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A NAU CATRINETA

A NAU CATRINETA
Data :
01/09/2015

​Excerto de Tropa d' África, de Carlos Selvagem (1890-1973), onde relata a 3ª expedição ao Niassa, em 1916, em que participou como oficial de cavalaria.


 
 
A NAU CATRINETA
 
«Porêm, já cinco Sóis eram passados
Que dali nos partíramos, cortando
Os mares nunca doutrem navegados
Prósperamente os ventos assoprando
.........................................................
.........................................................
 
...E quem pudéra respirar o sôpro imortal de heroísmo e de epopêa que atravessa êstes versos de bronze! Quem pudéra – aqui dentro desta nave de seis mil toneladas, com leme eléctrico, todas as bússolas, sorvetes de morango, ventoinhas, um piano «Gaveau», – pulsar com coração igual ao dos ingénuos expedicionários de antanho, que, sem espingardas automáticas, sem canhões de tiro rápido, sem camiões-automóveis, sem cartas nem laboriosos partos de Estado-Maior, avassalaram toda a face da Terra numa das maiores epopêas dos Séculos!...

Vamos navegando, sob a bênção do Céu cristão ou dos Deuses do Olimpo, com mar calmo, vento fresco de noroeste, vários bridges pacatos em redór das mesas do bar.

Passámos a zona perigosa, sem ameaça de maus encontros.

Nossa Senhora dos Navegantes parece ter atendido a nossa préce. Todas as graças lhe sejam rendidas.

E, agora à noite, com os concêrtos da fanfárra às quintas e domingos, com os fócos eléctricos que inundam de luz todo o navio, lá se foi aquele estranho encanto da sombra e do silêncio que faziam da nave escura, ao tombar do crepúsculo, uma visão de pezadêlo, grande e trágica, de «Navio-Fantasma»...

Não mais lugar para as saúdades, nem para os longos olhares de nostalgia sôbre a esteira de espumas que vamos deixando atrás!...

Agora, todo o navio é um rumoroso e turbulento quartel flutuante, acoalhado de faces tisnadas e imberbes, serapilheiras cinzentas de uniformes, toques de clarins, restos de rancho coalhado, emporcalhando todos os recantos de porões e cobertas.

O nosso lapuz das Beiras e Alemtejo – a grande massa destas tropas – é, por natureza, por hábitos ancestrais, por desamor de si próprio, desleixado e porcalhão.

Todo o navio fede a um fartum gordurento e sórdido, mixto de rancho coagulado e pé descalço. E, com a falta de água dôce para as lavagens frequentes, os miseraveis uniformes de cotim ganham uma côr parda, terrosa, de causar engulhos aos menos susceptíveis.

O pessoal de bordo, sempre tão irrepreensivelmente engomado e esticado nos seus casacos brancos, concede-nos a nós todos um olhar irónico, orgulhoso, de tédio e de desprêso.

Terão êles razão?

Talvez!

Como fazer acreditar, pela pobreza dêstes uniformes e pela boçalidade destes hábitos, que vai aqui uma tropa aguerrida, briosa, confiante, capás de todas as galhardias e todas as audácias?!...

Pessimo simptoma! Pessimos comêços!...

Todas as manhãs, entretanto, no vasto spardeck dos oficiais, as guarnições teem formatura de instrução. Os homens apesentam-se, como sempre, descalços, e desperdiçam duas ou tres interminaveis horas nuns vagos exercícios de ginástica, que um ou dois alferes vigiam, bocejando inconsolávelmente. Depois destroçam. Uma algazarra inconcebivel enche por instantes os tombadilhos; e nenhuma manifestação de vida militar volta a revelar-se em toda a roda do dia.

Por única variante, ouve há dois dias uma ameaça de insubordinação de rancho. A enérgica presença dos oficiais de serviço evitou, porêm, que se esboçasse, sequer, a menor atitude de revolta.

E, coitados, os homens tinham razão!

Como vamos a quinze dias já de Lisboa, sem sinal de terra, o rancho começa a tornar-se uma sórdida burundanga onde a carne, os macarrões, as próprias hortaliças dos frigoríficos derramam um fétido intragável. Nós próprios, oficiais, já não podemos tragar o eterno peixe au gratin, a infatigável omelete do almôço.

A culpa?!

A demora do carregamento do navio em Lisboa, e os sucessivos adiamentos da partida, por ordem do Ministério das Colónias, sem que refrescos e mantimentos fossem renovados. E assim, ainda, até ao Cabo!...
 

Tento prescrutar tambêm o moral dêstes moços imberbes – excelentes rapazes, no fundo – sofredores, submissos, generosos, que correm assim, fatalistamente, a tão longínqua aventura.

Ouço-os através da vigia do meu camarote, emquanto ensabôo a face e a escanhôo à navalha. São sempre saúdades da terra, dos parentes, das suas Marias e das pândegas que por faziam, e dos alqueires de milho ou almudes de vinho que tiravam co'as colheitas.

– A esta hora – diz um – ia eu à venda de Zé Nabo comprar dez reis de «brejeiros», e por lá me demorava de pândega antes de ir para o trabalho, a fazer as minhas franquezas à rapaziada!...

– Ora! O que lá vai, lá vai! – atalha outro, – Eu, emquanto me derem n'o rancho e me pagarem o pré, deixo-me andar sem «soidades». Rapazes, às vezes, lá na peluda jantava um quarto de b'rôa e uma cebôla!...

– Pois sim! (comentário de um terceiro). Tenha eu lá sempre na vida a minha b'rôa e a minha cebôla, que vos deixarei a vòs todos, até com rancho de sargento, melhorado!

Noutro grupo estalam sujas obscenidades, insultos risonhos, amigáveis, de um tal destempêro de linguagem e falta de senso moral que apenas me causam mágua.

Calam-se. Na manhã gloriosa, o navio, reverberando sol por todas as scintilações da água, singra impassível na sua rota azul, de mar e céus muito azúis.

Depois, falam das suas impressões de bordo, dos oficiais, dos sargentos, dos camaradas.

E numa viva sátira, todo o Livro-Negro desta aventura ali passa então, gostosamente folheado, saboreado, flagrantemente ilustrado, pelas suas falas cortantes e rudes, como caricaturas a traços de carvão.

Mal conhecem os oficiais; designam-nos por alcunhas ou pelos defeitos físicos que os distinguem – «aquele alferes de ôlho torto», ou «o nosso tenente muito baixinho, com cara de macaco...»

Sôbre os sargentos uma carga cerrada, às vezes truculenta...

Antigos agrávos de «mapa-diário», contas atrazadas da «escala de serviço», ali se ajustam, ali se rebatem, obliquamente, com sanha, com usura, num soalheiro feroz de caserna.

Recrutas de três mezes na sua maior parte, estadeiam com basófia uma ignorancia das coisas militares que os deve orgulhar como o melhor dos títulos de gloria.

– Eu cá – opina um com sonoro desprêso – ainda não sei armar tendas, e não tenho pressa de aprender.

Dos alemães falam tambêm às vezes. falam porêm com a curiosidade do mistério; e quando a êles aludem com râncor, é mais pela responsabilidade que lhes atribuem no incómodo desta aventura, do que pela sagrada fúria de patriotas ultrjados na honra da sua Pátria.

Tambêm não conhecem, não sabem, não sêntem o que seja Pátria. A palavra Portugal ainda de certo os emociona e enternece. A idéa Pátria, porêm não lhes perturba as digestões nem o funcionamento regular do sistema circulatório.

Mas de quando em quando, uma voz mais moça, mais límpida, mais ingénua, lança lá do seu canto, um grito de orgulho nacional, vibrante e claro como um trinado de clarim. E lança-o sem enfase, sem embofia, mal suspeitando talvez que, através da vigia aberta, um alferes estremunhado se barbêa, ouvindo-o enternecido. São duas ou três frases curtas, em calão, na pitoresca e colorida linguagem da caserna, que desvendam por detrás dela um peito e dentro dêsse peito um coração de herói.

Quem sabe?!... Esse pobre moço pode lá ficar, minado de febres, estoirado de um vôlvo, inglóriamente sepulto na areia, ou regressar à Metrópole com a memória de certo dia de combate, em que aproveitando uma aberta, se esgueirou à vigilância do seu alferes e apareceu à rectaguarda a balbuciar umas frágeis desculpas...

Falta e culpa de quem?!... Culpa de toda esta sagrada filosofia de ventre e ripanso com que a Mãe-Pátria encara estas frioleiras e manipula os seus deveres de abelha-mestra; falta de instrução primária e de mestres carinhosos, que nas suas imaginações virgens e adolescentes, lhes risquem a traços de diamante dois ou três preconceitos luminosos de Pátria, Honra e Dever; falta de uma sábia organização estructural que automáticamente estimule os audazes, premiando os que triunfam; falta, de uma atmosfera de abnegação e de heroísmo, que, por imagens de sonho e de beleza, como as estrofes dos Lusíadas ou da Marselhesa, fale à imaginação, fale à consciência vibrátil dos vinte anos,

«O peito acenda e a côr ao gesto mude.»


Mas um toque de corneta anuncia-me a proximidade do almoço.

Acabo as minhas lavagens, escovo-me, remiro-me ao espelho, confirmo num olhar todas estas minúcias, e abandono, com mágua, o diálogo dos meus obscuros companheiros de armas, onde há sempre tanto que aprender!...
 

*

*      *


E é justamente agora, despois do almôço, que a nossa mais aguda da nossa craveira moral é sonoramente ferida com sábias mãos.

Por ordem do Quartel General, todos os dias é nomeado um oficial expedicionário para fazer uma conferência à sua escôlha, sôbre assuntos exclusivamente militares, e, tanto quanto possível, cingidos a campanhas coloniais.

Por aquele estrado do piano, ao fundo do «salão de música», onde as conferências se debitam, teem desfilado com os seus argumentos e os seus ensinamentos, a fina-flôr dos nossos camaradas de viagem, a maior parte dos quais vetranos do Ultramar, condecorados, calejados já doutras campanhas de África.

Artilheiros, engenheiros, oficiais de cavalaria, de infantaria, metralhadoras, administração militar, os proprios medicos, todos ali teem acorrido a deixar o seu depoimento, fazer a vénia, abandonar o estrado.

E, valha-nos ainda a Santíssima Virgem! É um pavoroso mostruário de êrros cometidos na organização da Expedição, de faltas desleixadamente acumuladas, de deficiências, de perigos que nos esperam, de problemas sem solução, de obstáculos de toda a sorte. Em cada manhã, a pesada digestão de cada almoço nos reserva uma surpresa e um engulho maior.

Sabe-se que a artilharia vai escassamente municiada; sabe-se que o gado das tropas montadas será remontado no Transvaal sem qualquer ensino, quiçá para entar logo em operações activas; sabe-se que as requisições de material sanitário não foram tôdas satisfeitas; sabe-se, finalmente, que em expedições anteriores (as do Sul de Angola, por exemplo), apareceram toneladas de géneros avariados, latas de conserva falsificadas, outras fraudes ainda mais torpes.

Tambêm nítidamente se desenham, nas entrelinhas destas palestras, as incompatibilidades internas do Estado-Maior, a falta de confiança no moral e na instrução das tropas. Os médicos dizem-nos que veem soldados de artilharia, que ainda alguns meses antes tinham regressado do Ultramar, doutras campanhas, arrazados de impaludismo. Deveros ukases do Ministério da Guerra obrigaram, porêm, a dar êsses homens como capazes de serviço activo nas colónias, em segundas inspecções médicas. E não houve senão obedecer.

Parece ainda que na maior parte dos corpos mobilizados não houve juntas médicas, não se apuraram os capazes e licencearam os incapazes... Medonho! E, pior do que tudo, a falta de confiança no zêlo dos Altos-Poderes, o desalento comum, a previsão dum estrondoso fracasso, o azedume pelo sacrifício inglorio a que todos parecem votados, transbordam claramente de todos os pontos finais da cada período.

Diz-se, porém, que o Comando, irritado com a atmosfera de pessimismo que êstes comícios teem crado, vai intervir, encerrando as conferências.

Eu, por mim, desinteresso-me.

Como nada tenho aprendido e nada aprenderei decerto com êstes facundos debates, resolvi salomónicamente o caso – passando a esmoer o meu almôço em longos passeios no spardeck, ou estiraçado na lona da minha cadeira a encharcar-me de legenda e de heroísmo com as estâncias dos Lusíadas, cuidadosamente entalados, nas minhas malas, em Lisboa, entre os meus «Regulamentos de campanha» e duas ou três novelas de Pierre Loti.

Mas, sôbre a amurada, o espírito logo se perde, vagueando nos limites remotos dêste mar cinzento dos trópicos.

E sinto que, a-pesar da solemnia verba dos conferentes de cada dia, a minha sensação dominante é ainda a curiosidade, e que teimo ainda em crêr estas tropas, no momento oportuno, com soldados e chefes, por milagre, por brio tradicional capazes dum acto de heroísmo.

Vamos a quinze dias de Lisboa. Antes de cinco dias entraremos nas docas do Cabo para meter carvão e refrescos.

Cinco dias ainda!

Não há estômago de Aquiles que invista com as caçaroladas do frigorífico, nem humor de Sancho-Pansa que navegue sem fastio neste maré-cheia de tédio.

Pela infinitéssima vez, lumuría ao piano uma das muitas «Avé-Marias» de Gounod. A fila dos enjoados que tomaram assinatura, estendidos em cadeiras de lona, ao longo do spardeck, fazem a bombordo uma pitorsca visão de sanatório. Não é, em rigor, um espectáculo desopilante.

E, decididamente, é de arrazar, uma viagem assim, de vinte dias, com mar e céu por paisagem única, sob as delícias do aroma integral da caserna, e onde os únicos perfis de mulher que de longe perpassam, são os de duas criadas de bordo, excelentes pessoas que em Verdun teriam suprido certas faltas da artilharia pesada francesa.

Dir-se-á que não teem sexo estas duas criaturas neutras que, numa sombra neutra de indiferença e desinteresse, passam, perpassam, se esbatem, desaparecem... aos olhos de oitenta portuguesinhos valentes!...


Emfim, recordando a nossa saída de Lisboa, o aspecto bisonho das tropas, o nível desanimador dos factores imponderaveis, as faltas que se assinalaram, a mansa desorganização em que tudo róla, o abandono dos Poderes Públicos, e até o próprio incêndio que, parece, lavrou durante três dias nos paióis de carvão – recordando tôdas estas admiráveis certezas, emquanto o navio singra impassível, como impelido num grande vento de fatalidade, esqueço os meus Lusíadas sôbre os joelhos, e cantarólo o triste rimance quinhentista que diz os males, e os prantos, e todo o rude fadário da nau maldita, a Nau Catrineta:


«Lá vem a Nau catrineta
«Que tem muito que contar.»
.............................................
 

Não me caírá o queixo, de espanto, se desta vez o rochedo hirsuto do Adamastor (agora decerto menos profético e menos trágico em tão scéptico e burlesco século), em lugar de nos fazer estalar sôbre as pobres cabeças tôdas as retumbantes jeremiadas que arrojou à face atónita de Camões, nos esperar patuscamente de chapéu à banda e olho pisco, n'um zangarreio de banza de cego, parodiando uma entrudada:


«Lá vem a Nau catrineta
«Que tem muito que contar,
«Ouvide agora, senhores,
«Uma história de pasmar!»
............................................
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Tropa d' África : jornal de campanha dum voluntário do Niassa
, Lisboa: Aillaud e Bertrand, 1925, pp. 29-38

 

 

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