Ignorar Comandos do Friso
Saltar para o conteúdo principal
domingo, 30-04-2017
PT | EN
República Portuguesa-Cultura Homepage DGLAB

Skip Navigation LinksPesquisaAutores1

Biografia

Biografia
                  

Ilse Losa  
[Buer (Hanover), Alemanha, 1913 - Porto, 2006]  

De origem alemã e ascendência judaica, Ilse Lieblich Losa nasceu em 1913, em Bauer, cidade próxima de Hanover, e morreu no Porto, em 2006. Tendo vivido a primeira infância com os avós paternos, frequentou o liceu em Osnabrük e Hildesheim e o Instituto Comercial em Hanover. Ao regressar à Alemanha, após um período em Londres tomando conta de crianças, vê-se obrigada a abandonar o país, dada a sua condição de judia. Escapa desse modo à perseguição nazi e, chegada a Portugal em 1934 (ano em que Hitler assume o poder na Alemanha), radica-se no Porto, casando com o arquitecto Arménio Losa e adquirindo a nacionalidade portuguesa.

Inicia, então, uma vasta obra escrita em português, a qual abrange romances inspirados, ou pelo menos enraizados, na sua experiência de vida – como O mundo em que vivi, 1949, Rio sem ponte, 1952, Sob céus estranhos, 1962 (vívido retrato, também, do Porto dos anos trinta e quarenta) –, além de contos, crónicas, trabalhos de índole pedagógica (Nós e a criança, 1954) e sobretudo literatura para crianças. Traduziu para português autores alemães, colaborou em diversos jornais e revistas e foi também uma divulgadora da literatura portuguesa na Alemanha. Em 1984 recebeu o Grande Prémio Gulbenkian, pelo conjunto da sua obra para crianças e, em 1998, o Grande Prémio de Crónica, da Associação Portuguesa de Escritores, pelo livro À flor do tempo (1997).

Revelando permanente abertura à diversidade temática, de géneros e de perspectivas que deve caracterizar a produção literária para crianças, foi a partir de finais dos anos quarenta do século XX que Ilse Losa contribuiu, com os seus contos, recontos de histórias tradicionais e peças de teatro (por exemplo A adivinha: peça em quatro quadros, 1.ª ed.: 1967; 2.ª ed. refundida: 1979), para a renovação da literatura portuguesa para crianças, enveredando muitas vezes por uma via «realista», de acentuada envolvência social, mesmo quando a voz que narra é a de um animal antropomorfizado, como sucede em Faísca conta a sua história (1949). Mas imbuiu também a ficção de dilemas morais e espírito crítico, sonho e sentido de esperança, numa escrita coloquial e despojada, pontuada contudo por expressivas comparações e prosopopeias e marcada por um uso rigoroso do adjectivo. Uma escrita que se abriu também ao maravilhoso, ao humor (v. Bonifácio, 1980) e a uma fantasia de cunho onírico (Viagem com Wish, 1984), sem nunca se esquivar a temas «problemáticos» como a guerra, a perseguição política e a tortura. Veja-se, a este propósito, o conto «Apesar de tudo», de A minha melhor história, ou ainda Silka, que é difícil não ler como parábola focada na questão da intolerância étnica e como dolorida meditação sobre o destino do povo judeu. De referir ainda que Ilse Losa dissertou sobre o livro para crianças e sobre temas pedagógicos em várias das suas crónicas jornalísticas, tendo sido pioneira no ensino da literatura para a infância no nosso país.

Beatriz e o plátano (1976) (livro editado numa histórica e notável colecção de livros infantis que ela própria dirigiu – ASA Juvenil –, e que revelou muitos jovens autores, nas décadas de setenta e oitenta) é uma das primeiras narrativas portuguesas para crianças animadas do espírito do 25 de Abril, evidenciando também pioneiras preocupações ambientais e cívicas. Várias vezes reeditados até à sua morte e posteriormente, livros de Ilse Losa como Faísca conta a sua história, Um fidalgo de pernas curtas (1961), Um artista chamado Duque (1965), O quadro roubado (1977) (que não anda longe da estrutura do relato policial, aspecto em que a Autora foi pioneira, na nossa literatura para os mais novos), a par de O senhor Pechincha (a 1.ª ed. de que temos conhecimento data de 1973, encontrando-se este conto incluído na 2.ª ed. da colectânea Um fidalgo de pernas curtas e outras histórias, com ilustrações de Júlio Resende) e ainda A minha melhor história (1979) e Silka (1984) constituem marcos na história da literatura portuguesa para a infância e juventude. O último original para crianças que publicou em vida, O Rei Rique e outras histórias (1989; reeditado em 2006 pela Porto Editora), traz-nos cinco contos breves e divertidos, impregnados de fantasia, a que não falta uma crítica fina e actual a certos comportamentos sociais e até a respeitáveis instituições. Coloquial e discretamente desafiadora, a escrita de Ilse Losa irmana-se nesta última obra com as aguarelas e colagens de um grande pintor, Júlio Resende, que mais do que uma vez ilustrou os textos de Ilse e se afirmaria pela sua criatividade na ilustração de livros para crianças.

É de referir ainda que O quadro roubado foi incluído em The White Ravens – 87: A Selection of International Children's and Youth Literature (da Biblioteca da Juventude de Munique) e adaptado em episódios para televisão por António Torrado.

Hoje, esta escritora merece sobretudo que bibliotecas e escolas (designadamente as do Porto, cidade que a «adoptou») dêem destaque aos livros que nos deixou, encontrando modos de continuar a dar a lê-los aos mais novos, mantendo assim esta escrita viva e actuante. É que Ilse Losa foi, a vários títulos, uma voz inovadora e, a partir de 1949, concorreu, de maneira decisiva, para a renovação da literatura portuguesa dirigida aos mais pequenos. Foi, ademais, assumida antifascista e democrata, que, a partir de finais dos anos trinta, conviveu com uma notável plêiade de homens e mulheres que dinamizaram – com todas as dificuldades impostas pelo salazarismo – a vida cultural, literária e cívica do Porto entre a década de quarenta e o 25 de Abril de 1974. Entre essas mulheres e homens, contam-se Óscar Lopes (que muito apreciava Ilse e sobre ela escreveu), Henrique Alves Costa, Augusto Gomes (que ilustrou a primeira edição de Faísca conta a sua história), Luísa Dacosta, Egito Gonçalves, Papiniano Carlos, Luís Veiga Leitão, António Rebordão Navarro e tantos outros.


Bibliografia selectiva: Um fidalgo de pernas curtas (1958), Porto: ASA, 1980; Um artista chamado Duque (1965), Porto: ASA, 1990; A adivinha (1967), Porto: Afrontamento, 1994; Beatriz e o plátano (1976), Porto: ASA, 1992; O quadro roubado (1977), Porto: ASA, 1985; A minha melhor história (1979), Porto: Nova Crítica; Na Quinta das Cerejeiras (1981), Porto: ASA; Silka (1984), Porto: Afrontamento, 1988; Ana-Ana (1986), Porto: ASA; O rei Rique e outras histórias (1989), Porto: Porto Editora.
[José António Gomes]
02/2012