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quarta-feira, 21-02-2018
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A libertação

A libertação

​Conto de João Ameal (1902-1982), publicado na Ilustração Portuguesa, em agosto de 1918.


A Libertação

Todos extranhavam aquele homem, na trincheira de Z... Era um concentrado, um misantropo, um solitário. Passava sempre, muito soturno na sua expressão carregada, muito triste na fixidez dolorosa dos seus olhos escuros. Nunca o tinham visto sorrir, senão em dias de combate. Então, tornado subitamente alegre e sociável, vinha para junto dos companheiros, sustentava uma conversa animada em que brilhava por vezes um lampejo claro d'espirito. Nos momentos mais angustiosos e perigosos da batalha, encontravam-no sempre na primeira linha, cantando, e a arremeter, n'uma anciã doida, frenética, nervosa... Parecia deixar-se embalar na griserie estonteadora do extreminio e da lute. Ou então, talvez – quem sabe? – quisesse procurar a morte...

Mas a morte ainda não tinha querido responder-lhe ao chamamento. Escapava sempre aos tiros e ás baionetas adversarias, coberto de gloria. E era então que o seu aspéto mais se melancolizava ainda, como se não perdoasse ao Destino fazel-o durar tanto...

Á sua volta, nas semanas intermináveis de quietação que por vezes se seguiam, n'uma monotonia inalterada e aborrecida, falava-se d'ele, discutia-se o seu viver isolado, extranhava-se o seu procedimento... Porque, emfim, naquele grupo heroico de poilus, imperava sempre a maior despreocupação, o maior desprezo pela morte. Passavam-se os dias a rir e a dizer graças. Atores da Grande Tragedia, eles faziam o possível por se esquecer do sinistro ambiente e procurar no fundo dos seus espíritos e dos seus corações sugestões animadoras e incitamentos fortes... Só aquela creatura sombria lançava a sua nota funesta na trincheira de Z... Só ele parecia não saber gargalhar e não saber ser humorista, a dois passos das trincheiras boches!... E comtudo nada se podia dizer d'ele, quanto ao seu valor, á sua coragem. Era inexcedível d'audácia e de desprendimento. Quando se avançava, era o primeiro a gritar um viva triunfante sobre o terreno inimigo conquistado. Quando se retirava era o ultimo a ceder, lentamente...

Porquê toda a sua tristeza funda? Saudades? Todos os soldados as teem e procuram esquecêl-as. Temores? Estava bem provado que não. Uma obsessão terrivel, amarga, cruel? Mas então, que mistério seria aquele?...


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O Misterio era simples – simples como tudo o que é irremediavel. O homem tivera uma educação desleixada e prejudicial. Era d'uma d'essas familias que o mundo moderno dilacera e que se separam, se dividem, se dispersam á briga terrivel da Fatalidade, exatamente come le foglie... Pervertido muito cedo ainda, arruinado em jogos proibidos, começou a viver de estratagemas. Os seus dias principiaram a ser escurecidos de desonra e de ignominia. Descia sempre, pouco a pouco, para a ruina completa, para o lôdo supremo da miseria moral...

Um dia, o desenlace consumou-se, sinistro. n'um fait-divers banal de jogo, depois d'uma altercação, atirou duas balas sobre o usurário impiedoso. Depois tinha ido expiar, para as galés, o seu tremendo crime. Mas não era o anel de ferro da justiça que lhe pezava mais. Era o anel de fogo que lhe apertava, pavorosamente, a consciencia... Em vez de ser o grilheta dos trabalhos forçados, sentia-se, muito mais torturantemente, o grilheta do remorso...

Anos decorreram, vagarosos, tragicos. Por fim, cumprida a pena, o condenado pôde voltar á Europa. E fôra justamente então que a guerra, surpreendendo-o, lhe puzera ao ombro uma espingarda e o atirara para a cova das trincheiras...

E por isso é que o homem perpassava como uma sombra negra, sem um sorriso e sem uma expansão, perpetuo escravo do seu passado d' horror...


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Mas um dia a sorte apiedou-se d'ele. Foi uma vaga de assalto em que o pelotão se encarniçava, feroz, por arrebatar uma aldeia ao inimigo. Assobiavam os tiros em volta, o seu assobio fatídico. Os gemidos dos agonisantes elevavam-se para o ar – cântico medonho de sofrimento – misturados com o tinir estridente e agudo dos metaes entrechocados. Coloria-se a terra, dolorosamente, de sangue vivo, borbulhante, a palpitar... O soldado ia á frente de todos como de costume, a espalhar o aniquilamento á sai volta, quando uma bala o atingiu. Uma torrente rubra golfou-lhe logo da boca. Fez-se branco como o alabastro. Caiu, inteiriçado, com um grande ar calmo de paz... O seu fim fôra uma libertação. A morte, providencial, expulsara o Remorso e trouxera consigo o esquecimento...


Coimbra, Julho, 1918
João Ameal




in Ilustração Portuguesa, 2ª. série, nº. 651, 12 de agosto de 1918

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