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A Belgica

A Belgica
Data :
02/07/2015

​Poema de Teixeira de Pascoaes publicado na revista A Águia de Junho de 1915. 


                   A BELGICA
 
Ó BELGICA sagrada e anoitecida
Da sombra que projecta a fouce cruel da Morte...
Ó Patria do infinito soffrimento!
Eu vejo-te na noite desabrida
D'esse inverno de neve e turbilhões de vento,
O inverno, todo em lagrimas, do Norte!

Paisagem de agua e frio...
Planicies de tristeza, pinheiraes
Que se torcem de dôr, sob o dezembro, aos ais!
Córvos voando, ao longe, humido vôo sombrio...
Lamacentas e gélidas estradas
Entre fileiras de arvor's decepadas...
Escuros batalhões marchando sem rumor
Sobre a neve que põe, na terra, um frio alvor
E um silencio de morte...

                   Ó Flandres na agonia,

A Iberia, em ti, deixou signaes do Meio Dia,
Christos de fogo e sangue, n'uma cruz
Gotejante e apagada em plena bruma
Que parece esconder misteriosa luz...

Ó dunas, solidões de areia, o mar que chora...
Farrapos no ar fugindo, ao vento, branca espuma...
Destroços desenhando os lugubres espaços,
Incoherentes e negras formaturas...
Êrmo vulto de mãe que os êrmos ceus implora,
Tendo um filhinho palido nos braços!
Cruzes, de pé, na sombra, infindas sepulturas;
Aza de dôr, na noite gélida, pairando,
Tão alta que é divina!
E estes nomes: Louvain, Termonde, Iprés, gritando
O seu incendio e ruina!
Creancinhas em bandos de terror,
Meigos vultos beijados pela Dor,
E apertados nos braços da Afflição!
Desgrenhadas mulheres e velhinhos,
Fugindo, em desvario, ao longo dos caminhos,
Sob a cruel e tragica Invasão!

E, acêza, no horisonte escuro, a grande guerra!

As linhas de batalha
Listram a sangue e fogo a terra, o mar e o ceu
Que todo intimamente escureceu
E se condensa todo em chuvas de metralha!

Ó soldados de França e de Inglaterra!
Multidões de heroismos!
Aviões levando a morte áquela altura
Das aguias e das nuvens passageiras,
Olhando, investigando a lugubre fundura,
Onde, rugas de dôr, se cavam as trincheiras.
Baterias do outeiro trovejante,
Granadas a explodir, abrindo abysmos!
Selvas de baionetas que se agitam
E, subito, crepitam!
E as descargas, n'um tragico ruido
Sibilante,
Levam o amor da Patria em ferro convertido!
E os dragões galopando ao vento das procelas!
Sabres, n'um riso livido, fulgindo!
Clarins tocando a carga, despedindo
Settas de som que férem as estrelas!
Cantos da Marselheza que se abrazam
No ar, e no ar se casam
Aos gritos de afflição!...

E a dôr, a dôr, a tetrica Visão,
Sobe da terra e é fumo escurecendo a luz,
Esparsa, aérea Cruz...
Sobe n'um ceu desfeito em lagrimas, tombando;
N'um frio ceu exangue,
Escuro e de mortal angustia, repousando
Sobre ruinas sem fim, cadaver's, lama e sangue...

in A Águia, nº. 42, jun. 1915, pp. 227-8

 

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