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terça-feira, 27-06-2017
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Biografia

Biografia
                  

Manuel António Pina  
[Sabugal, 1943 - Porto, 2012]  

Manuel António Pina nasceu no Sabugal, em 1943. É licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra. Entre 1971 e 2001 foi jornalista no Jornal de Notícias (Porto), onde igualmente desempenhou funções de editor e chefe de redacção. Tem colaboração dispersa por outros órgãos de comunicação social: República, Diário de Lisboa, O Jornal, Expresso, Jornal de Letras, Artes e Ideias, Marie Claire, Visão, Rádio Porto, RTP, Visão, Península (Barcelona), etc. Colunista culto e brilhante, irónico e de apurado sentido crítico, mantém uma colaboração quase diária no Jornal de Notícias, tendo publicado dois volumes com selecções das suas crónicas. Foi também professor da Escola Superior de Jornalismo do Porto e membro do Conselho de Imprensa. Dispersas por jornais e revistas, encontramos também traduções suas de Frei Luis de Léon, Jules Laforgue, T. S. Eliot, Paul Éluard e outros poetas.

Desde 1994, é autor de guiões para séries de ficção para televisão e algumas das suas obras foram adaptadas ao cinema, designadamente por João Botelho que igualmente ilustrou livros infantis do Autor. Mais de duas dezenas de produções teatrais foram baseadas em textos de Manuel António Pina, por iniciativa de diferentes companhias de teatro do país (com destaque para o Pé de Vento, do Porto, com o qual o Autor mantém uma colaboração estreita e antiga), o mesmo acontecendo com uma série infantil de doze episódios («Histórias com Pés e Cabeça», 1979/80). Foram ainda gravados vários discos com textos seus musicados, designadamente por Suzana Ralha, enquanto directora musical do Bando dos Gambozinos.

Como poeta, é uma voz marcante, de qualidade reconhecida pela crítica, cujos poemas se encontram traduzidos em diversas línguas. Obteve diversos prémios – não só pela sua poesia, mas também pelas crónicas e pelos livros infantis que publicou – e a sua obra tem sido objecto de vários estudos de fôlego, designadamente de índole académica. Em Maio de 2011, foi distinguido com o Prémio Camões, o mais alto galardão atribuído a escritores de Língua Portuguesa.

Seja nos domínios da poesia e da narrativa de ficção, seja na crónica ou na literatura para crianças e jovens, é inegável a coesão ideotemática existente em toda a escrita deste Autor, um dos casos mais originais da nossa produção literária para os mais novos, com títulos traduzidos em várias línguas.

Nesta área, e frequentemente marcado pela leitura de Lewis Carroll ou A. A. Milne, Manuel António Pina tem cultivado o conto (Histórias que me contaste tu, por exemplo) e a novela (Os Piratas), o texto dramático (O Inventão, entre outras obras) e a poesia (O pássaro da cabeça, Pequeno livro de desmatemática), sempre na linha de uma criação literária exigente, de recepção transgeracional e não exclusivamente infantil. Das tradições anglo-saxónica e surrealista herdou a atracção pelo nonsense (às vezes apenas aparente), aliando-o a um inteligente sentido crítico, ao humor e à desmontagem do estereótipo, bem como ao culto do paradoxo e do jogo linguístico, aspectos que não dispensam a exploração criativa de ambiguidades, equívocos e aspectos lúdicos da linguagem. Mas descobrimos, ainda, nesta escrita, certa dimensão social e politizante, que nunca a faz resvalar para a tentação propagandística. Assim acontece em O Têpluquê e também em O tesouro, um dos textos portugueses para crianças mais marcantes sobre o Portugal do salazarismo e do marcelismo e sobre o significado da Revolução de Abril de 1974, ou seja, sobre os valores da liberdade e da democracia. Por outro lado, clássicos como a Bíblia ou «O Capuchinho Vermelho» (versões de Perrault e de Jacob e Wilhelm Grimm) têm sido, por vezes, recriados (às vezes parodiados) em alguns dos seus contos, de um modo particularmente desafiador (veja-se A história do Capuchinho Vermelho contada a crianças e nem por isso e O cavalinho de pau do Menino Jesus e outros contos de Natal). Todos estes elementos (enriquecidos, por vezes, com alusões ao universo cultural e literário português, em princípio apenas acessíveis ao público adulto) têm contribuído para tornar extremamente singular uma obra que abrange, como foi dito, diversos géneros, incluindo a novela juvenil, como sucede em Os piratas. Em texto publicado no JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias de 13 de Abril de 1987, esta última obra mereceria a Manuel João Gomes a seguinte apreciação: «Ilustração fiel das grandes ideias do fantástico português. Tem nevoeiro e mar, ilhas e barcos, homens e duplos. Os piratas é uma das mais impressionantes narrativas sobre o tema do Duplo que já me foi dado ler em português. (...) Narrativa única no seu género, [é] uma boa oportunidade de o leitor tomar (ou retomar) o contacto com um dos mais inspirados poetas das últimas décadas.»

São de registar, por último, dois dos prémios obtidos por Manuel António Pina, na área da literatura para a infância: o Prémio Calouste Gulbenkian de Literatura para Crianças, atribuído a O Inventão, em 1988, e o Prémio Bissaya Barreto de Literatura para a Infância, com que foi galardoado, em 2010, O cavalinho de pau do Menino Jesus e outros contos de Natal.


Bibliografia selectiva: O país das pessoas de pernas para o ar (1973), Porto: A Regra do Jogo; Gigões & Anantes (1974), Porto: A Regra do Jogo; O Têpluquê (1976), Porto: A Regra do Jogo; O pássaro da cabeça (1983), Lisboa/Porto/Coimbra: A Regra do Jogo; Os 2 ladrões (1983), Porto: Afrontamento; Os piratas (1986), Porto: Areal; O Inventão (1987), Porto: Afrontamento; O tesouro (1993), Porto: APRIL e Associação 25 de Abril; Aquilo que os olhos vêem ou O Adamastor (1998), Porto: Campo das letras; Histórias que me contaste tu (1999), Lisboa: Assírio & Alvim; Pequeno livro de desmatemática (2002), Lisboa: Assírio & Alvim; Perguntem aos vossos gatos e aos vossos cães (fábula em um prólogo, cinco cenas e um epílogo) (2002), Lisboa: Assírio & Alvim; História com reis, rainhas, bombeiros e galinhas e A guerra do tabuleiro de xadrez (2004), Porto: Campo das Letras; A história do Capuchinho Vermelho contada a crianças e nem por isso por Manuel António Pina segundo desenhos de Paula Rego (2005), Porto: Fundação de Serralves; História do sábio fechado na sua biblioteca (2009), Lisboa: Assírio & Alvim; O cavalinho de pau do Menino Jesus e outros contos de Natal (2009), Porto: Porto Editora.
[José António Gomes]
01/2011