Dia Mundial do Livro 2005

Dia Mundial do Livro 2005 
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Dia Mundial do Livro 2005 - Bicentenário da Morte de Bocage 

Bicentenário da Morte de Bocage

Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão n' altura,
Triste de facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio e não pequeno;

Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura,
Bebendo em níveas mãos por taça escura
De zelos infernais letal veneno;

Devoto incensador de mil deidades
(Digo de moças mil) num só momento,
E somente no altar amando os frades;

Eis Bocage, em quem luz algum talento:
Saíram dele mesmo estas verdades
Num dia em que se achou mais pachorrento.


Bocage, Obra Completa, volume I - sonetos, edição de Daniel Pires, Lisboa, Edições Caixotim, Obras Clássicas da Literatura Portuguesa, 2004.

Já se afastou de nós o Inverno agreste
Envolto nos seus húmidos vapores,
A fértil Primavera, a mãe das flores
O prado ameno de boninas veste.

Varrendo os ares o subtil Nordeste,
Os torna azuis: as aves de mil cores
Adejam entre Zéfiros e Amores,
E toma o fresco Tejo a cor celeste.

Vem, ó Marília, vem lograr comigo
Destes alegres campos a beleza,
Destas copadas árvores o abrigo.

Deixa louvar da corte a vã grandeza:
Quando me agrada mais estar contigo
Notando as perfeições da Natureza!


Bocage, Obra Completa, volume I - sonetos, edição de Daniel Pires, Lisboa, Edições Caixotim, Obras Clássicas da Literatura Portuguesa, 2004.

A frouxidão no Amor é uma ofensa,
Ofensa que se eleva a grau supremo:
Paixão requer paixão, fervor e extremo
Com extremo e fervor se recompensa.

Vê qual sou, vê qual és, vê que dif'rença!
Eu descoro, eu praguejo, eu ardo, eu gemo,
Eu choro, eu desespero, eu clamo, eu tremo,
Em sombras a Razão se me condensa.

Tu só tens gratidão, só tens brandura,
E antes que um coração pouco amoroso
Quisera ver-te uma alma ingrata e dura.

Talvez me enfadaria aspecto iroso,
Mas de teu peito a lânguida ternura
Tem-me cativo, e não me faz ditoso.


Bocage, Obra Completa, volume I - sonetos, edição de Daniel Pires, Lisboa, Edições Caixotim, Obras Clássicas da Literatura Portuguesa, 2004.

Nascemos para amar: a Humanidade
Vai tarde ou cedo aos laços da ternura;
Tu és doce atractivo, ó Formosura,
Que encanta, que seduz, que persuade.

Enleia-se por gosto a liberdade
E depois que a paixão n'alma se apura,
Alguns então lhe chamam desventura,
Chamam-lhe alguns então felicidade.

Qual se abisma nas lôbregas tristezas,
Qual em suaves júbilos discorre,
Com esperanças mil na ideia acesas.

Amor ou desfalece, ou pára, ou corre,
E, segundo as diversas naturezas,
Um porfia, este esquece, aquele morre.


Bocage, Obra Completa, volume I - sonetos, edição de Daniel Pires, Lisboa, Edições Caixotim, Obras Clássicas da Literatura Portuguesa, 2004.
 
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