Ignorar Comandos do Friso
Saltar para o conteúdo principal
quarta-feira, 21-02-2018
PT | EN
República Portuguesa-Cultura Homepage DGLAB

Skip Navigation LinksA-Batalha-do-Marne

A Batalha do Marne

A Batalha do Marne
Data :
30/12/2015

​Um texto de Mário de Sá-Carneiro (1890-1916), escrito no 1º. aniversário da Batalha do Marne que ocorreu de 5 a 12 de setembro de 1914.


​A Primeira Batalha do Marne, episódio decisivo no decurso da I Guerra Mundial, terminou com a vitória dos aliados sobre a Alemanha e deu inicio à guerra das trincheiras que se prolongou durante cerca de dois anos.

 

A Batalha do Marne
(Impressão de anniversário)



Por ali, a nossos pés, foi o Campo da Victoria: vitoria de ha um ano, e já hoje timbrada de legenda – aureo signo de toda a epopea. Em mitos d'elmo, é certo, diluem-se já hoje – penumbram-se, e assim se volvem mais sensíveis – as horas granates da luta de Herois, por este imenso campo de batalha... São letras fundas de inscripção, em marmore aparelhado, a ordem celebre «une troupe qui ne peut plus avancer devra se faire tuer sur place» o sublime anonimato dos três-mil que, meramente obedecendo, resistiram, com efeito, em Marville, a toda uma divisão imperial... o exercito de Paris reunido a urgência pelo governador da Cidade, enviado em reforço por automoveis de praça... e, como os elefantes da Salambôo, de súbito lançando o pânico e o Milagre – então, pela altura, os aeroplanos revoando a descobrir o intervalo entre os dois exercitos germanicos, naipe decisivo da Victoria... bem como mesmo, enternecidamente, o pobre velho piano abandonado que uma noite surgiu em pleno campo de luta... e a guarda do Kaiser, em inferno, abismando-se pouco a pouco, uivo a uivo, nos pantanos de St. Gond, levando dias a sumir-se... tanta bandeira tomada, tanto eco de clarim, tanto silencio morto... Paris salvo! – no recuo desordenado do Grande-Ogre, até ao desaparecimento teatral, sob as trincheiras, das Legiões guturais dos capacetes ponteagudos...

Ontem, apenas: o combate, a vitoria, o pasmo; mas já volta a oiro e sangue, a cristal e Azas: véus de lenda heroica para altar de Patria...

Ontem... e hoje o aniversario, o âno volvido... Silencio á luz do crepusculo... A terra não treme neste outono – dorme, dorme aconchegando os corpos que tombaram... E entre as flôres que nasceram depois da batalha, levantam-se as cruzes: aldeias de campas gentis, pequeninas, que não fazem medo ás crianças – cemiterio embandeirado e coberto de grinaldas, porque a romaria das viuvas, das noivas e das mães trouxe agora, com as lagrimas, os presentes de ânos aos seus mortos: violetas precoces esta irmã – lilases a noiva linda que tem Paris nos seus crépes – rosas brancas de luxo aquela amante de teatro...

Meu Deus, tanto carinho perdido! Que vontade de chorar... Mais funda, mais desolada ainda porque essas mágoas todas, essas dores de Ausência, o tempo – sem remedio – um dia ha-de apagar... E tu, minha noiva gentil, que não esqueceste uns laivos de carmim em tua boca parisiense, mesmo por este aniversário – tens vinte e três ânos: hás-de ainda sorrir, saberás enlaçar o companheiro próximo da tua existencia embora as lagrimas de hoje – toda a saudade, na recordação pungente do ultimo beijo do outro, antes de partir... e tu, minha linda irmã, irás também na vida... e tu, minha amante de teatro, has de te dar de novo pelo coração...

Para quê, para quê, tanto luto, tanto tormento, tanto sacrifício... Ai, se ao menos estas dôres fossem eternas... Nesse caso sim, talvez valesse a pena sofrê-las... E é bem pela sua efemeridade que as acho mais crueis, que sinto melhor as minhas lagrimas...

... Entanto, ali, a amargura talvez permaneça – talvez, até á morte, os soluços rompam: aquela velha mãe que se esqueceu de tudo – das próprias flores que deixou cair a seu lado, em vez de juncar a sepultura do filho – e se estiraçou alheada, perdida em desgraça, sôbre a terra húmida... Mais longe, essa pobre viuva, que se diria uma avó, sustentando nos braços dois filhos pequenos... Já eram tamanhas as ralações, tão duro o trabalho que, antes dos ânos lhe embranqueceu os cabelos, lhe enrugou as faces... Mas havia o seu homem. Lá isso, pão com fartura, sempre, em sua casa... Hoje... Hoje – eis tudo – há que trabalhar por dois: tem que haver o mesmo pão em sua casa...

Enrosca-se-me um calafrio pela espinha: o sinal sagrado das grandes emoções – compreendo a vida – tenho, como nunca tive, a noção do dever – os olhos enevoam-se-me... Mas puxo pelo braço do meu companheiro, e sei apenas murmurar:

– Que belo...

Éramos dois artistas, essa tarde de outono, perto de Meaux, em pleno campo da Vitória...


Paris, outubro 1915

Mário de Sá-Carneiro



in Correspondência com Fernando Pessoa, 2 vols., ed. Teresa Sobral Cunha, Lisboa: Relógio d'Água Editores, 2003, pp. 135-137

 

Ver mais Autores e a Guerra em: É a guerra; Naulila 19141914!; Portugal e a Guerra e a Orientação das Novas Gerações; Durante a Guerra -  Dezembro de 1914O Monstro quer Sangue; A Revolta; O VoluntárioCarta pública ao tenente Aragão, prisioneiro de guerraDo Diario d'hum soldado;  Pacifismo e militarismo; A Bélgica; «- Podiam ter sido irmãos, mas foram fratricidas!...»; A Nau Catrineta; A guerra actual é uma guerra entre dois princípios sociológicosQuim e Manecas na I Guerra Mundial e Os Zeppelins sobre Paris