Ignorar Comandos do Friso
Saltar para o conteúdo principal
quarta-feira, 21-02-2018
PT | EN
República Portuguesa-Cultura Homepage DGLAB

Skip Navigation Links1914!

1914!

1914!
Data :
01/10/2014
Poema publicado por Cruz Magalhães (1864-1928), em setembro de 1914, na Ilustração Portuguesa

                      1914!


  
Que bem tens alcançado, ó velha humanidade,
Entre o tempo de agora e a mais remota idade?!
No que é material tens dominado tudo
Á força de trabalho e porfiado estudo.
A expansão do vapor não sofre já aumento,
A eletricidade é teu docil instrumento,
Fluído tão veloz que n'um minuto apenas
Percorre o mundo todo, em ondas, por antenas!
Observas o microbio e vôas pe'os ares
Na ciencia possues egregios luminares!...
 
N'uma só coisa és fraca, escassa de ideal:
Não consegues vencer, aniquilar o mal!
O mal que vem de ti, o proprio que dimana
Do féro coração da antiga féra humana!
 
A tua inteligencia esforça-se, trabalha...
Não sabe dispensar um campo de batalha!...
O pacifismo augusto esparge as suas luzes,
Mas ouve-se o troar insano dos obuzes!
E, afinal, vapor, eletricidade, ar...
Tudo te aperfeiçôa a arte de matar!
 
A perfidia alemã, minaz e onzeneira,
Atraiçôa, devasta e mancha a Europa inteira!...
Os processos que emprega: incendios e pilhagens,
Violações crueis... devastando as pastagens,
Os feridos fuzilando! E matando enfermeiros!...
São processos de infamia, ardis de bandoleiros.
Em pleno seculo vinte, em plena luz de aurora,
Assim se retrocede á hediondez de outróra!...
 
E, se a guerra é fatal, inevitavel, hade
Ser barbara, feroz, cheia de crueldade?!
Não se pode adoçar esse abismo que aterra?
Enfim, civilisar, suavisar a guera?
 
Ninguem consegue ao som terrivel dos canhões,
Dominar o rancor, ou enfrear paixões!...
Mas não ter da piedade a minima centelha!
Não respeitar sequer a bôa Cruz Vermelha!...
Mas virgens poluir e feridos fuzilar!
É proceder tão vil, tão mau, que faz bradar:
Abata-se esse lobo, e esse dominio imundo,
Que o homem envergonha, e que deshonra o Mundo!...
 
Que bem tens alcançado, ó velha humanidade
EEntre o tempo de agora e a mais remota idade?
O que é material triunfa a toda a hora,
O animico estaciona, ou quasi que pióra!...
 
Como d'um lodaçal se evola a agua pura,
Que é nuvem no azul, e vem, com frescura,
A flôr do campo dar mais viço, um novo alento,
Assim da guerra brota a flôr do sentimento!
Quantos rasgos de herois, quantas dedicações,
As almas consolando, erguendo os corações!
 
Em França, uma mulher, vendo partir o filho,
Sentiu que do olhar se lhe empanava o brilho.
Quiz reprimir o choro, heroica patriota,
Que só no patrio altar se humilha e é devota.
Não poude! e, junto ao filho, debulhada em pranto:
– Se vais por lá ficar!... Ai! quanto eu sofro, quanto!...

– Então que é isso, Mãe?! Porque choras assim?!
Socega, hei de voltar! Que queres de Berlim?
– Traze-me a tua pele: o que a Prussia produz
Não tem amor, nem ar; nem justiça, nem luz!

Gerez, 19-8-914
 



in Ilustração Portuguesa, nº. 449, 28 set. 1914, p. 392
 
Ver mais Autores e Guerra: É a guerra e Naulila 1914.