Dia Mundial do Livro 2003

Dia Mundial do Livro 2003 
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Dia Mundial do Livro 2003 

*Selecção bibliográfica de Paula Moura Pinheiro

CARL SAGAN (1934-1996)
Cosmos

Tradução de Jorge Branco, Gradiva, 1997

"Somos a encarnação local de um Cosmos que toma consciência de si-próprio. Começámos a contemplar as nossas origens: pó de estrelas meditando acerca das estrelas; ajuntamentos organizados de dez mil biliões de biliões de átomos analisando a evolução do átomo; descobrindo a longa caminhada que, pelo menos para nós, levou ao aparecimento da consciência. Devemos a nossa lealdade às espécies e ao nosso planeta. Somos nós que nos responsabilizamos pela Terra. Devemos a nossa obrigação de sobreviver não só a nós próprios, mas ao Cosmos, vasto e antigo, de onde despontámos."

O mais extraordinário em Carl Sagan era o visível prazer que sentia na partilha do conhecimento. A generosidade e o entusiasmo que punha na divulgação do saber científico, concretamente da astrofísica. O projecto "Cosmos", como ele lhe chamava, traduziu-se na série para televisão e no livro (1980) que fizeram mais pela promoção da cultura científica das massas que um século de escolaridade obrigatória. Eminente professor de Astronomia e de Ciências do Espaço, brilhante apresentador de programas de televisão, autor e co-autor de mais de 20 livros (recebeu o prémio Pulitzer em 1978), distinguido com inúmeros galardões e responsabilidades, Sagan foi o melhor professor de ciências do séc. XX. As suas inúmeras lições levam-nos em aluciantes viagens interestelares com uma alegria que não é deste mundo. Parafraseando um dos títulos dos seus livros, o director do departamento de Astronomia da Universidade de Cornell, onde se formou e onde leccionou nos últimos 20 anos da sua vida, disse quando ele morreu, precocemente, aos 62 anos: "Carl was a Candle in the Dark."

SALMAN RUSHDIE (1947)
Nicarágua - O Sorriso do Jaguar

Tradução de Ana Luísa Faria, Publicações Dom Quixote, 1998

"Encontrei Cardenal na casa de banho de Esperança Somoza. O Ministério da Cultura ocupa a antiga residência do ditador, e o gabinete do ministro, segundo ele próprio me informou alegremente, assistira outrora à toilette diária de Madame Somoza. Perguntei-lhe se alguma vez tinha ali estado nos maus velhos tempos. Não, não, exclamou, levando as mãos à cabeça numa paródia daquilo que outrora teria sido um terror perfeitamente legítimo.(...)
Mostrou-me as instalações. 'Aqui era o bar. Ali era a casa japonesa onde Esperança Somoza gostava de se recolher para meditar. Aqui ficavam os guardas e acolá os cavalos.' A água da chuva ia abrindo brechas deteriorando a pouco e pouco os courts de ténis de cimento. Senti que a reconversão deste local de barbárie em Ministério da Cultura era uma vingança especialmente elegante, e era óbvio que Cardenal partilhava a minha opinião."

Em 1986, Salman Rushdie desloca-se à Nicarágua a convite da Associação Sandinista dos Trabalhadores Culturais. Comemoravam o sétimo aniversário daquilo a que chamavam o "triunfo" da Frente Sandinista. "Passei na Nicarágua três semanas do mês de Julho. Aquilo que se segue é, portanto, a imagem de um momento, e apenas um momento, na vida desse belo país vulcânico. Não fui à Nicarágua com a intenção de escrever um livro ou fosse que tipo de texto fosse; mas o meu encontro com o país afectou-me tão profundamente que acabei por não poder deixar de o fazer." Rushdie, com a felina crueza que se lhe conhece, não deixa de esclarecer no mesmo prólogo da edição que aqui se recomenda que não foi um observador "inteiramente neutro", que "não era, de modo nenhum, uma tábua rasa." As razões, enuncia-as com a honestidade do costume: "eu próprio era filho de uma revolta bem sucedida contra uma grande potência, e a minha consciência o produto da vitória da revolução indiana."
Salman Rushdie nasceu em Bombaim em 1947 e vive actualmente em Nova Iorque. O seu nome popularizou-se lamentavelmente não devido à sua brilhante produção literária mas à ordem de morte que foi emitida sobre a sua pessoa por Ayatollah Khomeiny pela autoria de Versículos Satânicos.

MIGUEL CERVANTES (1547 - 1616)
D.Quixote de La Mancha na Versão de Aquilino Ribeiro

Versão e prefácio de Aquilino Ribeiro, Bertrand, 2002

"- Saberás, Sancho, que o barco, que ali vês, está expressamente chamando por mim e convidando-me a que salte nele, e vá em socorro de algum cavaleiro ou de alguma alta pessoa, igualmente necessitada, decerto a atravessar um mau bocado. Tal é o estilo que se observa nas histórias cavaleirescas e com os encantadores em coisas desta natureza. (...) Estás a ver, Sancho, porque é que aquela casca de noz ali se encontra, tão certo como alumiar-nos ainda a luz do Sol. Antes que escureça, prende juntos Ruço e Rocinante, e que a mão de Deus nos guie. E toca a embarcar. Tão decidido, estou, que não voltaria a cara, nem que mo pedissem de mãos postas.- Pois que Vossa Mercê manda - resmungou Sancho - e tem a mania de praticar estas cabeçadas, não tenho remédio senão obedecer. (...) Para descargo da minha consciência, só quero observar a Vossa Mercê que este barco não me parece dos tais encantados, mas de pescadores do rio, que aqui se pescam os melhores sáveis do mundo."

Considerado o primeiro romance moderno, D. Quixote de La Mancha foi eleito em 2002 o melhor livro de todos os tempos por um conjunto de cem escritores nomeados pelo Instituto Nobel. D. Quixote, um fidalgo de Castela assanhado pela leitura de romances de cavalaria, decide que é seu "ofício e exercício andar pelo mundo endireitando tortos, e desfazendo agravos" e parte à aventura na companhia de seu fiel e prosaico escudeiro, Sancho Pança. As hilariantes maluquices do Cavaleiro Andante liquidam, com a sua "moral do fracasso", as últimas ilusões da epopeia: aquilo a que Adorno chama "a ingenuidade épica". D. Quixote abre caminho "aos personagens problemáticos de Sterne, Flaubert, Dostoievski, Kafka, Faulkner, Chandler, Borges e até Thomas Mann" - como refere Juan José Saer, escritor e ensaísta argentino. Depois dele, nada mais será igual. Miguel de Cervantes Saavedra, o autor de D. Quixote, foi romancista, dramaturgo e poeta. Nascido próximo de Madrid, estudou na Universidade, lutou no exército espanhol e foi feito cativo por piratas. Cervantes foi pobre até ao fim da vida e produziu a sua obra-prima em duas partes: a primeira foi publicada em 1605, a segunda em 1615. Contemporâneo de Shakespeare, é tão certo que o inglês tenha lido o seu D. Quixote como certo Cervantes não ter conhecido nenhum texto de Shakespeare.

EÇA DE QUEIROZ (1845 - 1900)
A Cidade e as Serras

Ulisseia, 1998

"Acordei envolto num largo e doce silêncio. Era uma Estação muito sossegada, muito varrida, com rosinhas brancas trepando pelas paredes - e outras rosas em moutas, num jardim, onde um tanquezinho abafado de limos dormia sob duas mimosas em flor que recendiam. Um moço pálido, de paletó cor de mel, vergando a bengalinha contra o chão, contemplava pensativamente o comboio. Agachada rente à grade da horta, uma velha, diante da sua cesta de ovos, contava moedas de cobre no regaço. Sobre o telhado secavam abóboras. Por cima rebrilhavam o profundo, rico e macio azul de que meus olhos andavam aguados.
Sacudi violentamente Jacinto:
- Acorda, homem, que estás na tua terra!
Ele desembrulhou os pés do meu paletó, cofiou o bigode, e veio sem pressa, à vidraça que eu abrira, conhecer a sua terra.
- Então é Portugal, hem?...Cheira bem.
- Está claro que cheira bem, animal!"

É curioso que o mais cosmopolita dos escritores portugueses estivesse a acabar A Cidade e as Serras quando, em 1900, a morte o surpreende na sua Paris de adopção. Há uma espécie de ironia nisto. Como se o sofisticado Eça tivesse feito, através do urbaníssimo, do snobíssimo Jacinto de A Cidade e as Serras, o seu próprio regresso simbólico e terno à "choldra", como ele chamava a Portugal. A Cidade e as Serras é uma obra editada postumamente, como A Ilustre Casa de Ramires e A Correspondência de Fradique Mendes.
Fincado na sua condição de burguês civilizado, a José Maria Eça de Queiroz nunca consolaram os feitos gloriosos do passado e custou sempre muito a manifesta incapacidade de modernização de Portugal, que o mais que sabia era, na sua leitura, copiar mal. Mas este desgosto - que sempre o acompanhou, o conduziu a sucessivos exílios voluntários e alimentou a poderosa veia satírica da sua obra - não matou a funda amizade que nutria pela pátria: indigente, inapta, mas em que nunca deixou de ler a improvável candura. Na biografia que Filomena Mónica faz de Eça, pode ler-se: "Nascido para as letras como um romântico, Eça só se libertou dos seus 'abutres' depois da viagem ao Egipto. Foi então que leu, com atenção, Flaubert. O estilo de Eça foi-se tornando mais atento ao pormenor, mais coloquial, mais exacto. A sua espectacular capacidade de absorção permitiu-lhe fundir o realismo e a prosa lírica. (...) Contudo não faz sentido aplicar um rótulo a Eça, um escritor capaz de, enquanto escrevia algum do melhor jornalismo europeu, imaginar mandarins assassinados por amanuenses, sonhos blolicos vividos por lisboetas lúbricos, sagas familiares que terminavam em tragédia." O seu humor salvou-o sempre da tentação sentimental. Os Maias e O Crime do Padre Amaro são, como se sabe, os seus livros maiores, mas A Cidade e as Serras tem o encanto de uma tardia declaração de amor à pátria com que sempre andou brigado.

ROBERT LOUIS STEVENSON (1850-1894)
Nos Mares do Sul

Tradução de EIsa Andringa, Publicações Europa-América, 2001

"(...) agora eu tinha escapado da sombra protectora do Império Romano, debaixo de cujos monumentos em ruínas todos fomos embalados, cujas leis e letras nos rodeiam por todos os lados de coacções e proibições. Podia agora reparar naquilo em que os homens podem transformar-se; aqueles cujos pais nunca estudaram Virgílio, nunca foram conquistados por César, e nunca foram governados pela sabedoria de Gaio ou de Papiniano. De um só passo tinha-me afastado daquela zona confortável das linguagens aparentadas, onde o anátema de BabeI é tão fácil de remediar; e os meus novos semelhantes sentavam-se à minha frente mudos como estátuas."

O escocês Robert Louis Stevenson é uma referência da literatura juvenil e de aventuras e um dos mais populares intérpretes do romantismo do séc. XIX. Autor de sucessos como A Ilha do Tesouro, A Flecha Negra ou Dr.Jekyll e Mr. Hyde, Stevenson dedicou-se tanto à ficção como à não-ficção: com uma produção literária imensa, tudo o interessava, do ensaio crítico à política, das aventuras às biografias, passando pela História e, claro, as viagens. Se durante grande parte da sua vida de escritor, Stevenson foi um aceso adepto da literatura-entretenimento e se se via a si mesmo como um contador de histórias, este Nos Mares do Sul corresponde a uma fase em que a sua escrita ganha uma densidade nova. Não é de estranhar. Em 1888, mais por motivos de saúde que por amor à aventura, Stevenson parte com a mulher, o enteado e a mãe num longo cruzeiro pelos mares do Sul. Nunca lhe passou pela cabeça que não regressaria à Escócia. Mas não pôde regressar. A tuberculose de que muito provavelmente sofria (nunca foi diagnosticada em vida) e que o atormentou por longos anos, não lhe permitiu voltar a cruzar o Equador. A sua fragilidade fê-Io refém nas ilhas do Pacífico, onde acabou por morrer seis anos depois. Este exílio forçado, que o fez saudoso e triste nos seus últimos tempos, não o impediu de viajar intensamente pelos mares do Sul e levou-o a um envolvimento crescente com os povos daquelas paragens e com os seus destinos temporais. Stevenson desenvolveu um olhar crítico sobre o imperialismo ocidental e defendeu a auto-determinação dos povos dos arquipélagos do Pacífico. Nos Mares do Sul é um notável conjunto de ensaios sobre aquilo que observou nas ilhas do Pacífico e assume um inesperado carácter político que, se defraudou os seus leitores habituais, conquistou o apreço de Joseph Conrad.

ROBERT LOUIS STEVENSON (1934)
Na Sibéria

Tradução de Patrícia Estudante Protásio, Publicações Europa-América, 2002

"(...) a carrinha debate-se com margens intransponíveis, e nós subimos a pé através de um silêncio luminoso e frio. Por vezes a neve eleva-se acima dos nossos joelhos. Yuri vagueia para a frente, indiferente, com o chapéu enfiado até ao pescoço. Eu sigo nas pegadas dele, o meu coração acelerando, como se estivéssemos a entrar numa catedral ou numa morgue. Em vez disso chegamos a um amontoado de edifícios administrativos de pedra amarela. Estão todos arruinados, os telhados cederam, as portas retiradas das dobradiças ou apodrecidas. Os caixilhos das janelas são rectângulos de nada prateados pela neve. Degraus conduzem a uma varanda e através de uma porta para uma descida de sete metros. O poeta Anatoly Zhigulin, que sobreviveu a este campo na década de cinquenta, descreveu mutilações brutais, acidentes, assassínios sangrentos, golpes desesperados. Um prisioneiro não tinha nome, não tinha identidade."

A Sibéria corresponde a um-doze-avos da superfície terrestre do planeta. Tem os mais profundos lagos, algumas das mais altas montanhas e é o mais frio e inabitado local do mundo. Só há alguns anos foi possível a um ocidental viajar na Sibéria e Colin Thubron, um veterano da Literatura de Viagens, foi dos primeiros a agarrar a oportunidade. Em 1997 parte na aventura que descreve. Na contracapa da edição recomendada pode ler-se: "Subindo o rio Yenisei para o Árctico, entrando nas montanhas circundantes da Mongólia, a leste para o Amur, o Pacífico e os gulags abandonados de Kolyma, ele viajou de comboio, por rio e camião entre o povo mais afectado pelo colapso do Comunismo e o desmembramento da União Soviética. Viajou com budistas e animistas, facções cristãs radicais, comunistas reaccionários e as reminiscências de um alegado Estado judeu; do local do assassínio do último czar e aldeia de Rasputin às sepulturas presas no gelo de antigas citas, a Baical, o mais profundo e mais antigo lago do mundo."

ALMEIDA GARRETT (1799 - 1854)
Viagens na Minha Terra

Introdução de Maria Ema Tarracha Feneira, Ulisseia, 2002

"Frades... Frades... Eu não gosto de frades. Como nós os vimos ainda os deste século, como nós os entendemos hoje, não gosto deles, não os quero para nada, moral e socialmente falando. No ponto de vista artístico, porém, o frade faz muita falta.
Nas cidades, aquelas figuras graves e sérias, com os seus hábitos talares, quase todos pitorescos e alguns elegantes, atravessando as multidões de macacos e bonecas de casaquinha esguia e chapelinho de alcatruz que distinguem a peralvilha raça europeia - cortavam a monotonia do ridículo e davam fisionomia à população.
Nos campos, o efeito era ainda muito maior: eles caracterizavam a paisagem, poetizavam a situação mais prosaica de monte ou de vale; e tão necessárias, tão obrigadas figuras eram em muitos desses quadros que sem elas o painel não é o mesmo.
Além disso, o convento no povoado e o mosteiro no terno animavam, amenizavam, davam alma e grandeza a tudo: eles protegiam as árvores, santificavam as pontes, enchiam a terra de poesia e solenidade."

Viagens na Minha Terra é, com Frei Luís de Sousa, a obra-prima de Almeida Garrett e um caso singular na literatura portuguesa. Pela exuberante liberdade e pelo género, indefinível: misto de relato jornalístico, narrativa de viagens, ficção, autobiografia, comentário, etnografia e divagação irónica. "Uma afirmação original de individualismo, que caracteriza as suas obras de maturidade, e a que não é alheia a influência de Goethe."
Viagens... nasce, em 1843, de uma viagem que Garrett faz de Lisboa a Santarém, e só é integralmente publicada em 1846, tendo sido de início produzida em folhetins - o que explica a estrutura da obra e o seu carácter digressivo. A deslocação tinha como objectivo a visita a Passos Manuel, amigo de Garrett e veemente opositor à ditadura de Costa Cabral, e foi por isso recebida como curiosidade política. Mas há indícios de que Garrett tinha consciência de que Viagens... era um objecto estético que desafiava os padrões da época. Cronista, romancista, poeta, dramaturgo, Garrett foi um "homem do mundo", bem formado intelectualmente, activista cívico e político em tempos conturbados, por várias vezes exilado, combatente, homem de corte, de parlamento e de salões, janota, de amores ardentes e complicados, padeceu penúrias e chegou a ministro. Incongruente nas suas convicções liberais, o burguesíssimo João Batista da Silva Leitão só descansou quando, já quase no fim da vida, foi feito Visconde de Almeida Garrett.*
*Texto construído a partir da introdução de Maria Ema Tarracha Ferreira na edição da Ulisseia de 2002.

GOETHE (1749 - 1832)
Viagem a Itália

Tradução, prefácio e notas de João Barrento, Relógio d' Água, 2001

"Hoje à tardinha subi à torre de S. Marcos; como tinha visto recentemente lá de cima as lagunas em todo o seu esplendor na altura da maré-cheia, queria vê-Ias também na sua hora mais modesta, com a maré vazia; é preciso juntar estas duas imagens se quisermos conhecer bem esta realidade. É estranho ver aparecer por todo o lado terra onde antes havia água. As ilhas agora não são ilhas, mas apenas manchas mais altas edificadas de um grande pântano cinzento-esverdeado, atravessado por belos canais. A parte pantanosa está coberta de plantas marítimas e isso fará com que a pouco e pouco se eleve, embora as marés constantemente as revolvam e arranquem, não dando tréguas a esta vegetação. Volto com a minha narrativa ao mar onde hoje vi com muito gosto o mercado dos búzios, moluscos e caranguejos. Que preciosas e magníficas são todas as coisas vivas! Como se ajustam à sua condição, como são verdadeiras, realmente existentes!"

Em Setembro de 1786, Johann Wolfgang Goethe parte para Itália no cumprimento de um plano longamente maturado: a Itália era o destino maior do grand tour europeu, obrigatório para todo o cultivado, o intelectual, o artista do séc. XVIII. Dezoito anos antes, Goethe escrevera a um amigo: "Para Itália, Langer! Para Itália! Mas sem pressas. Ainda é muito cedo, ainda não tenho os conhecimentos de que necessito, falta-me muito. Paris será a minha escola, e Roma a minha universidade. (...) Quem a viu, viu tudo. É por isso que eu não me apresso." A maturidade que Goethe se impôs para se fazer àquilo que considerava o centro, teve por resultado uma obra que se tomou um marco na produção literária do autor de Fausto e de Werther, uma viragem na Literatura de Viagens e uma referência preciosa para todos quantos depois viajaram em Itália. Viagem a Itália estabeleceu novos cânones. Ultrapassando o convencionalismo do grand tour, Goethe experimenta Itália colocando-se numa posição que não se confina à observação arrebatada da grande arte clássica e renascentista, mas que é essencialmente um processo de encontro consigo mesmo através do que contempla. E na procura de um confronto verdadeiro e produtivo com o exterior, adopta, curiosamente, um rigoroso método "anti-romântico "(...). Durante ano e meio, Goethe viaja por Itália sozinho, corresponde-se e anota num diário as observações e reflexões que lhe servirão de base à redacção de Viagem a Itália - concluída nova incursão italiana e mais de trinta anos depois da primeira viagem a Itália.*
*Texto construído a partir do prefácio de João Barrento na edição Relógio d' Água de 2001.

LUÍS VAZ DE CAMÕES
Os Lusíadas

Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1999

"Cessem do sábio Grego e do Troiano
As navegações grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandro e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram;
Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
A quem Neptuno e Marte obedeceram.
Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
Que outro valor mais alto se alevanta."
Canto I, est. 3

Luís de Camões viu impressos, "com licença da Santa Inquisição", Os Lusíadas no ano da graça de 1572. O grande poema épico português é, também, um dos textos maiores da Literatura Universal. Os Lusíadas, que terá começado a ser escrito em 1557-58, surge num período onde era já evidente a debilidade do Império Português. Verdadeira epopeia da Renascença, segundo alguns, Os Lusíadas cantam um lírico louvor ao Portugal que buscou "novo céu e novas estrelas", nas palavras de outro grande luso, Pedro Nunes.
Sobre Luís de Camões são tantas as lendas, os folhetins, as histórias, que o mais seguro é cingirmo-nos aos poucos factos documentados. Terá nascido em Lisboa, porventura em 1524, estudou em Coimbra e há a tese de que terá passado por alguma Universidade italiana. Conhecia profundamente os Clássicos e fez-se num ambiente social e intelectual propício ao desenvolvimento de um poeta superior. E depois, de Ceuta à Índia, passando pela China e por Moçambique, Luís de Camões experimentou na carne o impacte da Expansão portuguesa no mundo. De regresso a Lisboa, empenhou-se, com urgência, na publicação de Os Lusíadas. Os amores, as brigas, os disparates, a má sorte levaram-no a prisões, a cisões e, finalmente, à miséria em que se pensa morreu em 1580.

MARCO POLO (1254 - 1324) 
O Livro de Marco Polo

Tradução de H. Ferreira Alves, prefácio de Irene Martins, Colares, 2000

"De dois em dois anos, ou com mais frequência, conforme seu desejo, o Grão-Kan envia ali os seus oficiais, que reúnem para ele cem ou mais das mais formosas mulheres, de acordo com as normas de beleza que lhes dá nas suas instruções.(...) estes funcionários mandam reunir todas as jovens da província e nomeiam pessoas qualificadas para as examinarem, e que, depois de realizarem uma cuidadosa inspecção de cada uma delas, (...) calculam o seu valor (...) conforme o seu maior ou menor grau de beleza. Separam então o número de mulheres exigido pelo Grão-Kan (...) e enviam-nas à corte. Ao chegarem à sua presença, o Grão-Kan ordena que sejam submetidas a novo exame (...). São colocadas, individualmente, sob as atenções de algumas mulheres do palácio, de idade madura, cuja missão consiste em observá-Ias cuidadosamente durante o curso da noite, a fim de se assegurarem de que não têm nenhuma imperfeição oculta, dormem tranquilamente, não ressonam, têm hálito suave e estão livres de odores desagradáveis em qualquer parte do corpo."

Entre 1297 e 1298, Marco Polo ditou as memórias das suas viagens pelo Oriente, pelo Império do Grão-Kan, o Rusticiano, erudito cavalheiro que foi seu companheiro no cativeiro que sofreu devido à guerra entre as Repúblicas de Veneza e de Génova.
Marco Polo era veneziano. Filho de uma opulenta casa mercantil e descendente directo de audaciosos navegadores, Marco Polo partiu, aos 17 anos, com o pai e o tio para uma viagem pela Ásia. Cerca de vinte anos duraram as suas aventuras pelos imensos domínios do imperador dos mongóis e dos tártaros, da China ao Iraque, da Índia ao Japão e ao Vietnã, e é a narrativa do que viu, mais do que o que passou, que ocupa as páginas do lendário O Livro de Marco Polo. A divulgação da obra beneficiou da emergência da imprensa, em meados do séc. XV, e serviu, durante gerações, de guia a viajantes, mercadores e políticos. Marco Polo é considerado um dos fundadores do género Literatura de Viagens.


VIAJAR NOS LIVROS
RUI M. PEREIRA*

POR LITERATURA DE VIAGENS entende-se habitualmente um subgénero, ou o que hoje consideraríamos como tal, entre a crónica (ou diário de viagem) e a ficção. Durante muito tempo esse conceito esteve directamente relacionado com a literatura que, desde finais do século XV, se desenvolveu na Europa com o aparecimento de novas realidades, a descoberta de novos territórios, o encontro de novas gentes.

Essa literatura, que englobava documentos e testemunhos mais ou menos verídicos, colocava a questão das relações entre a história e a ficção, "acompanhando de maneira mais ou menos djferida, as vicissitudes dos descobrimentos e as temerárias viagens no desconhecido em missão de achamento" [João Rocha Pinto, "Literatura de Viagens", Dicionário de História dos Descobrimentos Portugueses, vol. II, dir. de Luís de Albuquerque e Francisco Contente Domingues, Lisboa, Círculo de Leitores, 1994]. É a partir daqui que a História se apresenta como "construção seleccionada e dirigida da verdade", que traduz "o ideário humanista e as atribuições que nele são cometidas ao poder da Palavra" [José A. Cardoso Bernardes, História Crítica da Literatura Portuguesa. Humanismo e Renascimento, Lisboa, Editorial Verbo, 1999].

A necessidade de registar rotas e percursos está na base daquilo que hoje se considera literatura de viagens, ou literatura da viagem. Os roteiros e diários de bordo são os seus antecessores, e as Décadas, de João de Barros e Diogo do Couto, o Roteiro que Fez Dom Joam de Crasto da Viagem que Fizeram os Portugueses Desd Imdia Atee Soez (título do códice da James Bell Collection, Universidade de Minnesota), o Roteiro da Primeira Viagem de Vasco da Gama, atribuído a Álvaro Velho, ou a Carta a D. Manuel sobre o Achamento do Brasil, de Pêro Vaz de Caminha, são exemplos máximos dessa literatura onde a realidade ultrapassa as suas próprias fronteiras, permitindo a inserção de anotações, reflexões, Apontamentos, descrições que se diluem no espaço da própria escrita.

Na cultura ocidental, o relato de viagens transporta ainda em si esse elemento comum que tem permitido classificar o género: a imagem do que é "estrangeiro", exterior ao território conhecido, o lugar do sonho e da vivência possível fora dos parâmetros sociais e culturais em vigor, um universo novo, feito de raças, línguas e culturas por conhecer. Não poucas vezes o relato de viagens originou a decorrente imanência de uma gestão das alteridades num discurso paracientífico que, com o tempo, se afirmaria antropológico, um processo que vai do crescimento do "conhecimento comum" à sua transformação em "conhecimento científico" [Karl R. Popper, The Logic of Scientific Discovery, Nova Iorque, Harper & Row, 1968 (2.a ed.)].

O escritor conquista um estatuto especial ao acrescentar à sua vocação a capacidade de observação do viajante. Curiosidade e inspiração são, assim, os dois vectores de onde o texto emerge. Narrador, actor, sujeito e objecto da jornada aventurosa, o escritor de textos de viagem ficciona para que o leitor o acompanhe a esse país de onde o seu relato nasce, envolvendo-o na especificidade da sua extraordinária aventura, convocando-o para a sua escrita.

O Instituto Português do Livro e das Bibliotecas escolheu este ano o tema da Viagem como pano de fundo para as comemorações dos vários dias do Livro. Essa viagem, que na poesia se transforma no percurso iniciático da própria escrita, tomando-se viagem pelo interior do poeta e da palavra poética, é aqui proposta por Paula Moura Pinheiro através de uma selecção de textos de autores consagrados. Assumindo com frontalidade a escolha, a selecção é evidentemente subjectiva, e os trinta excertos desses autores, nem todos habitualmente inseridos pelos cânones na literatura de viagens, têm em comum a ideia do confronto do homem com o desconhecido e o exercício da memória e da imaginação para o testemunhar.

O percurso apresentado levará certamente o leitor à interiorização do próprio conceito de viagem. A variedade de experiências apresentadas levá-Io-á a espaços e tempos múltiplos, e fá-Io-á revisitar Camões, Garrett, Eça ou Raul Brandão, ou conhecer Isabelle Eberhardt, Elias Canetti ou Colin Thurbron. Que a viagem se inicie...

*Director do Instituto Português do Livro e das Bibliotecas


Paula Moura Pinheiro

A SELECÇÃO DE OBRAS LITERÁRIAS que aqui apresentamos sobre A Viagem não é uma bibliografia exaustiva sobre o tema, e menos ainda uma lista obrigatória. É uma proposta de viagem através das viagens que estes trinta (quase sempre grandes) escritores elaboraram a partir das viagens que fizeram. Porque não basta a experiência, garantidamente singular em cada um de nós -, aquilo que aqui propomos são trabalhos literários a partir da experiência. Da fundadora Odisseia ao subversivo D. Quixote, passando pelo inquietante O Coração das Trevas e pelo assertivo Nicarágua: O Sorriso do Jaguar - trata-se de um convite à travessia da consciência dos homens, ao longo dos tempos, no seu confronto próprio, noutros espaços. No seu confronto com "novo céu e novas estrelas", para usar as palavras de Pedro Nunes (séc. XVI). E nesta matéria, calha que os portugueses têm um lugar especial. Foram os primeiros a testar, na prática, os conhecimentos dos Antigos sobre os trilhos e os recortes diversos deste mundo. Os portugueses foram os primeiros a atrever-se a experimentar. Desassombrados, desamparados, partiram e ligaram pela primeira vez os continentes. Por mar. O Mar e o Sul ocupam, aliás, lugares centrais nestas deambulações. Tentei cobrir os quatro cantos da Terra. Da África ao Japão, da Sibéria aos Mares do Sul, da Europa Central aos EUA. A questão do género. Os puristas só consideram Literatura de Viagens aquela que relata factos verídicos. Que restrição tão pobre! Como estabelecer fronteiras exactas entre o que viu Marco Polo e o que diz que viu? Como prescindir da espantosa viagem em que E. M. Forster nos embarca no seu extraordinário Passagem para a Índia, construído, naturalmente, através de viagens que efectivamente realizou? Deixei de lado purismos. E, depois, há faltas e atrevimentos. Para dar apenas dois exemplos, falta o imprescindível Rihlah de Ibn Battutah, não traduzido em português, e falta A Viagem de Pêro da Covilhã pelo Conde de Ficalho, esgotado na editora. Tive de me cingir ao que está traduzido, o menos-mal possível, e ao que se encontra disponível no mercado. Os atrevimentos. Cosmos, de Carl Sagan, e Sibéria, de Colin Thurbron. Nenhum dos dois passa num crivo literário medianamente exigente, mas privilegiei os caminhos por onde nos levam. Finalmente, uma confirmação. Como Cavafy nos lembra em Ítaca, o seu imortal poema sobre o sentido da demanda de Ulisses, o mais importante não é chegar. É o desejo, fremente, de partir. E a experiência da travessia de si no tempo e no mundo.

"Mas não te apresses nunca na viagem. É melhor que ela dure muitos anos, que sejas velho já ao ancorar na ilha, rico do que foi teu pelo caminho, e sem esperar que Ítaca te dê riquezas. Ítaca deu-te essa viagem esplêndida. Sem Ítaca, não terias partido. Mas Ítaca não tem mais nada para dar-te. Por pobre que a descubras, Ítaca não te traiu. Sábio como és agora, senhor de tanta experiência, terás compreendido o sentido de Ítaca."

Espero que goste tanto desta viagem como eu gostei de a desenhar para si.

 
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