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quarta-feira, 22-11-2017
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Excerto de uma Obra

Excerto de uma Obra
                  
A Casa do Diabo
Neta de um pescador da Nazaré que morreu novo.

Ainda o tinham trazido vivo do mar, e feito subir da praia numa padiola debaixo de chuva, todos a correr, com as mulheres embrulhadas nos xailes a gritarem como feras.

Era preciso o médico. Foram avisá-lo às Caldas da Rainha. Mas durante os dois dias de temporal que se seguiram o médico não chegou. Não veio. A minha avó foi a pé esperá-lo à estrada, sempre debaixo de uma chuva monstra. Voltou para trás. Acendeu velas na igreja. A chuva não parava, não parava.

Veio depois, quando o tempo pareceu acalmar. Veio só constatar o óbito.

As irmãs ainda explicaram que tinham tentado lavar a ferida, tinha partido o osso, um que percebia dessas coisas tinha-lhe posto uma tala, tinha muita febre, mas – a mulher de repente chegou das traseiras da casa armada com um pau e pô-lo na rua: «Só quero que você caia na cova mais funda desses caminhos e que chegue ao inferno mais depressa que o diabo».

E entre lágrimas tinha-se iluminado num sorriso. O sorriso irradiou e ouviu-se o trovão, estalou logo a seguir o relâmpago.

Então a chuva recomeçou ainda com mais força e pareceu que tudo se invertia. Outro relâmpago, outro trovão. O médico começou a andar, depois a correr. Caiu na lama. As gentes encostadas às paredes nem se mexeram para o ajudar. Levantou-se, agarrou nos óculos, olhou para trás e continuou a correr. Ninguém se mexia. Só a chuva. E outro relâmpago e outro trovão. Era um rapaz novo que sofria de asma. Apavorou-se, escorregou outra vez. As pessoas olhavam e não davam um passo. Limpou os óculos. Pôs os óculos. Não via bem. Continuou.

Então um homem na multidão soltou um grito. Só um grito a que não se seguiu nada.

Tinham parado uma imagem da Senhora da Nazaré à porta da igreja, tinham-se juntado como para uma procissão, mas não andavam, não arredavam pé só olhavam, como se sonhassem.

Só a chuva, a chuva.

Até que o médico se meteu num carro puxado por duas mulas e saiu a galope.

E à porta da igreja começou uma melopeia branca. Era um canto à Nossa Senhora que um deles segurava. E que pingava.

Uma imagem de gesso, com um manto cheio de estrelas.


 
O avô da minha mãe morreu rodeado dos carões vermelhos das irmãs e dos cunhados frente a uma janela onde mal caberia o tronco de uma criança. Mas de onde se via o mar.

Depois de morto despiram-no e sentaram-no numa cadeira amparado, para o lavarem.

Uma bacia de ferro, panos brancos.

A mulher ficou que tempos sentada no chão, sozinha, diante da bacia que continha a água, antes de conseguir deitá-la fora.

Era como um primeiro enterro, essa água.

Depois foi o outro, o enterro definitivo. As pazadas de terra, a terra, a terra. A mulher sentiu que ardia como o pavio de um candeeiro. As pazadas de terra.

Tinha um filho.

 
Saiu da Nazaré com o filho e foi instalar-se em Leiria. Primeiro como criada, depois como costureira.

Os patrões tiveram pena e mandaram o filho à escola.

Depois, adolescente, fazia entregas para uma loja de um comerciante de panos de quem mais tarde se viria a tornar genro, e depois sócio.

Esse filho conservava ainda memórias vagas das procissões na praia.

Das vozes e das brincadeiras com os outros garotos, insultos. Uma fogueira.

Dos três dias desastrosos da morte do pai em que ninguém se tinha ocupado dele. Era muito pequeno. Quando teve sono adormeceu. Quando acordou ouviu gritos. Teve medo.

E também de outras coisas. Das mulheres de pernas nuas, dos mantos negros das mulheres quando desciam as ribanceiras a correr no crepúsculo à hora dos lobos. O céu cor de laranja.

E depois sentavam-se em redor do peixe que tinha chegado, com facas sujas de sangue nas mãos a falarem muito alto, e falavam alto, a agitar as facas.

E dos homens que lutavam com o mar com a destreza que dá um ódio profundo. Que olhavam para o mar como se fosse para a besta, como os animais vêem o ferro em brasa com que os vão marcar e que significa que lhes destinam uma forma de morrer já conhecida de antemão. Nem mais, nem menos. E que eles, os homens, são como os animais, ou como foram os gladiadores da Roma antiga: pertença de Deus.

Os homens sempre cuspiram para o chão com a mesma violência, antes de começar um trabalho eterno.

Os vivos, os que lançam os impropérios – tão perto do céu quando se levantam nas barcas – diabo, diabo, que venha o diabo, mas que venha.

Pertença de Deus.


E havia a idade do amor.

É aquele tempo em que se sonha com corpos nus. Os miúdos sonham.

Quando as noites são claras e se vêem as estrelas como se estivessem perto – já de manhã os olhares escurecem mais. Como quando em mais novos ainda brincavam na areia molhada. E depois. O sol do meio-dia.

O sol do meio-dia era o divino moinho.
 
 
Sobre o divino mundo.
 
 
As redes na areia, os pés da Adélia, os pés da Adélia.
 
 
Levantou os olhos das redes e viu. O divino mundo.
 
 
Nua, estás a ouvir, nua. A abrir uma melancia sentado no chão, ela de pé. Meio-dia. Dezoito anos.


 
O filho casou em Leiria com a filha do tal comerciante de panos, que encontrou pela primeira vez num dia em que ia a fazer uma entrega e ela vinha a descer a escada aos pulos.

Falhou um degrau e aterrou em cima dele: – O senhor é que é o filho da Adélia?

A Adélia fazia renda para aquelas senhoras.

Com as sobrancelhas de carvão e a cara trágica, tinha mudado tanto com a idade, a Adélia fez o vestido de noiva para a nora e assistiu ao casamento na primeira fila com os outros parentes próximos.

Os rumores datavam dessa altura. Os rumores. Iam, vinham, cresciam.

Que ela além de analfabeta era tudo o que se sabia. Tudo o que se dizia, claro.

Razão pela qual havia quem admirasse e quem tivesse pura e simplesmente, a maioria, era evidente, deixado de falar aos pais da noiva, que a tinham feito entrar na família de uma maneira quase heróica.

Porque se não a convidavam para casa, a tinham deixado, mesmo assim, estar na igreja e assistir ao banquete.

Mas agora dizia-se que além de tudo o mais era estranha, louca, dizia coisas.

Depois, quando se soube que tinha oferecido à mulher do filho três camisas de noite de burel; como se fosse para uma monja, só com um buraco para enfiar o pescoço, e mangas sem forma, e lhe tinha dito a rir «toma, são as túnicas de Nosso Senhor Jesus», um fio de maldade atravessou Leiria como um espasmo. As pessoas passaram a andar mais alegres, o negócio corria melhor. Riam.
 
 
E ela foi rir para a cozinha, dizia-se. E também constava que agora bebia. Mas bebia a sério, com os bêbedos, nas tabernas.

Não era verdade. Mas que fosse ou não fosse verdade já era indiferente.

Porque foram necessárias muita paciência e muita cautela para manter as lojas de pano ao abrigo da falência. Quando até os melhores amigos chegavam e ofereciam quantias irrisórias por tudo. Mas não venderam, nunca venderam. Foi a época mais dura.

A nora tinha atirado as camisas de noite para o fundo de uma arca e tinha chorado. O filho sabia que falavam pelas costas.

Nenhuma «menina» se apaixona pelo filho da Adélia.

Nenhuma «menina» casa – e foi então aconselhado pelo sogro, que não tinha medo de ninguém mas empalidecia de dia para dia, e aparecia mais curvado, com os olhos mais cavados, o nariz mais afilado, de resto o mal estava feito, o mal – dizia, numa voz branca, a mexer os lábios estreitos, porque lhe custava falar, porque para os velhos é difícil falar, e ele tinha envelhecido em dois meses – o mal estava feito. Aconselhado a internar. Num asilo. Num hospital. De forma a que, tal como ele disse «a pobre Adélia pudesse acabar os seus dias com dignidade». E transpirava, de pé no meio do escritório.

Não, não senhor. Disse que não ao sogro.

Convenceu a mulher.

Demorou semanas a convencê-Ia, a pedir-lhe, a contar-lhe a infância, a história do pai, sem perceber que ainda era pior, de qualquer maneira era sempre pior. Era um horror.

E ela contava às amigas, chorava. E as amigas falavam. As coisas corriam. Era pior, era sempre pior. Mas ele lá a convenceu. Quando ela percebeu que de qualquer maneira o mal estava feito. Já estava feito. O mal estava feito. Levou a Adélia para casa viver com eles.

Tinha arranjado uma casa em S. Pedro de Moel. E a Adélia depois vivia lá com as criadas, sempre longe da nora. E diziam que parecia um cão com medo do dono.

Passava a vida na cozinha com as criadas. E acabou confundida com as criadas por toda a gente.




Era analfabeta, não sabia ler nem escrever. Mas tinha uma qualidade inata: sabia distinguir o justo do injusto.

A certa altura da vida tinha aplicado essa infalibilidade ao dinheiro com que tinha de lidar quando trabalhava ao dia, ou à peça.

Não sabia bem contar. Concentrava-se, franzia as sobrancelhas e depois deitava um olhar suave à cliente «a senhora é uma boa senhora». Ou então ao contrário: «as contas não estão feitas».
E ultimamente, talvez por ser o seu último tempo de vida era nisso que falava, quando se sentava na praia como uma mendiga e falava sempre sozinha, de resto. Em «ajustar as contas que não estavam feitas».

E enchia o armário do seu quarto, que era o mais pequeno da casa, com papéis cobertos de sinais estranhos traçados a lápis.

Escrevia sentada na praia – o mar ia e vinha, e ela escrevia depressa, a mão corria a toda a velocidade. Tinha pouco tempo. Dizia «tenho pouco tempo» mas em geral falava sozinha. Não havia ninguém.

Só a neta, a Helena, a quem a princípio chamaram Mariazinha. Depois Lili.

Agora tinha oito anos e sentava-se na cama da avó a ouvir as histórias e também pedia lápis e papéis e desenhava. Eram histórias loucas.

A Lili desenhava uma estrela.

Punha-se à janela.

–O pai disse que o mar se chama oceano.




Oceano.

Nove anos, dez. Já sabia ler e escrever.

–Minha rica, minha menina.

–Não quero ir. Quero ver a fogueira na praia.

–O teu avô, assim franzino como tu, matou um homem. O teu avô aos doze anos matou um homem.

–Qual homem? – A Lili, não acreditava, não ouvia, não tinha tempo. O mar ia e vinha.

O pai tinha-a avisado de que a avó inventava. Que era por causa de uma doença que tinha na cabeça.

–É maluca, então – disse a Lili a enfiar um dedal no polegar. Com um ar absorto, já adulto.

–Isso não se diz – tinha respondido o pai.

Lá em cima, a mãe passava a vida no quarto.

Era assim desde que o mal tinha sido feito.

Aquele casamento solene, pomposo, com a Adélia na primeira fila. Desde que se tinha casado com o filho da doida.

E ninguém. Ninguém a tinha avisado, ninguém lhe tinha dito nada antes. Enquanto ainda podia, ainda se podia. Ainda podia recuar. Ninguém.

Não importava se o filho da doida prosperava nas vendas –e até nisso havia qualquer coisa de perverso. Mesmo se a enchia de presentes e a levava a Lisboa.

Em Lisboa ela respirava. Tomava a ser a rapariga com uma blusa branca com três botões no ombro e uma grande massa de cabelo escuro que a fazia transpirar no Verão até sentIr fios de água pelas costas.

«O senhor é que é o filho da Adélia?» e descia o Chiado e subia o Chiado com urna criada atrás cheia de embrulhos, e o filho da Adélia à espera. A levá-la ao teatro, a levá-la aqui, a levá-la ali.

 
O mal


– Minha rica, minha menina.

A Lili de casaco encarnado – É maluca – e sorria-lhe, ria, ouvia o vento.

Agora passeavam na praia. A velha gritava por causa do vento.

– Quem?

– Um homem de setenta anos que não lhe queria pagar.

– E depois?
Agora corriam as duas por causa do vento.

–Depois enterrámos o corpo e quando veio a guarda ninguém disse nada. É assim nas terras pequenas. – E riu.

Doze anos, treze.

Estavam as duas sentadas num banco da igreja vazia, àquela hora do pôr do sól no Outono. Quando há uma estranheza. E as coisas e os lugares surgem deixados a si próprios e com outro significado. E mudam ligeiramente de forma.

Quando soube a história da morte do avô, da trovoada do médico que não veio a tempo, uma nuvem de areia entrou pela nave da igreja.

A testa adolescente vincou-se devagar, foi-se vincando nos sítios onde mais tarde viria a ter as primeiras rugas. Os olhos mudaram de cor. Ficou só.

– Minha menina.

Diante de santos de talha tão pequenos e tão toscos que pareciam feitos por crianças.

 
Na última noite chovia.

Como na noite em que o médico não tinha vindo, até a chama do candeeiro se apagar.

A Adélia acordou a meio da noite, bruscamente, como um autómato e ficou sentada na cama.

E continuava a chover e –

ela a lavar o morto sentado na cadeira, eram seis horas da manhã e então entra-lhe pela casa dentro o diabo – e a mulher, ela a Adélia, nua, estás a ouvir, nua, o divino mundo. – Ponha-se lá fora, lá fora, lá fora, diabo.

Despiu-se no quarto a murmurar «as contas, as minhas contas, o que me devem», abriu a porta, nua, estás a ouvir, depois de par em par a porta da rua, do céu, do inferno, da chuva, da guerra. E desceu a correr, nua, com o filho atrás a gritar «onde é que vai, onde é que vai» – e ela «diabo» e virava-se para trás, erguia o punho para o filho, e ele, «espere aí, sua doida, sua doida, doida» perdia-se no barulho das ondas, e chegou à praia, entrou pelo mar e viu-se o negro e a espuma em volta de um corpo velho volumoso e nu, de um peito que arfava e ainda se virou outra vez e amaldiçoou o filho, de punho fechado, o filho que também entrava pelo mar dentro mas não avançava e só gritava «espere, espere» e chovia «sua doida sua doida».

Doida.

 
No dia seguinte encontraram o corpo a boiar. E quando o voltaram pareceu que a mulher tinha encontrado pela primeira vez na vida um céu lavado. Uma espécie de leveza. E era verdade que já nada tinha peso.

Porque depois do enterro, uns dias depois a Lili pegou no jornal das Caldas da Rainha que estava em cima da mesa e deu com um anúncio na necrologia. «Doutor Mauro Caldeira de Azevedo, sua mulher Maria Teresa Morais de Azevedo, seus filhos e netos e noras e genros etc etc a morte do seu querido pai sogro etc etc José Mauro Espinhela Caldeira de Azevedo.»

Bateu na porta do escritório onde o pai se fechava sempre à chave: – É ele. É o Espinhela. Pai, é o Espinhela, é ele.

Batia com toda a força na porta: – É o Espinhela. Morreu no mesmo dia. Pai.

Sentou-se no chão encostada à porta. «Raios o partam.»

 
O doutor Espinhela não suportava. Era frágil demais.

Ao princípio ainda recebia os doentes no consultório. Depois deixou-se disso. Mandava o criado à farmácia. E naquela noite. Naquela noite estava um tempo horrível.
Encontraram-no de camisa aberta, com as mangas arregaçadas, numa cadeira de braços. Uma seringa de morfina caída aos pés.

 
Nesse momento viravam o corpo da Adélia no mar.

Havia aquela luz da manhã, o corpo pesava, tiveram primeiro de ir buscar outro homem. Depois só se ouvia o barulho dos remos na água.

 
Quando a avó morreu a Lili tinha quinze anos. Despejou o armário do quarto. Meteu num saco um monte de roupa velha, três terços, um retrato do pai em Leiria, quando era pequeno, e as resmas de papel que a avó tinha passado anos a encher de traços incompreensíveis. Fez uma fogueira na praia e queimou tudo.

De lá de cima, da janela, a mãe tinha-a visto sair de casaco encarnado com o saco na mão.

Ficou que tempos a olhar para as chamas até estar tudo calcinado. Excepcionalmente não havia vento. Era Outono. A areia estava gelada.

Pouco tempo depois pediu ao pai para a levar à Nazaré.

Conheceu tios e tias iguais à Adélia. Abanava a cabeça. Parecia que viviam noutro mundo. Conheceu um primo direito que lhe meteu medo porque não tirava os olhos dela.

Comiam como bichos. Dormiam doze no mesmo quarto. Aos trinta anos eram velhos. E as crianças – as crianças eram violentas, imprevisíveis.

Então declarou que queria ir para Lisboa. Queria estudar e tirar um curso. Estava farta de ser chamada «a neta da doida».

Sabia que diziam mal nas costas dela, nas costas do pai, em Leiria, no colégio de Leiria, em São Pedro de Moel, em toda a parte. Mal conhecia os avós maternos, que no entanto lhe mandavam presentes caros e se interessavam por ela. Mas era por carta. Perguntavam. Estavam à espera de um neto rapaz, mas tinha nascido ela. E depois a mãe não tinha querido mais filhos.

A mãe dizia, na presença dela, que ela era como a Adélia: má. Doida.

Quando desceu do comboio em Lisboa para entrar no colégio interno, estava sol. Pensou nas mulheres que a essa hora dormiam nos caixões do cemitério da Nazaré.

O cemitério não lhe pareceu triste. Pareceu-lhe como um estranho presépio iluminado pelo sol. Mais nada.

Então, de braço dado com o pai, os seus pés ligeiros começaram a andar ao ritmo da multidão.
 
 
in Mafalda Ivo Cruz, A Casa do Diabo, 2ª. ed., Lisboa: Publicações D. Quixote, 2000, pp. 96-106