou – sem uma ordem, sem uma voz de commando, sem uma indicação qualquer. Dir-se-ia que o mesmo impulso fizéra parar todos esses homens, n'aquella marcha forçada para a primeira linha de fogo.

Mudos, taciturnos, o olhar mortiço e duro, agruparam-se instictivamente, como se os absorvesse, irresistivel e dominadora, uma unica vontade:

Não ir mais alem.

Nem uma palavra, nem um grito, nem um gesto mais ostensivo de revolta. E perante aquelle silencio, obstinado e tôrvo, os officiaes tiveram alguns momentos de indecisão. Seria a resistencia passiva? Seria a recusa, pura e simples, a seguir para a frente?

Ou a rebelião, clara, terminante, decisiva, contra a guerra?

O capitão Rochenard, mais impulsivo, mais francez, mais panache emfim, quiz acabar com aquella situação, absolutamente desairosa para o commando:

– Então, continuâmos a marcha como soldados francezes que somos? Ou ficâmos, aqui, a meditar e a tremer como mulheres?

Estava quebrado o encanto. Da turba, até alli silenciosa, ergueu-se um rouco sussurro de protesto.

E um operario marselhez, syndicalista e libertario, deu um passo em frente, n'uma attitude provocadora e audaciosa:

– Continuâmos a marcha, se quizermos. Somos homens livres.

– Deante do inimigo, só ha uma liberdade: a liberdade de... obedecer. Vamos! Em marcha! – gritava o capitão Rochenard.

Mas como a metralha continuava a cahir, a toda a largura da floresta, insistente, implacavel, destruidora, barrando-lhes a passagem, esta ordem desencadeou, mais viva a resistencia.

– Não somos nenhuma leva de grilhetas!

– Nem um rebanho de escravos!

– Nem simples carne para canhão!

O marselhez, mais irrequieto, mais insubmisso, com os seus pruridos de homem consciente e livre, organizava a rebelião. Agora, voltado para os camaradas, incitava-os abertamente á deserção em massa:

– Abaixo a guerra!

– Basta de matança!

Mas o capitão Rochenard, homem de ordem e disciplina, chauvisnista impenitente, abateu-o com uma bala certeira.

– Quem recuar... morre!

E n'um movimento de asco irreprimivel:

– Canalhas! Cobardes!

Na soldadesca, houve um instante de terror. O corpo do marselhez, contorcendo-se na agonia, os labios branqueados de espuma, produziu um arripio lugubre de frio.

Mas, logo a seguir, trinta, quarenta, cincoenta espingardas, alvejaram o capitão Rochenard.

– Vá! Não hesitem, que matam um francez!

E uma descarga cerrada, brutal, angustiante, cortou os ares.

Cahiram por terra três officiaes: á frente o capitão Rochenard, primeira victima, alli, d'aquillo a que se convencionou chamar o dever patriotico.

– Abaixo a guerra!

– Abaixo a tyrannia!

E a soldadêsca, desvairada, ululante, sinistra, cevou nos restantes officiaes todo esse desvairamento – mixto de raiva e de cobardia, de rebelião sangrenta e de horror ás responsabilidades d'aquella chacina feroz.

Um d'esses officiaes, ao morrer, ainda teve fôrças para gritar:

– Viva a Patria!

Mas da avalanche dos amotinados alguem ululou logo:

– A Patria... Mas foi a Patria, de facto, que nos atirou para esta sangueira sem nome? Ou andâmos aqui, todos nós, a morrer na defêsa dos interesses de alguns aventureiros sem Patria?

Era este o rastilho de revolta que incendiava as almas. Esta a propaganda dissolvente – assim a classificavam os homens de Ordem – que transformára em feras insubmissas todos esses autómatos de carna brutalizada por seculos de escravidão e de obediencia passiva.


*
* * *

O fôgo de barragem continuava a arrazar, ininterrupto e devastador, a velha floresta rumorejante e sagrada. Cahiam por terra, rasgados e dilacerados, carvalhos seculares, sob cujos ramos talvez tivessem entoado os seus canticos ao sol os druidas da velha Gállia legendária...

Pinheiros silenciosos e tristes, monges solitarios na eterna contemplação do céo, tombavam sem protesto, vagarosos, indifferentes, resignados, amortecendo o ruido da queda no emmaranhado tapete das trepadeiras sempre verdes... E alli ficavam, felizes daquelle descanço para sempre e como que sorrindo ainda á imbecilidade inclassificavel da humana avalanche exterminadora:

– Estupida humanidade, que te não importas de destruir, num rapido momento, aquillo que levaste seculos e seculos a crear!

Mas, triumphante a revolta, trucidados aquelles que podiam impôr á turbamulta desvairada a Ordem e a Disciplina – que fazer?

Em frente, a floresta em fôgo, cortada de barrancos, semeada de metralha, povoada de perigos desconhecidos. Para traz, a ameaça dos códigos militares, inflexiveis no castigo, implacaveis na repressão, cegos na aplicação rigida e fria d'aquillo a que alguns amotinados chamavam, depreciativamente, a justiça burgueza e capitalista.

Um soldado imberbe, joven syndicalista tambem, audacioso e temerario, quiz levantar o moral d'aquelle pobre rebanho de homens insubordinados:

– Camaradas: as fôrças que nos vierem atacar, hão de fazer causa commum comnosco! Esses soldados são homens livres como nós somos.

E, de facto, na vasta campina encharcada e nevoenta, avançava uma larga sombra movediça. Outra avalanche de homens empurrando filas interminaveis de metralhadoras, empunhando carabinas, avançando friamente e resolutamente em direcção ao regimento sublevado.

– São homens livres como nós! – repetia o joven syndicalista, na furia do seu ingenuo fanatismo libertario. – Hão de fazer causa commum comnosco!



*
* * *

Mas aos gritos estridentes dos sublevados, respondia, por parte da columna em avanço, um frio silencio de morte. O ruido d'essa caminhada através da campina lamacenta semelhava-se muito a uma agoirenta e luctuosa marcha funebre.

– Atirêmos fóra as armas! Dêmos vivas á liberdade e á fraternidade humana!

E a columna de ataque, quando se tornaram claros e intelligiveis esses gritos de revolta, que podiam realmente estabelecer o contágio, fez alto. Uma voz de commando bradou:

– Fogo!

Crepitavam de um lado, incessantes e indifferentes, as metralhadoras. De outro lado cahiam homens, golfando imprecações, rangendo os dentes n'um terror mal contido, fugindo como lebres que uma extranha montearia fosse abatendo a pouco e pouco...

Os homens livres, que chegavam, encolletados n'uma farda, crismados com um numero, abatiam, indifferentemente, friamente, automaticamente, os homens livres d'esse regimento revoltado.



*
* * *


Homens livres? Homens conscientes?

Quando a columna de ataque, defensora do direito, da justiça e da liberdade – porque todas as guerras modernas procuram apenas, commovedoramente, a liberdade dos povos – acabou de exterminar o ultimo sublevado, o commandante avançou para um montão de cadáveres, onde o joven syndicalista, com as garras da morte já a apertar-lhe as guelas, ainda regougava a sua extranha: o seu direito a viver.

– O seu direito a viver...

E esse homem, que pronunciára a ordem de fogo, e que tão facilmente vencêra essa diminuta horda de vencidos, ouviu que lhe segredava a consciencia:

– Afinal, quem terá razão? Estes que morreram? Ou nós que os matámos?

Atraz, os homens livres da columna vencedora vociferavam agora:

– Viva a Patria!

– Viva a Patria!

Mas a verdade é que os mortos execrados, que alli ficavam, expostos á voracidade irreverente dos corvos e dos abutres, tinham nascido tambem na mesma Patria heroica e generosa, que desinteressadamente se batia pela justiça, pelo direito e pela liberdade...


Maldita seja a guerra, Lisboa: Lumen, 1925, pp. 55-61

 

Ver mais «Autores e a Guerra» em  É a guerra; Naulila 19141914!, Portugal e a Guerra e a Orientação das Novas Gerações, Durante a Guerra -  Dezembro de 1914 e O Monstro quer Sangue.