Biografia

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João Falcato  
[Borba, 1915 - Borba, 2007]  

Licenciado em Ciências Históricas e Filosóficas pela Faculdade de Letras de Coimbra, da vivência universitária tira matéria para um segmento importante da sua obra, na linha de Trindade Coelho e Branquinho da Fonseca, entre outros. É o caso, assim, de Coimbra dos Doutores (1957), em que evoca o curso de 1942-1947, com altos relevos para condiscípulos – Carlos de Oliveira, por exemplo – ou professores como Paulo Quintela e o seu Teatro de Estudantes da Universidade de Coimbra. Outros momentos e figuras do Mondego ressurgirão em Palácios Confusos, s.d. [1965].

De origem humilde, foi prefeito num colégio de Lisboa para custear os estudos liceais e, já na Faculdade, foi, como 3º. piloto, trabalhar a bordo do cargueiro Mello, que partia de Lisboa a 13 de Agosto de 1943 com destino à Argentina. No regresso, quando contavam os dias para chegar a Cabo Verde, declara-se fogo, e uma explosão destrói bens e mata quinze marinheiros. A narrativa da infância e amadurecimento, o pavor de, nesse transe, perder a vida («Quero viver. Tenho vinte anos.») – são dados no livro de estreia, Fogo no Mar (1945), que começa por ser um capítulo na página literária do Diário de Coimbra, a pedido de Joaquim Namorado, e se transforma num êxito de emoção e de mercado, na colecção dos Novos Prosadores de que emergiria o neo-realismo português.

Três dias e três noites sobre uma baleeira, carnes queimadas e a tarefa macabra de atirar ao mar companheiros mortos, até que são salvos por navio suíço e recuperam no Rio de Janeiro, tudo isso perpassa, agora, ainda sob um fluxo que recorda partes da História Trágico-Marítima, em a A Baleeira (1958). A experiência faz-se conselho em A Assistência na Marinha Mercante, 1951.

Diplomado, torna-se professor em colégio alentejano. Dirige (1955) Brados do Alentejo – editara, em 1936-1937, o semanário regionalista Montes Claros –, onde já cronicava «em louvor da açorda», sobre «migas», dava «loas ao vinho de Borba» (cuja adega cooperativa fundou e dirigiu), aos «bonecos de Estremoz, malgas de Redondo e potes de Niza», alguns dos assuntos que integrariam título entretanto escolhido por Sebastião da Gama, Elucidário do Alentejo (1953). Este segmento alentejano revê-se em Roteiro do Amor (1955), com revisitação de lugares e, só excepcionalmente, alguma saudação estranha (caso de José Lins do Rego).

Segue-se a docência do Português em Munique, de que resulta, em 1957, A Alemanha Actual. Estas «impressões de uma Alemanha após a derrota» constituem peregrinação por cidades e alguns estigmas germânicos, com elogio do «trabalho, remédio de sempre», e uma invencível Saudade de Portugal, título de 1958. Nesta linha de divulgação, e destinadas ao ensino primário, à educação permanente e ao público juvenil, estão obrinhas sobre A «Peregrinação» de Fernão Mendes Pinto (1967), Fernão Lopes (2ª. ed., 1973) e Entre Gatos e Pardais (1996).

Tradutor e prefaciador de autores franceses, é, ainda, antropólogo a não descurar na temática angolana (Angola do Meu Coração, 1961; As Raízes de Angola, 1962), dentro de um percurso intelectual que o levaria da filiação nos pressupostos ideológicos do neo-realismo ao seu inequívoco distanciamento.
in Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, Vol. IV, Lisboa, 1997
 
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