«Terminára toda essa longa e fatigante espectativa.
Com fundamento, ou sem fundamento, a afirmação de que o regimento d’infantaria 18 em breve se encorporaria nas forças sublevadas passava de bocca em bocca, e, em harmonia com esse boato, foram essas forças, Rua do Almada a baixo, em direcção á Praça de D. Pedro. Ahi occupariam o edificio dos Paços do Concelho, onde se faria a declaração da deposição do rei e a de que estava proclamada a Republica.
Effectivamente, o capitão Leitão, tendo feito formar na testa da columna a Guarda Fiscal e, seguidamente e por sua ordem, os regimentos de caçadores nº. 9 e de infantaria nº. 10, mandou marchar.
A banda, quasi completa, do regimento d’infantaria nº. 10, com alguns musicos de caçadores nº. 9, sob a direcção do musico de 1ª. classe d’infantaria nº. 10, Eduardo da Silva, abria a columna, tocando a Portugueza, de Alfredo Keil.
Desde que as forças começaram a marchar, sentia-se desaparecer a oppressão que invadira todos os espiritos n’essas longas tres horas em que, ou fóra ou dentro do quartel, se tentara que o regimento d’infantaria nº. 18, devidamente commandado, viesse augmentar as forças da Revolta. O que se seguiria depois, parecia não preoccupar os espiritos. Acreditava-se firmemente que o regimento d’infantaria nº. 18 estava inclinado a apoiar a Revolta. Se assim fosse nenhuma duvida poderia offerecer o triumpho da Republica; não porque a força do regimento d’infantaria nº. 18 désse ás tropas insurreccionadas uma superioridade notavel sobre as da Guarda Municipal, mas pela alta significação que teria, não só para a população civil, mas para o Quartel General, o facto de as tropas sublevadas serem commandadas por um coronel e muitos officiaes.
Era evidente que, se esse acontecimento viesse a realisar-se, as adhesões seriam innumeraveis. Ninguem teria duvidas em acceitar os factos consummados; as garantias de victoria eram indiscutiveis; a resistencia da Guarda Municipal seria nulla, sem contestação; a ordem estava assegurada.
Animadas d’uma doce esperança, as tropas revolucionarias, ladeadas por immensa multidão, seguiram para a Praça de D. Pedro.
Rompia a manhã.
Ao longo da Rua do Almada, desfilava a columna em formação regulamentar e desciplinadamente.
As janellas estavam todas abertas e os habitantes que já tinham conhecimento de que a guarnição militar da cidade sahira dos quarteis para proclamar a Republica, recebiam a noticia com manifesto aprazimento. E assim, á medida que as forças da Revolta iam descendo a rua, ás saudações que erguia o povo que as acompanhava, correspondiam as janellas, gritando: − Viva a Republica! − Viva o exercito portuguez! − Acenavam com lenços, davam palmas, n’uma grande expansão de alegria que punha nos corações um suavissimo calor e nos labios um sorriso de triunpho.
Nunca tão espontanea e tão calorosa manifestação se produziu na bella cidade do Norte. Nunca o Porto, a cidade do trabalho e das grandes virtudes civicas, fez tão enthusiastica acclamação a um exercito vitorioso, porque nunca esteve mais identificado com a ideia que esse exercito vinha proclamando.
[…]»
João Chagas e ex-tenente Coelho, História da revolta do Porto de 31 de Janeiro de 1891, Lisboa: Empresa Democrática de Portugal, 1901, pp. 327-9