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A guerra actual é uma guerra entre dois princípios sociológicos

A guerra actual é uma guerra entre dois princípios sociológicos
Data :
01/10/2015

​Texto de Fernando Pessoa publicado em Ultimatum e Páginas de Sociologia Política (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão), Lisboa: Ática, 1980.


A guerra actual é uma guerra entre dois princípios sociológicos, entre dois critérios de civilização. Vendo bem, aprofundando este confuso embate de raças, povos e nações, encontra-se, em última busca, dois princípios em conflito. Um desses princípios é representado pela Alemanha; o outro é representado, numa das suas formas, pela França, na outra das suas formas pela Inglaterra, e a Rússia, terceira força aliada a estas (porque as pequenas nações em guerra não representam, nenhuma delas, um critério civilizacional distinto) opõe-se, por outro detalhe, à doutrina social representada pela Alemanha. A Itália e a Áustria, é claro, não significam coisa nenhuma.

O princípio representado pela Alemanha resume-se em poucas palavras. É este: A Pátria está acima da Civilização. Isto é, uma Pátria, uma nacionalidade, deve, para os seus elementos componentes, valer mais que o movimento civilizacional geral a que ela pertence e em que se integra. É claro que um país em que se sustente, acima de todas, esta teoria da civilização deve mostrar característicos especiais. Como a civilização se manifesta através do Indivíduo e pelos seus efeitos sobre indivíduos; como se manifesta através do Indivíduo no sentido de se manifestar em homens de génio, em inventores, em sábios, criadores de elementos civilizacionais; como se manifesta em favor do indivíduo, criando-lhe facilidades, comodidades, complexidades de vida — um estado que ponha a Pátria acima da civilização deve, ipso facto, colocar o Estado acima do Indivíduo, deve, em tudo quanto possa ser, subordinar o indivíduo ao Estado. Assim , sem que possa contestar-se, faz a Alemanha.

É evidente, em seguida, que um critério desta ordem deve ser nitidamente militarista. A própria contraposição da ideia de Pátria à de Civilização leva a uma contraposição da ideia da Pátria à das outras nações, visto que a Civilização — para quem não pode pensar abstractamente, como os estadistas — se manifesta ostensivamente nas outras nações.

Toda a criatura que hoje luta com a Alemanha deve saber que está lutando pelos princípios seguintes:

1. A Civilização está acima da Pátria.

2. O Indivíduo vale mais que o Estado.

3. A Cultura vale mais que a Disciplina.

Pelo mero facto de fazer guerra, a Alemanha ganhou uma vitória moral. O facto da guerra chamou o patriotismo em todas as nações. Bastou isso para a Alemanha ter a sua vitória moral.

Não estará a verdade na união os dois critérios, na fusão das duas ideias civilizacionais? O facto é que nem a Pátria está acima da civilização nem a civilização acima da Pátria. Uma coisa depende da outra, é pela criação de pátrias fortes e grandes que uma civilização grande se cria. Do mesmo modo é pela criação de indivíduos fortes que um estado forte se cria, e pela criação de uma forte cultura que uma forte disciplina se estabelece.

Mas se o homem, do fundo da sua humanidade, se pode horrorizar com as crueldades praticadas pelos alemães na Bélgica — e triste será o coração humano que com elas se não confranja —, o sociólogo, o estudioso calmo dos factos sociais, erguido pela ciência acima do coração, deve reconhecer que essas crueldades (admitindo-as todas sem crítica) são, em parte, as crueldades inerentes ao estado de guerra e ao impulso da invasão, em parte efeitos do desespero de uma nação que se sente arriscada a perder uma guerra se não age rapidamente e confrangentemente (qual a Alemanha, entalada já entre a ofensiva russa e a francesa, e com o perigo inglês às portas, pelo menos como possibilidade), e, em parte, a uma realização das doutrinas do estado-maior alemão, doutrinas essas que serão bárbaras, que serão cruéis (e com efeito, e inegavelmente o são), mas que merecem a consideração atenta que o sociólogo deve a toda a doutrina de acção social que assenta em bases de experiência e de espírito prático.

Isto parecerá porventura frio, duro, cruel, um raciocinar sem humanidade nem compaixão; mas o facto é que onde a ciência começa, o sentimento acaba, e, ou havemos de encarar este problema com a dura frieza da investigação científica, ou, abjectamente, nos havemos de deixar cair na inferioridade intelectual da compaixão e dos instintos humanitários normais.

Os argumentos que valem para demonstrar o quanto o sociólogo cauto se deve precaver contra os impulsos normais da compaixão no caso das crueldades alemãs, servem também para pô-lo de sobreaviso quando se considere o caso do ataque à Bélgica como a um pequeno estado.

Considera-se que a Alemanha, ao atacar a Bélgica, atacou o princípio das pequenas nacionalidades. É falso. Atacou uma pequena pseudonacionalidade. A Bélgica, para o sociólogo, não tem direito a existir. Não o tem, como o não tem a Áustria, por exemplo. Nenhuma destas nações é um povo, nenhuma tem a unidade social que o sociólogo reconhece necessária para utilmente tomar parte na civilização.

O sociólogo não pode portanto, lamentar a Bélgica neste ponto, por isso que o sociólogo não pode admitir a existência da Bélgica como país, porque ela não é um povo.

Se tudo quanto há de fundamental na fórmula civilizacional típica da Ibéria é antagónico aos princípios civilizacionais postos em prática instintiva pelos dois países propriamente latinos, como é que um sociólogo poderá dizer que a Ibéria é composta de povos latinos? Se esses princípios civilizacionais característicos da Ibéria mais se parecem com aqueles que a Alemanha representa, como é que se poderá, com razão sociológica, invocar a “latinidade” da Ibéria como impulso que a deva levar a combater a Alemanha? Esse impulso instintivo antes a levaria a apoiá-la.

Compenetremo-nos bem, nós todos, Espanhóis e Portugueses, de que acima das nossas pátrias, que queremos distintas e independentes, há a Ibéria, a formação de uma fórmula ibérica de civilização a impor à Europa, gasta já dos princípios emanados da França, da Itália, das gentes anglo-escandinavas e das próprias gentes civilizacionalmente germânicas.

Não é possível uma futura civilização espanhola, nem uma futura civilização portuguesa. O que é possível é duma futura civilização ibérica, formada pelos esforços da Espanha e de Portugal

Todas as forças que se oponham a uma aliança, a um entendimento entre Portugal e Espanha devem ser desde já condenadas como inimigas. Essas forças são: os conservadores, sobretudo os católicos, e a Igreja Católica acima de tudo, que tem por ânsia íntima a união ibérica; a maçonaria, que é também estrangeira de origem e é agora um organismo estranho metido na carne da Ibéria; a França, que, com a sua cultura especial, tem envenenado, por excesso, a alma, ou as almas, da Ibéria. A Inglaterra, que politicamente tem espezinhado os países ibéricos.

Olhemos bem para estes inimigos. Mas há quem tenha a coragem de os combater? Duvido. Duvido da alma ibérica bem formada capaz de compreender que é preciso combater ao mesmo tempo o catolicismo e a maçonaria, tão vergadas ao peso de antigas escravaturas as almas ibéricas se encontram.

Para a criação da civilização Ibérica é preciso a rigorosa independência das nações componentes dessa civilização. É um erro crasso supor que a fusão imperialista facilita a actividade civilizacional. Antes a entrava. Veja-se como se abaixou o nível intelectual da Alemanha depois da fundação do Império.

s.d.

Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980.

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