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quarta-feira, 21-02-2018
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Biografia

Biografia
                  

Teófilo Braga  
[Ponta Delgada, 1843 - Lisboa, 1924]  

Teófilo Braga
Filho de um professor liceal e de uma senhora da melhor aristocracia açoriana, a sua infância e adolescência foram marcadas por vicissitudes que lhe moldaram o carácter. Órfão de mãe aos 3 anos, Teófilo encontrou na madrasta uma hostilidade constante, que lhe tornava penoso o ambiente familiar. Obrigado a depender muito de si mesmo e debatendo-se com prementes necessidades económicas, empregou-se como tipógrafo numa oficina local, onde ele próprio compôs o seu primeiro livro de versos, apropriadamente intitulado Folhas Verdes (1860), que havia publicado aos 15 anos em periódicos da terra.

O seu carácter tenaz e combativo forma-se nesta fase da sua vida, que exigia horizontes culturais mais amplos. Assim, no ano seguinte, amparado pelos parcos recursos que o pai consegue recolher, parte para Coimbra, onde se matricula na Faculdade de Direito. Aí, a mesada paterna vai revelar-se insuficiente. E Teófilo, que teve mau passadio, procurou superar as suas dificuldades, trabalhando como explicador. Em 1866 conclui com louvor o curso de Direito e dois anos depois (altura em que se casa) apresenta como dissertação inaugural para o acto de conclusões magnas a História do Direito Português: Os Forais (Coimbra, 1868), obtendo o grau de doutor.

Desde muito cedo mostrara o seu espírito uma insaciável avidez intelectual, à qual se juntava uma extraordinária capacidade de trabalho. Ciente do atraso que separava o País dos avanços da ciência e do saber na Europa culta, Teófilo participou com veemência na polémica literária «Bom Senso e Bom Gosto», alinhando com Antero de Quental contra Castilho. O seu opúsculo Teocracias Literárias (Lisboa, 1865) peca pelo tom acrimonioso com que censura o velho poeta, tendo deixado uma impressão desfavorável na opinião pública.

Estudioso assíduo de novas correntes de pensamento, Teófilo aprende com João Baptista Vico, cuja obra começara a ser divulgada em França por Michelet em 1827, com Friederich Creuzer e Hegel a interpretar as representações simbólicas colectivas e a entender a realidade dos mitos, das leis e das instituições civis, consideradas no seu devir. Devir este que Teófilo concebe dentro do evolucionismo de Herbert Spencer, assimilado ao progressismo comtiano. Particularmente sensível à força da tradição, manifesta na transmissão oral, que é a memória colectiva dos povos antes de esta haver qualquer fixação escrita, como Herder ensinara ao romantismo, e Edgar Quinet e Michelet o haviam reiterado, Teófilo examina a poesia popular, os costumes, as festas, que são hoje do foro da etnografia, com a atenção de um analista perspicaz e bem informado.

Em 1867, agudamente consciente da existência de uma grave lacuna na cultura pátria, Teófilo prometia, em nota ao Cancioneiro Geral, redigir uma história da literatura portuguesa desde as origens aos tempos modernos. O que então havia era, de facto, muito pouco e insuficiente. O Bosquejo da História da Poesia e Língua Portuguesa (1826) de Garrett, neste como em muitos outros domínios um brilhante precursor, era a única obra a oferecer uma visão de conjunto das nossas letras, já que as interessantes e eruditas Memórias de Literatura Portuguesa da Academia Real das Ciências tratavam apenas de aspectos pontuais.

O projecto anunciado em 1867 aparece definido nas suas linhas gerais na Introdução à História da Literatura Portuguesa, saída em 1870, ano em que dá também a lume o primeiro dos 4 vols. da História do Teatro Português, cuja publicação está concluída em 1871. No ano seguinte Teófilo concorre à cadeira de Literaturas Modernas do Curso Superior de Letras, lugar que obtém com a sua tese, Teoria da História da Literatura Portuguesa, publicada e revista em 1881 e refundida na Introdução e Teoria da História da Literatura Portuguesa em 1896. Aqui define o autor o método e a orientação seguida na sua história da literatura.

Discípulo de Augusto Comte e de Henri Taine, Teófilo recorre aos factores estáticos (raça, tradição, língua, nacionalidade) e aos factores dinâmicos ou de progresso (época literária e espírito inventivo das altas personalidades) para traçar o seu quadro evolutivo. O elemento moçárabe, predominante nas classes inferiores, é para o autor resultado do caldeamento de muitos outros (o romano, o celta, o germânico, o árabe) e o que melhor assimila as características individuais de cada um deles. E, por isso, nas criações dos povos peninsulares importa procurar o cunho étnico, que define o moçárabe, dentro das condições específicas da sua territorialidade. Ora, Portugal, situado na orla ocidental da Ibéria, voltado para o mar, recebe sucessivas influências culturais, que elabora no espírito das tradições, dos costumes e da experiência das suas gentes. No estrato moçárabe se enxerta, inicialmente, o elemento francês, trazido pelo conde D. Henrique. A continuidade administrativa do território mantida, durante gerações, nas mãos de uma poderosa família condal é o gérmen da autonomia. Mas o sistema da hegemonia cultural repete-se, sendo esta italiana no século XVI, espanhola no século XVII e inglesa no século XVIII. No século de 500, o domínio da cultura latina, favorecido pelos Jesuítas, como é apontado pelo autor noutras partes da sua obra, constitui um agente negativo no desenvolvimento da literatura portuguesa, cuja originalidade fica sufocada até 1820. Só quatro anos depois alcança ela a sua verdadeira identidade.

Dentro do esquema evolutivo adoptado, Teófilo considera os géneros literários como entidades orgânicas. E isto o leva a traçar apressadamente o processo de transição do mito, que anima a nossa literatura popular da Idade Média, para a epopeia, prejudicada entre nós, no século XVI, pela imposição do modelo clássico latino, que leva à ruptura com a tradição oral. Camões supera as contingências do tempo e as constrições do género por se inspirar num ideal superior.

Em conformidade com as directrizes traçadas, Teófilo dá-nos uma primeira redacção da História da Literatura Portuguesa em 12 vols. (Porto, 1870-1873). A investigação nos arquivos abre-lhe, porém, perspectivas sempre novas, obrigando-o a correcções e modificações sucessivas, vendo-se obrigado a apresentar uma versão refundida da História da Literatura Portuguesa (edição integral), Porto, 1896-1907, em 11 vols. O estudo biográfico minucioso que dedica a cada autor, as análises das correntes literárias e do movimento de ideias dos períodos em que esses escritores se inserem, as hipóteses de trabalho aí formuladas, constituem ainda hoje um precioso manancial de informação e de pistas a explorar. Mas o excesso do material acumulado tendia a obscurecer a perspectiva da obra e a desarticular a sua arquitectura.

Teófilo oferece-nos, então, uma síntese na qual toma em conta as críticas que lhe haviam sido dirigidas na História da Literatura Portuguesa (Recapitulação), em 4 vols., Porto, 1909-1918. Aqui se encontra definida com mais rigor a sua concepção da história literária nacional, constituindo a sua melhor obra sobre o assunto. A ela se deve juntar ainda a parte que, de parceria com Carolina Michaëlis de Vasconcelos, redigiu (Geschichte der portugiesischen Litteratur) para a Grundiss der romanischen Philologie, obra dirigida por Gustav Gröber (vol. 2, Estrasburgo, 1897, pp. 129-382). Faltava, porém, ao vasto panorama que traçara, o estudo do período contemporâneo. Teófilo procura preencher esse vazio, ao publicar as Modernas Ideias na Literatura Portuguesa (Porto, 1911). Completava, assim, um projecto em que consumira quase meio século de um labor ingente, deixando ao País o primeiro monumento da sua consciência literária.

Vistas à luz do nosso tempo e da investigação posterior, muitas das teses sustentadas por Teófilo são hoje inaceitáveis. A noção simplista da hegemonia cultural estrangeira em cada período da nossa história literária impediu-o de compreender a especificidade estética das obras nacionais, levando-o a generalizações abusivas. Certos juízos são demasiado redutores e levantam problemas que ficam sem resposta. Não se entende, por exemplo, como é que o latim exerceu uma acção nefasta na literatura portuguesa de 500, quando ele a não teve na Itália durante o mesmo período. E, se se compreende a sua censura aos Jesuítas pelo apoio que eles deram à ideia da monarquia dual na Península, a verdade é que nada nos diz da acção que desenvolveram a favor da Restauração. Encontram-se muitos hiatos na lógica do discurso crítico de Teófilo, que se redime, no entanto, pela cópia da informação e por comentários sagazes e ainda hoje reveladores. Esgotada durante muitos anos, a sua História da Literatura Portuguesa é reeditada a partir de 1980 por duas casas editoras de Lisboa.

Teófilo foi também um estudioso das instituições nacionais. A sua História da Universidade de Coimbra nas Suas Relações com a Instrução Pública Portuguesa (Lisboa, 4 tomos, 1892-1902) é um trabalho de mérito, onde examina o papel desempenhado por aquela Universidade na formação do nosso escol intelectual.

Historiador da cultura; poeta, autor de A Visão dos Tempos. Epopeia da Humanidade (1894-1895), inspirada pelo exemplo de Victor Hugo; divulgador do pensamento positivista [Traços Gerais da Filosofia Positiva Comprovados pelas Descobertas Científicas Modernas (1877)]; etnólogo; doutrinador político republicano, Teófilo é um espírito inquieto e ávido de saber, cuja obra está profundamente ligada à acção cívica e ao desejo de intervenção política.

Militante do Partido Republicano, logo após a proclamação da República, em 1910, Teófilo é escolhido para presidente do Governo Provisório. E em 1915 ocupa o cargo de chefe de Estado, por renúncia de Manuel de Arriaga. Mas o seu amor ao trabalho intelectual jamais o abandonou, até quando a cegueira o atormentava, tornando-lhe penosa a leitura e a escrita. Na antevéspera de morrer dita e assina, a 26-1-1924, a sua última carta, dirigida aos editores e expondo ainda planos de trabalho.
in Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, Vol. II, Lisboa, 1990