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domingo, 30-04-2017
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Biografia

Biografia
                  

Mário de Sá Carneiro  
[Lisboa, 1890 - Paris, 1916]  

Mário de Sá Carneiro
Poeta e novelista.

Filho de um coronel de engenharia, ficou órfão de mãe aos dois anos. Estudou Direito na Universidade de Coimbra e depois em Paris, para onde partiu em Outubro 1912 e onde passou a viver de uma mesada paterna, mais dedicado à boémia, à literatura e ao seu confesso desgoverno emocional do que aos estudos, só vindo a Portugal em fins de Junho de 1913, um ano antes do início da Primeira Grande Guerra, com uma breve passagem por Espanha. Daí ao suicídio pouco mais há a dizer quanto aos dados estritamente biográficos deste homem que não falhou menos na vida do que nos estudos. Nessa inadaptação estaria, porém, talvez o génio da sensibilidade que não o deixaria falhar na literatura.

É também em 1912 que, com a publicação da peça de teatro Amizade, de colaboração com um condiscípulo – Tomás Cabreira Júnior, que antes dele igualmente se suicidou –, Mário de Sá-Carneiro se estreia na literatura. Do mesmo ano é o volume de contos Princípio, seguindo-se em 1914 a novela A Confissão de Lúcio e o volume de poemas Dispersão. Um outro volume de novelas, Céu em Fogo, é publicado em 1915. Indícios de Oiro, poesia, é publicado postumamente (1937).

Tanto como o percurso da sua obra, a colaboração activa e entusiasta na revista Orpheu (1915) e a amizade documentada nas 114 Cartas a Fernando Pessoa, escritas entre Outubro de 1912 e Abril de 1916, definem, entretanto, o perfil psicológico e literário de Mário de Sá-Carneiro. Essas cartas constituem, aliás, um dos melhores testemunhos pessoais da geração literária a que ambos pertencem, e nelas se fundamenta em boa parte o filme de João Botelho, Conversa Acabada. A regularidade com que a correspondência se desenvolve e a ansiedade que Mário de Sá-Carneiro nela deposita atestam uma confiança no amigo que terá sido certamente das poucas contrapartidas de um temperamento que dificilmente encontrava interlocutor: «As suas cartas, meu caro Fernando, essas são, pelo contrário, alguma coisa de profundamente bom que me conforta, anima, delicia – elas fazem-me por instantes feliz.» (carta de 7-1-1913). «É que você, meu querido Fernando Pessoa, é, em verdade completa, o meu único camarada.» (carta de 22-8-1915). Uma confiança que tinha a ver não só com a confissão das suas sucessivas crises psicológicas, mas ainda com a permanente necessidade de obter de F. Pessoa o veredicto final sobre os poemas e novelas que ia escrevendo.

Mário de Sá-Carneiro, cujas vida e emoções decorreram entre a «dor de ser quase» e a procura de um excesso dos sentidos, há-de ter tido consciência de como a linguagem paúlica convinha a uma necessidade de expressão que, se parte de motivos do simbolismo decadentista ou um tanto saudosistas, a partir da Confissão de Lúcio já requer procedimentos estilísticos que ultrapassam os da estética da saudade. «O fausto de Sá-Carneiro decorre num mundo de metáfora e sinestesia, em que só entra quem se resigna a perder o pé, em vez de o assentar sobre a verosimilhança, mesmo pomposa e distante» (Óscar Lopes, História Ilustrada das Grandes Literaturas - Literatura Portuguesa, 1973). E aí a sua «tão profunda intimidade com o Mistério» (José Régio, Líricas Portuguesas - Primeira Série), «a exploração de sentidos nossos desconhecidos, ou hipertrofia dos conhecidos», «o pendor a dispersar-se, a indefinir-se, a flutuar, a perder unidade e contornos a personalidade humana dum autor artisticamente tão personalizado», a «atracção do extraordinário e do esotérico» (José Régio, «O fantástico na Obra de Mário de Sá-Carneiro», in Ensaios de Interpretação Crítica, 1964) – tudo isso há-de ter encontrado ressonância no anseio de Álvaro de Campos de «sentir tudo e de todas as maneiras». Mas também há-de ter encontrado nele uma disciplina, porque, como nota João Gaspar Simões (História da Poesia Portuguesa do Século Vinte: acompanhada de uma antologia, 1959), «o que em Fernando Pessoa estava pensando, em Mário de Sá Carneiro sentia apenas». Ao que não será estranha a evolução da obra de Mário de Sá-Carneiro da ficção para a poesia: como se esta, pelo recurso à imagem, à metáfora, à própria contensão do verso, sem abdicar da espontaneidade do seu próprio imaginário viesse pôr a ordem possível no delírio às vezes um tanto «decorativo» de muitas das suas efabulações. Porque, curiosamente, este poeta que estigmatizou como nenhum a ambiguidade dos sentidos e dos afectos, a dissolução da identidade («Eu-Próprio o Outro»), a dimensão irreversível do tempo, num abismático «consumir de instantes» ou num narcísico saudosismo «das coisas que não foram», sofria, como nota Régio no artigo citado, tanto da sua atracção pelo esotérico como de uma só aparentemente contraditória «sedução do normal, do simples, do comum». E então, se é verdade que há em Mário de Sá-Carneiro inovações estilísticas que têm a ver com um abuso da adjectivação, «na liberdade de atribuições e sentidos impostos aos verbos, na esquisitice das imagens, etc.» (José Régio, «art. cit.»), ou com uma «sintaxe elíptica acidentada de exclamações, reticências, saltos bruscos de plano discursivo» (Óscar Lopes, op. cit.), a verdade também é que tem de reconhecer-se a «fidelidade (quase completa) dos seus poemas à versificação tradicional» (J. Régio, «art. cit.»).

O próprio Mário de Sá-Carneiro diz em 1913 sentir-se a «compor de dentro para fora». O que provavelmente significa – propõe ainda Óscar Lopes – «a passagem da arte narrativa planeada a partir da imaginação de casos-limites [...] para a arte lírica, onde os conflitos são assumidos por forma directamente pessoal, onde a fantasia se empenha em exprimir, e não já em explorar certas hipóteses até às suas últimas consequências fenomenológicas». Talvez por isso, a sua atitude é também cada vez mais confessional.

Da dissolução (dispersão...) da personalidade à nostalgia da inocência de menino que nunca deixou de o ser e à expressão de um nihilismo absoluto, foi um passo na meteórica vida deste homem que, num processo de crescente autodestruição, acaba injuriando-se a si mesmo como «O Esfinge Gorda» e cuja dilaceração interior talvez só pudesse ser resolvida mediante uma outra síntese, uma outra dimensão do tempo: o tempo concreto, real, comum, de todos nós, de ir saindo de uma adolescência a que não chegou a dar o tempo de sair. De mais esse exercício de paciência já não foi capaz esta que Óscar Lopes designa como «obra-prima de uma megalomania virada do avesso e que, afinal, só na sua aparente abjecção se resgata».

Situado entre Rimbaud, Cesário, António Nobre, Camilo Pessanha, Fernando Pessoa e o século que estava a nascer, e sendo Mário de Sá-Carneiro um caso singular, o seu drama não deixa de ser também o drama de uma geração a quem seduzia a modernidade de valores que em si mesmos continham o pressuposto da sua permanente interrogação. É ainda o tempo – o tempo da história e o tempo da nossa história literária – quem confirma a sua actualidade: o grupo da Presença (1927-1940) a editar-lhe os Indícios de Oiro (1937), a editora Ática a editar-lhe as Poesias (1946) e as Cartas a Fernando Pessoa (2 vols., 1958-1959); e os ensaios que, entre teses, biografias e fotobiografias, não deixam de lhe seguir o rasto como uma referência importante – e um estímulo – a acompanhar o itinerário pessoano. Registem-se nomeadamente, de entre a extensa bibliografia passiva de Mário de Sá-Carneiro, o catálogo da exposição comemorativa do centenário do seu nascimento – Mário de Sá-Carneiro (1890-1916), Biblioteca Nacional, 1990 –, O Modernismo em Mário de Sá-Carneiro, de Fernando Cabral Martins, Lisboa, 1994 e a reedição da sua obra e da correspondência com Fernando Pessoa.

Em 31 de Março de 1916, Mário de Sá-Carneiro escrevia a Fernando Pessoa: «Não me perdi por ninguém: perdi-me por mim, mas fiel aos meus versos.» Suicidou-se a 26 de Abril.
in Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, Vol. III, Lisboa, 1994

[actualizado em Maio de 2010]