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quarta-feira, 21-02-2018
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Excerto de uma Obra

Excerto de uma Obra
                  
É a guerra : diário
Domingo, 2 de Agosto. II


O dia transcorre carrancudo como anunciava a manhã. Foi ontem o dia dos olhos luminosos; hoje é dia dos olhos bugalhudos, pisados e roxos. Foram muitas as lágrimas e deixaram vestígios.

A fisionomia de Paris – e dela são partícipes as coisas menos efémeras, ruas, casas, monumentos, as próprias árvores – é outra. À efervescência apaixonada sucedeu o exame de consciência, o rendez-vous surdo e instintivo da vida com a morte. Todos os que partem têm o sentimento de que vão defender a pátria, ignorando a maioria em quê e porquê. No problema encontra-se, com efeito, o abstracto e mistagógico que caracterizam os dogmas. Não é essa circunstância, porém, que atenuará a ralé dos beligerantes. Nas guerras religiosas não era necessário saber teologia para os adversários se chacinarem conscienciosamente. O culto da pátria deve ter sido introduzido pelos germanos no Ocidente com o significado restrito, concreto, por assim dizer pessoal, que reveste a palavra Vaterland. A terra nutrice de pais e filhos, na qual se erguiam as pedras-lares, se guardavam as ossadas santas, essa era amada de amor carnal, supremo; apto a todas as heroicidades e sacrifícios. Compreendia-se que as lanças estivessem espertas e afiadas; a tribo vencedora passava como furacão de ferro e fogo sobre a tribo vencida, até os mortos expulsando das campas. Admira que em torno desse sagrado torrão se formasse mística mais possessiva e ortodoxa que a própria ideia de divindade!?

Com o andar dos tempos embrandeceram os costumes e evoluiu a noção de pátria. Deixou de ser o lugar para abarcar o agregado político. Em vez de cingida ao cemitério, guindou-se ao panteão; em vez do horizonte que abrangiam os olhos, tornou-se a extensão geográfica de que será preciso saber a nomenclatura dos rios, das cordilheiras, das povoações, possuir em suma certa formação científica para avaliar ao justo o que seja. Também já não é o indivíduo a sua matéria-prima, mas o cidadão. Ao mesmo tempo deixou de ser causa comum, para sê-lo especialmente dos políticos, dos militares, dos letrados, dos capitalistas que estendem o braço longe, dos grandes proprietários terreanhos que têm quintas em províncias diferentes. Para o operário, para o cavador, para o rústico apenas remediado e o pequeno comerciante carece de significação. Conexamente, os objectivos da guerra moderna variaram. Do particular transferiram-se para o colectivo, do complexo para o singular. Não está em jogo o íncola, mas o território, o reinante e não o súbdito, a fortuna pública e não as arras deste ou daquele possidente. Tão-pouco não é a cultura que corre riscos pois, deixando de ser apanágio dum povo, se tornou património e indústria universal.

Em última análise, esta guerra só foi possível mediante farta propaganda de ódios e trapaças. Ignoro ao certo o que se tem passado além-Reno; é provável que a fanfarra chauvinista não tenha desmerecido da de cá. Em França sei eu que há dois anos a esta parte se tem feito uma acirrada e tendenciosa propaganda contra tudo o que é alemão. Desde a eleição de Poincaré, paladino do nacionalismo, que entrou no Hôtel de Ville aos gritos da populaça: À Berlin!, às centenares de publicações das quais se pode tomar como protótipo a brochura da Livraria Berger-Levrault: L’Offensive contre l’Allemagne, pelo coronel Boucher; desde a campanha sistemática dos grandes órgãos de informação, a começar pelo Matin, aos pasquins de grupos e partidos, espelho a Action Française; desde a literatura de alta bizarria, com os Barrès e Bazin, à prosa pataqueira dos Driant – espicaçar o francês contra o boche tem sido o número certo de determinado sector da vida mental e política de França. Assim se granjearam reputações e clientela. Quem dirá que Maurice Barrès enveredou de ânimo calculado para o obsoleto e estratificado tradicionalismo, hanté pelo exemplo dos Disraeli e Chateaubriand, simultaneamente escritores de fama e estadistas considerados, quando o arraial republicano e laicista dava sinais de cansaço? Mas a sinceridade política conservadora vem a poder de tocar pergaminhos como a fé à força de tomar água benta. Barrès que se não pintava para dizer: «fui atrás do boulangismo como se vai atrás de filarmónica», acabará estatuficado como Jeanne d’Arc para a romaria futura dos patriotas se a França vencer.

[...]



É a guerra. Lisboa: Bertrand, 2014 [1934], pp. 42-44