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quarta-feira, 21-02-2018
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«Por que motivo Portugal tomou parte na guerra»

«Por que motivo Portugal tomou parte na guerra»
Data :
04/05/2016

Ana de Castro Osório (1872-1935) publicou o livro De como Portugal foi chamado à guerra: história para crianças, em 1918. Apresentamos aqui um excerto. 


Por que motivo Portugal tomou parte na guerra




Logo aos primeiros anúncios da guerra a opinião predominante em Portugal foi a favor dos aliados, nem outra coisa se podia esperar dum povo, como é o português, que tem sempre tido, através da sua Historia, um belo instinto de defesa a aconselhar-lhe o caminho que deve seguir.

Se uma pequena minoria se mostrou favorável aos alemães, tambêm isso é natural e não deve perturbar o conjunto admirável da consciência nacional manifestando-se corajosamente contra um inimigo poderoso, porque tambêm a História nos mostra, com desgosto, que em certas épocas da vida portuguesa, quando o interêsse de todos era estar ao lado do povo, que representa sempre o destino nobre da raça independente e autónoma, alguns, levados pelas paixões e mesquinhos ódios políticos, por interêsses pessoais e talvez pela ignorância, muitas vezes se passaram para o lado dos inimigos da Pátria.

Felizmente, tambem conta a História, sempre foram vencidos pela maioria que defende a autonomia e independência de Portugal. Ás vezes, como no tempo de D. João I, a luta foi curta, triunfando logo o partido nacional, defendido por João das Regras e Nun’Alvares. Outras vezes a luta dura muitos meses e até anos, come aconteceu com a dominação espanhola, que levou sessenta para ser vencida, ou como a invasão de Napoleão, que custou vidas, bens e sacrifícios sem nome, tudo devido a não ser logo de princípio a opinião só uma, e a resistência conjunta.

Neste momento único da nossa História o sentimento da raça despertou, como por encanto, aos primeiros clarões dos incêndios e aos primeiros protestes das vítimas da brutalidade germanica. Parece que em nosso corpo e em nossa alma reviveram as dores dos nossos antepassados vencidos e torturados pela horda bárbara dos invasores germânicos, que há mais de mil anos desceram das selvas da Europa Central para destruir e esmagar a grande civilização romana.

Aos primeiros crimes de hoje todos os povos ligados pelo sangue e pela inteligência à tradição latina, que tanto custou a resuscitar depois do predomínio bárbaro dessa fera gente, compreendeu bem o perigo que os ameaçava.

É preciso que se saiba que a queda do império romano sob a ferocidade germânica deu em resultado um regresso à barbarie, de que só verdadeiramente se saíu quando chegou o grande período chamado de Renascença, que foi iniciado pelo povo português com a grande acção mundial que se chamou os Descobrimentos.

A civilização latina estava há mil anos no apogeu da sua energia expansiva, espalhando-se pelo mundo a grande fôrça civilizadora do seu comércio, da sua indústria, das suas ideas, das suas leis e da sua grande cultura intelectual.

A pouco e pouco iria procurando conhecer todos os povos e ligando comunicações de modo a ser então – o que estava agora sendo – a Terra uma grande Pátria da Humanidade em que todos se conheciam, todos se respeitando em seus direitos, ideas e costumes. Deu-se a invasão germânica, e êsse povo, que tem por ideal esmagar os que vence e impor, pela fôrça, as suas ideas, os seus costumes e a sua autoridade pela disciplina brutal das armas, cortou todas as comunicações, destruiu e perdeu o fio condutor da grande civilização. Foram precisos séculos pare se voltar ao ponto em que se estava antes. E quando os povos ali chegaram é que chamaram a essa época a Renascença, o que bem diz o movimento que ligou o passado ao que então se estava a fazer. Ao povo português coube nesse memento o melhor papel, visto que o destino o chamou a tomar a vanguarda entre os povos europeus, iniciando com o descobrimento do caminho marítimo para o Oriente, e tudo quanto dêsse empreendimento resultou, a nova era, que foi das mais brilhantes da História.

O maior perigo que para os outros povos representa a Alemanha vencedora, é a qualidade de dominação que tem a sua raça, pois quando triunfa esmaga, impõe as suas ideas e tudo quere vencer pela autoridade brutal das armas.

O que os alemães e austríacos são como senhores pode bem dizê-lo a Alsácia e a Lorena, Trieste, a Polónia, a Bósnia e todos aqueles que a sorte tinha colocado debaixo do domínio odioso dos germânicos.

Mesmo na própria Alemanha o predomínio da Prússia sôbre os outros Estados da confederação seria brutal, ofensivo e insuportável se êles pertencessem à nossa raça, independente e altiva.

Portanto Portugal teve razão quando desde a primeira hora demonstrou toda a simpatia pela causa dos aliados, que é a nossa própria causa.

E não era só o coração e a generosidade da nossa alma que nos indicava desde logo êsse caminho, pois o interêsse vital da nossa Pátria, tambêm, felizmente! estava ao lado dos aliados, estando assim de acordo o nosso sentimento com o nosso interêsse.

A vitória dos aliados é o triunfo definitivo do direito e da justiça, que garantem a existência das pequenas nações, que nada valem perante o preceito alemão de que «a fôrça está acima do direito». O que sucedeu à Bélgica e à Sérvia bem claramente demonstrou o que para a raça germânica valem os tratados, o direito e a justiça.

Portugal não é, como essas duas, uma nação pequena: antes pela extensão e riqueza do seu território colonial se deve considerar uma das grandes nações do mundo. Mas, porque a sua base na Europa não é muito grande e tem vivido sempre sob a ameaça do espírito dominador e absorvente de Castela, e as suas colónias estão espalhadas pelo mundo, e assim difícil a rápida defesa, precisa absolutamente de que a justiça seja mantida entre as nações e de que a paz não seja uma grande e traiçoeira mentira.

Há quatro séculos que pela nossa coragem, pelo nosso saber e pela nossa inteligente persistência andamos a preparar o caminho para um futuro de honra e de trabalho; não podemos, pois, estar à mercê das ambições de bandoleiros que se deixaram ficar para trás, alapardados nas suas florestas, sem correr os riscos que nós sofremos, e depois do mundo estar conhecido e os outros povos senhores do que legitimamente conquistaram vêm exigir o seu lugar ao sol, como povo colonizador, quando afinal nada mais é do que povo traficante!

Hoje que estamos, pela segunda vez, em plena fôrça expansiva da nossa raça, devemos completar pela acção enérgica, consciente e progressiva a obra encetada pelos descobrimentos e as conquistas, de que Afonso de Albuquerque teve na India a mais clara e nítida visão.

Ora a Alemanha, que chega sempre tarde, exactamente porque assim o determinam as qualidades próprias da sua raça – lenta no sentir e no compreender, mas obcecada e persistente no estudo e no querer – entendeu em seu absurdo e orgulhoso pensar: que tendo vindo para a civilização mediterrânica muitos séculos depois de nós; tendo-se organizado politicamente, pode dizer-se, nos nossos dias, sem passado que lhe tivesse deixado a sua natural expansão de colónias próprias; podia, firmada na fôrça bruta do seu imperialismo militar talhar à franca no terreno alheio e, em face do mapa-mundi a que nós demos as linhas gerais que a verdade exigia, apoderar-se do que há séculos pertence, por direito de descobrimento, de conquista, de trabalho civilizado e domínio politico, às outras nações.

É evidente que não podendo atacar de pronto a forte e rica nação inglesa, nem arrancar-lhe pelas armas as suas colónias, a política alemã, hipócrita e sem escrúpulos, tentou subornar a nossa aliada para que se não opusesse ao roubo das nossas, por todos os lados ameaçadas e ilaqueadas. A invasão alemã começou a fazer-se docemente, mas com uma persistência que sobressaltou os espíritos lúcidos, pelo comércio, pela indústria e pela aparente amizade da gente que invadiu os nossos domínios com uma multidão de bufarinheiros tentadores, esperando êste momento da guerra, que iam preparando com todo o sangue frio e crueldade, para se apoderarem do que pudessem apanhar nosso e de outros países mais fracos e vencidos.

É necessário frisar bem que o ideal germânico tinha um duplo fim: fortalecer os impérios centrais de modo a poderem exercer o predomínio sôbre todas as outras raças e nações da Europa, e ao mesmo tempo fundarem um grande domínio colonial à custa dos outros povos.

Era segundo esta ordem de ideas que reclamavam «o seu lugar ao sol», como se cada um tivesse obrigação de dar o que lhe faz falta para engrandecer os outros.

Esta maneira de pensar é própria de bandidos, não de gente que tenha a noção do que é o justo e o injusto.

Para que se compreenda bem estas palavras basta explicar os factos, que estão ao alcance de todas as claras inteligências. Senão vejamos: como todos os países estavam a recuar perante a responsabilidade duma guerra europeia, que se previa horrível, apesar de ninguêm supor que chegasse à violência e barbaridade que êles a tornaram, a Alemanha ia avançando hipócritamente e criando fôrça e audácia para chegar ao desplante de desafiar o mundo inteiro. Assim não admira que Portugal sofresse o primeiro atentado à integridade do território nacional com o roubo do Quionga, na África Oriental, realizado há anos bruscamente e pela fôrça, sem que até hoje nos tivessem dado satisfações.

Esta violência, só por si, mostra bem o que seria Portugal se a Alemanha vencesse, pois que o nosso país não é só representado pela linda terra da Europa, que é a metrópole e as preciosas ilhas adjacentes, Madeira e Açores, como é toda a terra das nossas colónias espalhadas pelo mundo e nas quais se exerce a soberania portuguesa, que formam em conjunto uma das grandes nações da Europa.

Nunca em Portugal se deve ensinar nas escolas nem nas famílias que a nossa Pátria é pequena, pois essa não é a verdade. E pela vida fora quando diante dum português tal falsidade se disser, têm a obrigação de defender-se como duma verdadeira injúria, porque Portugal é tudo quanto representa a sua soberania e se governa pelas mesmas leis. E nós devemos defender com tanto ardor um palmo de terra portuguesa de África, da Asia ou da Oceânía, como defenderíamos todos, até o último sôpro de vida, um pedaço do Portugal continental e as nossas formosas ilhas oceânicas.

A Alemanha, completamente absorvida pela idea de se engrandecer à custa de todos os outros povos e chegar a ser a senhora do mundo, não se dirigiu sómente para as nossas colónias de Africa, mas começou tambêm a idealizar uma grande colónia na América do Sul para poder, talvez, opor às belas colónias inglesas da América do Norte.

E então dirigiu sôbre o Brasil o olhar da sua águia imperial, e começou a idealizar uma colónia formosa e riquíssima arrancando ao Brasil três dos seus Estados.

Entrando na confiança do nosso povo irmão, na qualidade de emigrante modesto e laborioso, conseguiu iludir a boa fé dos brasileiros, a pouco e pouco lançando raízes e criando forças, que já supunha suficientes para justificar o roubo que intentavam.

Pode dizer-se que entravam, como gatunos com pés de lã, para abrirem as portas aos que de fora esperavam o sinal para exercerem o direito da fôrça.

Para que nenhuma dúvida pudesse existir sôbre as suas intenções, êles próprios fizeram e espalharam por toda a parte grandes mapas da América dando como colónias alemãs os belos Estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

Nos primeiros, o perigo era tão imediato que finalmente sobressaltou os brasileiros, que reconheceram com espanto que estavam a cair numa armadilha mal disfarçada, vendo que já nas escolas só era ensinada a língua alemã; e as camaras municipais, formadas por alemães emigrantes ou filhos de emigrantes que mantinham a nacionalidade do país, até as suas actas escreviam em alemão.

Felizmente que o orgulho desvairado dos governantes levou-os a cometer o insultuoso facto de enviarem um navio de guerra, a Panther, às terras de Santa Catarina para conduzirem os moços em idade militar, filhos de colonos alemães, como se fôssem súbditos do Kaiser, para fazerem o serviço no exército.

Então é que o Brasil verdadeiramente compreendeu o perigo que o ameaçava, e a nós igualmente, pois que insultar o Brasil o mesmo é que nos insultarem tambêm, tão ligados estamos à grande República Americana. O Brasil é para nós sagrado, e ninguêm o pode insultar sem o nosso protesto, porque a sua grande missão futura é afirmar ao mundo as qualidades da nossa raça e impor a nossa língua, que se fala no maior país do continente sul-americano, na Africa, na Asia o na Oceânia e não sómente na Europa, possuindo uma das mais ricas literaturas e a mais formosa história dos tempos modernos.

A América, que foi descoberta polo esfôrço do génio português e pela nossa mão trazida ao convívio europeu, afirma no belo desenvolvimento do Brasil as qualidades de colonizadores que hoje já todos nos reconhecem e poucos povos, mesmo dos melhores orientados, ainda conseguiram igualar.

Mas os insolentes desafios alemães não se dirigiram sómente a nós e Brasil, pois a própria França suportou os insultos de Agadir e Tânger na velha questão de Marrocos.

A Inglaterra e todos os outros países desculparam quanto foi possível, sem desdouro, para que a guerra fosse evitada; mas o pensamento desvairado da Alemanha empurrou o mundo para o conflito a que assistimos sem que fôsse possível evitá-lo e sem que seja fácil prever quando definitivamente o mundo voltará ao sossêgo e à normalidade antiga.

Visto que ela assim o quis, cada povo deve cumprir rigorosamente o seu dever, pondo o seu alto pensamento na defesa da própria autonomia e na honra da raça e do país a que pertence.


De como Portugal foi chamado à guerra : história para crianças, Lisboa: Casa Editora Para as Crianças, 1918, pp. 27-34

 

Este livro encontra-se digitalizado em http://handle.slv.vic.gov.au/10381/91693 pela State Library of Victoria, Austrália.

 

 

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