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domingo, 30-04-2017
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Biografia

Biografia
                  

Vergílio Ferreira  
[Gouveia, 1916 - Lisboa, 1996]  

Vergílio António Ferreira nasceu em Melo (Gouveia), a 26 de Janeiro de 1916, e faleceu em Lisboa, a 1 de Março de 1996. Em 1920, os pais emigram e Vergílio Ferreira é entregue, juntamente com os seus irmãos, aos cuidados de tias maternas. Em 1922, com dez anos de idade, ingressa no Seminário do Fundão onde permanecerá até 1932. Em 1940, conclui a licenciatura em Filologia Clássica, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Tendo sido professor do ensino secundário, foi como escritor que se distinguiu no panorama da literatura portuguesa a partir dos anos quarenta do século XX.

Com uma Obra que se inscreve no modo narrativo, e se situa entre, por um lado, o Neo-realismo (constituindo Manhã submersa, de 1955, um exemplo modelar da apropriação do romance presencista da adolescência pelos neo-realistas, segundo alguma crítica) e, por outro lado, o Existencialismo (principalmente a partir de Aparição, de 1959), cultivou intensamente o romance, o ensaio e o diário, mas também o conto, ainda que de forma mais marginal.

Em 1972, Vergílio Ferreira publica, para leitores adultos, Apenas homens – onde se insere o conto A estrela, aconselhado para leitura orientada nos programas de Língua Portuguesa do 3.º Ciclo do Ensino Básico. Em 1988, a Quetzal publica, em livro autónomo, o conto, ilustrado por Júlio Resende – figura maior da pintura e da ilustração portuguesas – e confere-lhe assim uma dimensão paratextual própria de livro infantil.

Em A estrela, um narrador heterodiegético, activando uma focalização interna que dá a conhecer o olhar do protagonista, conta a história de Pedro – um menino de sete anos –, o qual, num dia, à meia-noite, resolveu subir ao alto da torre da Igreja para roubar uma estrela que se singularizava pelo seu brilho intenso. Na aldeia, descobrem que roubaram a estrela – que era de todos – e Pedro é obrigado pelo pai a repô-la no céu. Pedro restitui o astro de que se apropriara indevidamente, mas cai da torre da Igreja e morre.

Uma narrativa, pois, que apresenta múltiplas possibilidades de trabalho no âmbito da diáctica do texto e que, pela sua brevidade, permite, desde logo, introduzir noções relativas quer aos modos arquetípicos, quer à arquitectura do género conto. Por outro lado, A estrela autoriza um estudo da textualização do discurso através da análise dos investimentos retórico-estilísticos e semânticos que corporizam esta narrativa passível de ser lida pela infância e a juventude, como, por exemplo, o recurso a determinadas estruturas sintácticas e respectivas figuras que resultam em processos expressivos (frases copulativas, paratácticas, perifrásticas que promovem certos ritmos e, consequentemente, acentuam ou relativizam os momentos dramáticos); a marcada presença do discurso indirecto livre a conferir, por um lado, maior fluidez à narrativa, mas também um vínculo psicológico entre o narrador e a personagem central (incrementado pela presença conjunta dos discursos indirecto e directo); ou a presença de marcadores conversacionais, como «Oh, muito maior. E de outro feitio, já se vê» (p. 16), «não sabia bem porquê» (p. 16), «Vê é se tiras» (p. 18), «Há-se saber quem foi o filho da mãe que é para malhar ali com o coirão na cadeia!» (p. 21), «Olha eu agora a ralar-me» (p. 22), que cooperam, a par das escolhas lexicais, na realização de um tom oralizante. Por estes exemplos processuais, A estrela apresenta-se como um texto dialogante, que potencia o desenvolvimento de competências linguísticas, comunicativas e literárias. Por outro lado, consente uma leitura simbólica progressiva que se enceta em parte do paratexto – o título A estrela – (clarificando-se na situação inicial), complexifica-se no segundo momento da diegese, correspondente à transgressão, e se confirma no terceiro e último momento – o restabelecimento da ordem – com a morte do protagonista. Admitindo várias possibilidades interpretativas, este desfecho tragicamente surpreendente, à semelhança de um castigo, aponta para uma punição da sede de absoluto, da não aceitação, como se lê em Do mundo original «do estrito reduto que nos pertence», com uma descida aos infernos, à semelhança de Ícaro ou de Prometeu.


Bibliografia selectiva: A estrela (1988), Lisboa: Quetzal.
[Ana Cristina Vasconcelos]
02/2012