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domingo, 30-04-2017
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Biografia

Biografia
                  

Ilse Losa  
[Buer, Hanover, Alemanha, 1913 - Porto, 2006]  

Ilse Losa
De ascendência judaica, nasceu na pequena aldeia de Buer, distrito de Osnabrück, perto de Hannover, onde residiu com os avós durante a primeira infância. Mais tarde, foi viver com os pais e irmãos, tendo completado os estudos liceais em Osnabrück e Hildesheim.

Durante o ano de 1930, esteve em Inglaterra, e aqui se iniciou, em contacto com escolas infantis, na problemática da criança, de que resultou, posteriormente, a publicação de vários trabalhos, nomeadamente Nós e a criança. Quando regressou à Alemanha, começou a sentir as primeiras perseguições policiais, o que a obrigou a interromper a frequência do Instituto Comercial, em Hannover, e a perder sucessivos empregos. O facto de ter sido submetida a um esgotante interrogatório, em 1934, deve ter condicionado a decisão de se exilar porque, nesse mesmo ano (recorde-se, o ano que Hitler tomou conta do poder) chega a Portugal «num barco miserável e superlotado de escorraçados.» O resto da família seguiu o mesmo itinerário, mas só a escritora por aqui ficou, ao ter casado com o arquitecto Arménio Losa.

Radicada na cidade do Porto, foi nos finais da década de 40 que a Vértice e depois Os nossos filhos e a Seara nova lhe publicaram os primeiros trabalhos, tendo acabado por colaborar na maioria dos nossos jornais e revistas. Romances, contos, crónicas, ensaios de pedagogia e psicologia infantil, teatro e narrativas para a infância formam o conjunto da sua obra. Foi também tradutora de autores alemães e, para a língua alemã, de escritores portugueses. Alguns dos seus livros estão publicados no estrangeiro.

Em 1982, a Fundação Gulbenkian premiou-lhe o livro para crianças Na Quinta das Cerejeiras e, em 1984, recebeu o Grande Prémio Gulbenkian pelo conjunto da obra dirigida ao mundo dos pequenos. Mais tarde, em 1989, vê o seu livro Silka ganhar o Prémio Maçã de Ouro da Bienal Internacional de Bratislava pelas ilustrações de Manuela Bacelar

De facto, I. Losa sobressai na área da literatura infantil, tendo realizado, até à data, uma série de vinte títulos, de que podemos destacar Faísca conta a sua história (1949), A flor azul (1955), Um fidalgo de pernas curtas (1961), Duas peças infantis (1962), Um artista chamado Duque (1965), A adivinha (1967), O Sr. Pechincha (1979) e O expositor (1982).

São todos eles escritos numa linguagem muito simples, terna, onde sobressai o poético, sem contudo deixar de mostrar a crueza da realidade. O pendor pedagógico estará sempre presente, assim como o sentido das suas próprias vivências. Neste último aspecto, salientamos Silka, o onírico e simbólico, elaborado a partir do que mais a magoou – a rejeição e perseguição dos seus semelhantes (os habitantes da aldeia) e o não reconhecimento da sua intrínseca individualidade por parte dos familiares. A metamorfose dos seus heróis em «insólitas criaturas» foi-lhe assim imposta, por razões de verdade, transformados em seres anfíbios, habitantes de dois mundos. Esta experiência de dupla «refugiada» está bem patente em Silka, quando a querem obrigar a revelar «O nome!?» do ser que ama, ou quando, finalmente, a expulsam juntamente com os filhos: «Longe de nós! Malditos!» «Ninguém em redor. Ninguém. Só o silêncio.», são as últimas palavras com que acaba esta comovente história.

Na verdade, é pela leitura da sua obra que vamos detectando e confirmando o desfasamento entre o que sonhou e o que lhe foi permitido viver – entre uma avó austera e fria, demasiado preocupada com a sobrevivência, e a ternura que recebia do avô; entre uma mãe distante e a morte prematura do pai; entre as humilhações dos seus colegas de estudo, a destruição dos laços afectivos e o exílio; entre a acutilante sensação de estar no «outro lado do social» e a de viver numa terra onde mal se reconhece. Tudo isto está presente em O Mundo em que vivi, em Rio sem nome, em Aqui havia uma casa, em Sob céus estranhos. O insustentável e horrível pano de fundo nazi, que cimenta as suas narrativas, não é portanto suficiente para explicar, na A., o pungente sentimento de se sentir sempre estrangeira, de sofrer de saudade de uma pátria inexistente, ou a sua odisseia interior em demanda continuada de «uma outra terra...», mas foi tudo isto que orientou a escritora para o documento autobiográfico, referencial e descritivo, quase sempre na primeira pessoa e construído na base da analepse, evocando recorrentemente vivências do passado.

Não podemos deixar, porém, de nomear as admiráveis narrativas, contundentes de emoção, que são O mundo em que vivi e Aqui havia uma casa, e os belos textos poéticos, poemas em prosa, como O Sr. Leopardo, O colar vermelho, entre vários outros. Poderemos dizer assim, na globalidade, que I. Losa utilizou sempre uma linguagem muito simples e imediata, presentificando a sua infância, a dorida adolescência e os primeiros anos da vida adulta, retrato de um universo espoletado pelas perseguições e que acabou no horror, na deportação e na asfixia, o que deve ter impossibilitado um possível reencontro consigo mesma. Tenho «as mãos vazias... de tudo» e «acordo com o meu próprio grito», palavras de personagens suas, explicitarão, talvez, a massa submersa do icebergue que sobrenada nos seus livros.
in Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, Vol. IV, Lisboa, 1997